NÃO MORRAS

Morri.

Tenho agora a certeza disso. Há um tempo que ando assim, sem substância, nem peso, numa inexorável leveza que me leva a pairar pela minha casa, olhando tudo à volta e de cima, numa existência volátil. Tudo é turvo, até o som das vozes é abafado. No início não ouvia a minha voz, a minha respiração, não me sentia.

Mas existo.

E sei disso porque vi um corpo inerte e dele me aproximei: tinha a cara que via todas as manhãs ao espelho. Nunca me vi de olhos fechados, mas vejo o que provavelmente o faz a Sara todas as manhãs quando acordava e me mirava com os seus olhos graciosos. Sim, tudo é turvo, pois é com esforço e determinação que me aproximo da minha mulher que já não me sente.

Já passei a fase de desespero, de desnorte, sem perceber porque não consigo reentrar nesse corpo inerte que eu sei ser meu e de me despertar nele como todas as manhãs, tomar o banho, fazer a barba, vestir-me, sair do quarto e ter o pequeno almoço à minha espera.6F630EB2-0939-4B43-B0D0-61AE1958CCD7-1798-000001C7631D7935

Porém, graças a um truque – chamemo-lhe de imaginação -, já consigo “ver-me” e assim, fazer de conta de que tenho membros, mãos, cabelo, etc. E sou do sexo masculino! Sim, porque uma vez ultrapassando a fase de aceitação da nossa condição etérea, as coisas tornam-se mais simples, vemo-nos e sentimo-nos com mais acuidade. Abstraímo-nos depois da nossa real situação e construimos um mundo e um físico à nossa volta! É assim aqui, julgo.

Não é fácil e já dei por outros como eu, que circulam por aí como presenças perdidas, uns tão confusos como eu no início, outros mais inteirados do seu estado e por sinal, mais resignados. Mas todos tristes neste purgatório, onde não se sabe se é céu, se já é inferno, nessa existência intermédia entre a vida mortal e a badalada eternidade, num vaguear errático sem fim, em busca de uma resposta à nossa condição de mero ente. À procura de quem nos possa ouvir. Estamos tão sós.

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Como eu queria falar com a Sara.

As horas não passam se é que se pode falar delas. Não consigo precisar a sequência dos eventos, o que veio primeiro ou o que passou a depois. A ausência de referências temporais torna difícil lembrar das coisas.

Numa das ocorrências, por exemplo, vejo muita gente a aparecer. Ora sós, ora acompanhados, fazendo vénias e salpicando a fotografia com água. Caras conhecidas mas tudo muito nublado. Sei quem são, e estão aí por causa da pessoa retratada. E mais uma vez me reconheço nessa fotografia. Lembro-me então que isso é funeral. O meu.

Mas o que me interessa é Sara. E ponho-me ao lado dela, sempre que a localizo, olhando todos os seus movimentos, seguindo-a de perto sem querer perdê-la de vista. Já desisti de chamar por ela, pois sei que não me ouve. Mas ao menos ter a esperança de que ela dê conta duma presença a seu lado, que o ar crie uma brisa com a minha passagem, para banhar a sua beleza.

O normal seria as pessoas ignorarem-me, ademais, nem dão por mim. Todavia, há uns que me enxergam, com aquele olhar que não deixa dúvidas de que existimos para eles, como aliás aconteceu, nessas que foram as minhas exéquias. No entanto, não consigo chegar-lhes a fala, não sou uma borboleta, nem bicho raro que sobrevoa o recinto nessas ocasiões. Não consigo pedir-lhes nada. Nada para os ouvidos da minha Sara.

Ghost-Hand-Hero-1500Estou a tentar lembrar-me do que aconteceu. Foi uma dor intensa no meu peito, julgo. Tenho a impressão de que estava em casa e li uma coisa qualquer, sem poder precisar, neste momento, que relevância isso tem.

Mas não consigo concentrar-me por ora, pois a Sara não pára de andar de um lado para o outro. Não quero perder-lhe o rasto.

Vejo-a sentada na cama. Deve estar cansada, pois o dia foi demasiado pesado, calculo. É obra ter de aturar tanta gente e suportar os abraços, beijos, palavras de conforto e de solidariedade, flores, tudo para resgatá-la do desgosto que, afinal, só ela compreende em toda a sua extensão. Suponho que tenha chorado, mas não tenho a certeza. A névoa não me permitiu presenciar isso, se calhar ainda bem. Mas aí está ela, sentada na borda da cama, cismando. Não sabia quando ela começou a fumar. Quando começou a beber. Os cigarros sucedem-se assim como os goles dessa bebida amarelo-bronzeada, que me lembro se chamar uísque.

whiskey-tasting-1-700x461 (1)Levanta-se e verte mais um pouco desse néctar no seu copo, servindo-se de um gole, enquanto despe o negro do seu corpo. Leva a bebida – e a garrafa, suponho – e entra na casa de banho, onde a água já jorra sobre a tina.

Nua, Sara sente-se na borda da tina com o copo renovado de bebida. Com a outra mão tapa a cara, enquanto franze a testa. Sei que soluça. Sorve-o uísque num trago e de seguida introduz-se na água, que calculo ser morna. Ela não se mexe, de quando em vez os seus dedos tacteiam os seus seios, o seu joelho, em gestos lentos e suaves, enquanto a água jorra sobre o dorso dos seus leves pés. E mais um gole atravessa a sua garganta, visível quando estica o seu esguio pescoço ao pousar a sua nuca sobre a borda da banheira.

Que saudades tenho desse corpo que me invoca tantas imagens, dos dias em que tinha mais tempo para ela, em que eu era um ninguém, sem os títulos executivos, sem as viagens prolongadas que tinha de fazer pelo mundo fora, em troco da fortuna imensa que fui fazendo. Dias de chau min com coca-cola, van tan min no velho Vai Kei, beijocada, marmelada e tanta cumplicidade marota ao escuro do CineTeatro.

Saudades da nossa cama, das unhas compridas a arranharem desenhos do imaginário no meu peito, das pupilas dilatadas desses seus olhos nos meus, quando por cima dela e encharcado de suor a possuía loucamente, desses dedos de pé que me faziam festinhas nas têmporas, enquanto se reafirmavam com ardor as nossas juras de amor.

sleeping bath2Mais um gole. E ela repõe o copo vazio com mais bebida. O seu olhar é cada vez mais vago, inerte, sem destino. De solidão, de derrota. De desintegração. Gostaria de penetrar na sua cabeça para saber o que sente, ao menos para aplacar o que pesa dentro dela. Ao menos para lhe dizer que sei o que é estar só.

Enche o copo mais uma vez. Mas desta vez acaba por não beber nada, porque deixa a bebida entornar-se no seu peito. Seus olhos semicerram e resta pouco para fecharem completamente. Pressinto que algo de mau está prestes a acontecer.

O seu corpo cede e começa a deslizar-se para dentro da água, sem que ela tenha noção disso. Ou será que tem?

Imagens do regresso da minha longa ida ao Brasil aparecem. E lembro-me da minha promessa – mais uma – de que a viagem seria a última do género e me dedicaria de futuro só a ela. Fiquei aí mais uma semana do que o previsto, por causa de uma reunião executiva de alto nível, marcada à última hora, “a que não podia faltar”. Vejo-me a entrar em casa e a estranhar o silêncio, enquanto pouso a bagagem. Dirijo-me ao quarto, impecavelmente arrumado. Solto a minha gravata e quando a coloco no armário deparo com a ausência do seu vestuário.

Sara agora não desperta, a sua cabeça imersa na água que não pára de encher a tina.

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Visões assaltam-me agora com mais persistência. Em casa deixa-se de haver rasto da minha mulher. Ligo para os telefones que conheço, mas nenhum dá sinal. Procuro a informação que me leve ao menos a calcular o seu paradeiro. Em vão.

E aparece-me um bilhete sobre a cabeceira, sobre o qual pousa o seu anel de casamento.

“Fernando,

Quando leres isto, estarei longe de ti. De vez. Perdoa-me a fraqueza, mas não aguento mais. Não posso viver assim. Custa-me a escrever isso, faltam-me palavras. Não vou desenvolver mais, pois não quero que me falte a coragem de dar este passo.

Encontrei outra pessoa.

Até sempre Fernando. Cuida-te.

Sara”

Bolhas saem do nariz da Sara que entra num estado de dormência debaixo da água a atingir a borda. Ela não tosse e não acorda.

Vejo-me andar de um lado para o outro em busca de uma explicação. Não podia, então, crer que a minha mulher me deixasse, quando acabei de voltar de  uma viagem coroada de sucesso, aquela que seria o ponto de viragem para as nossas vidas. Que ela saberia do quanto me custou subir na empresa? Todo o seu conforto na casa tem sangue e suor meu. Todas as viagens em primeira classe para as cidades mais conhecidas do mundo, são pagas com o quê?! E ela traiu-me enquanto lá fora me escravizava por uma vida melhor!

sleeping bathEstava furibundo, revoltado contra a crueldade da minha mulher, contra a sua leviandade e leveza do seu espírito. Contra a indecência da sua condição de mulher casada. Recorri-me a todos os pensamentos mais odiosos contra ela. Não podia admitir que ela gemesse com outro homem. O meu coração bombeava intensamente e carburava mais ódio. Mais ainda, quando enchi os pulmões e gritei-lhe todos os nomes mais horripilantes que o meu extenso vocabulário me permitia, atirando de seguida o meu anel contra a parede.

Tinha esgotado o meu arsenal de argumentos justificativos da minha ira. Arfava de nojo por ela. Olhei para o nosso quarto largo e todas as comodidades existentes, caprichos de um homem de sucesso e me interroguei, se essa imensa cama continuava a fazer sentido. O silêncio era absoluto, neste meu apartamento do quadragésimo quinto andar forrado de vidros duplos.

Porém, dei-me de súbito por me sentir mal, tal qual quando a consciência duvida da seriedade da nossa animosidade. Náuseas por um sentimento forte mas artificioso de que fazemos uso, quando nos falta a ousadia para enfrentar as nossas fraquezas. Mormente a verdade sobre a podridão que nos vai corroendo, à medida que nos vamos esquecendo da pureza dos primeiros anos do nosso ímpeto. Quanto a mim, um sentimento de cobardia, para encobrir um egoísmo atroz que afinal minara o que havia de bom e de belo entre nós dois.

originalSerá que cheguei tarde? Terei mais uma vez decidido unilateralmente o que era melhor para nós dois? E os filhos que andámos por planear? E a viagem de cruzeiro no  Mar Egeu que ficou na prateleira? E as tardes a fazer nada mais que encostados um ao outro a saborear o sol? E as noites a fazer amor para o deleite da Lua e as estrelas que a acompanham? E outras tantas promessas, possíveis e impossíveis de uma vida a dois, só para dois?

Apanhei o anel, repú-lo no meu dedo e deitei-me na cama.

Cheguei mesmo tarde. Fiz merda, não fiz?! O meu coração respondia à martelada.

Sara agora não respira. O meu desespero é incontável. Impotente em fazer fosse o que fosse e assistir o fim da minha amada. Não consigo tirá-la da água, pelo menos ainda não encontrei truques para o fazer. Ao mesmo tempo, revivo as imagens que voltam a tomar conta de mim. A respiração  a escassear e o meu corpo a transpirar, enquanto prostrado na cama abraçado à última carta da Sara. Indolência com formigueiro percorria em toda a extensão do meu braço.

Sara!”, brado alto, junto à superfície da água, que se mantém lisa, por mais esforço que faça para a agitar.

Ressinto a picada forte no meu coração, que me levou a arquear  as costas e levantar o peito. Faltou-me a respiração, a minha cabeça pressionou forte sobre o colchão, a minha mão machucava a carta, meus músculos faciais retesavam-se.

De súbito a dor pausou e recuperei a respiração. Estava encharcado de suor.

Mergulho na água, mas não senti densidade nenhuma, era como se ela não existisse. Olho para a Sara que não mexe mais, o corpo não reage, não leio sinais de animação.

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“Acorda, Sara, por favor….acorda! Tu não, não mereces isto. Não mereces fazer isto…por mim. Sara, suplico-te! Acor…”

Não termino a frase, porque a dor retorna e transporta-me de novo para cama, agarrado à carta. Revivo intensamente este momento como que duas vivências temporais se encontram acopladas numa só. O golpe desta vez foi mais forte, como uma lança a trespassar-me o peito, numa violência lancinante. O meu braço esquerdo, como que electrizado não movia.

“Saraaaaa!”

Mais uma investida no coração e não consegui enxergar mais.

Escuro. Mortalmente escuro.

Porém, lentamente a claridade foi aparecendo. Comecei a ver, olhando para todo o lado, sem norte. Sem cima, nem baixo. E tudo turvo.

Assisti o meu fim, como um filme que se revê.

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AAAHHHHH!” O suspiro não é meu. É finalmente da Sara.

“Estás?”

“Consegues ver-me?” Estou incrédulo.

Sara assente.

Nada é turvo agora. Vejo-a nitidamente, como se usasse óculos com graduação correcta, num dia límpido e solarengo. Todos os sinais da sua face, a pele fina do seu pescoço, os seus cabelos escuros com madeixas loiras, olhos castanho-claros. Em todo esse tempo, é a primeira vez que sorrio.

Mas depressa também me arrepio.

Os seus olhos não pestanejam, antes denunciando lágrimas e querem seguir todos os meus movimentos. Ela consegue ver e ouvir-me. Como o choro faz dela uma mulher tão adorável.

Abraço-a como há muito não fazia. Aperto-a com toda a força que conhecia.

“Desculpa, Fernando”. Balbucia.

“Não meu amor, não digas isto”.

“Deste-me a oportunidade de o dizer. E estiveste ao meu lado, depois que eu te deixei.”

“Quis ficar para te dizer que estou bem e que não te preocupes comigo. E mais …  perdoa-me por estes anos de abandono. Não tens culpa de nada. No teu lugar faria o mesmo”.

“Basta, Fernando. Estamos juntos é o que interessa.” 1_ShMcGMaSz-ZtQR_0ZWmpJQ

“Estamos, amor. Mas, isto não é lugar para ti, nem para mim. Não é para mim, pois aqui solidão é cruel e injusta. Não é para ti, porque não é assim que deves vir. Volta para trás enquanto puderes, que viverás mais feliz. Acredita, que estou bem e é isso que te peço, pelo amor que tenho por ti.”

Os cristalinos olhos da Sara tremem húmidos, num misto de compreensão e de gratidão. Mas de pena também, porque no fundo, querendo estar comigo, sabe que eu tenho razão.

Fernando…”. Tapei-lhe a boca.

Não morras, meu amor.”

Beijo longo, como teriam sido muitos outros no Mar Egeu, sob os auspícios da Lua e do seu séquito de estrelas. Os nossos olhos não fecham, para contarem tudo um ao outro, o que para tanto palavras não existem, nesta derradeira oportunidade. Até que a névoa volta a aparecer, turvando a minha visão da Sara, minha linda Sara.

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Desta vez encontro-me a sorrir de gratidão a quem deverá recebê-la.

Oiço o som abafado de quem está a tossir, a fazer lembrar dos tempos de miúdo das minhas aulas de natação, lutando para estar à tona e expelindo água que a inexperiência me fazia engolir.

Por fim, o mesmo suspiro prolongado.

Não me fui embora. Quis ter a certeza de que tudo esteja bem. Olho para a Sara e observo um semblante sereno. Dorme profundamente como consigo constatar pela sua respiração pausada. Noto uma leve curvatura para cima em cada canto dos seus lábios finos, como quem inicia um sorriso.

Não há nada mais fascinante que apreciar a nossa amada a dormir. A sua face é aquela que nada tem a esconder, sem defesas, sem pantomima, face que tão-só faz transluzir um estado de alguém completamente entregue às cores do seu imo. E se é bela, ela o é ainda mais, quando mergulhada na paz do seu sono. A minha Sara é isso.

Suspiro de saudade antecipada. Não há melancolia, porém. Apenas a certeza de que a amo. Eternamente.

E abre-se luz no meu caminho. Não estou só e agora sei para onde vou.

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É altura de partir.

 

19 de Outubro de 2018, sexta feira.

© Miguel de Senna Fernandes