CHI-CA-POM, O BOLERO IMPROVÁVEL

 

I

“Yo para querer…No necesito una razón…Me sobra mucho…Pero mucho… corazón” (1)

A voz de veludo de Omara Portuondo rasgava a calmia desse serão no Beco do Musgo, ao som do bolero da charanga cubana. Por mais que quisesse, Nico não atingiria aquelas notas como conseguia muitos anos atrás. A idade cobra juros e o rum não ajudava nada.

O ar estava quente e húmido em casa. Nessa noite do fim de verão, Nico suspirava nostálgico, expelia da sua boca o fumo da sua cigarrilha, enquanto sorvia um Santiago de Cuba e se retorcia com o ritmo alternado dos bongos, congas, guiros e maracas. Não estava com vestimenta de casa. Ao invés, usava camisa com padrões floreados, calças de cor beige, suspensórios. Os seus sapatos de tons preto e branco, impecavelmente engraxados, como se preparados para uma festa.

Era efectivamente um momento festivo, pelo menos para ele.

“Muñequita linda… de cabellos d’oro… de dientes de perla… lábios de rubi…”(2), badalava agora a orquestra de Edmundo Ros e ele cismava. Ela devia ter feito trinta e cinco, hoje, murmurava para si. Mãe de filhos? Quantos seriam? Encolhia os ombros, enquanto vertia o rum pela garganta abaixo. Tantos anos se passaram, e ainda se lembrava do dia em que lhe comprara a boneca de olhos de vidro, branquinha com um rosado nas bochechas, com vestido cor-de-rosa, alças sobre camisinha branca, meias rendilhadas do mesmo tom, calçando sapatinhos pretos luzidios. Um pequeno malmequer enfiado nos seus cabelos de oiro. Benita bonita, com as covinhas bem salientes, fazia três anos e olhava para a sua boneca com admiração e ternura. Não a tirara da caixa só para não amachucar os seus cabelos doirados. Mas depois de dias a contemplá-la retirou-a do pacote e nunca mais a deixou. Até o dia em que  a sua mulher Pilar o deixou levando Benita para longe. Nunca mais voltou a vê-las.

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Numa manhã de 1948, levava as primeiras palmadas da vida, Nicolás Maria Santiago D’Aragón. Havanês chapado, cresceu no bairro pobre da capital, El Fanguito, mas teve uma infância feliz, apesar da pobreza em que vivera. Seu pai Guillermo, militar do exército nacional, morreu a combater os guerrilheiros de Fidel Castro e Che Guevara. A mãe, que tinha na altura dezoito anos, cansou-se da miséria sem solução e sumiu numa noite, depois de amamentar o pequeno Niquito. Cresceu por isso com a sua avó Consuelo que, apesar da idade, ainda cantava num dos muitos bares da cidade. Não estudara muito, dançara antes. Tinha uns pés de pena, como os mais crescidos lhe diziam. Desde pequeno frequentara os locais onde a sua avó Consuelo cantara com a sua charanga e cedo se habituara aos ritmos que mais tarde se tornaram símbolos da sensualidade latino-americana.

Da mesma Consuelo, que foi pai e mãe a educar e avó para mimar, aprendeu uma lição de ouro, num dia em que voltou a casa choramingando de uma sova que levara na vizinhança.

“Ri sempre, mesmo que estejas triste. Nunca ninguém ganhou a vida a chorar. Os pobres que choram ficam ainda mais pobres, porque nem lágrimas sabem poupar!”

Quando se dera o alarme no natal de 1958 de que Fulgêncio Batista(3) não era tão poderoso como fazia crer, a avó Consuelo não hesitou em corresponder ao que o seu instinto lhe obrigava, agachou-se e pela primeira vez falou a Niquito num tom muito sério, muito mais sério do que nas vezes em que ele fazia asneira e esperava a surra.

“Niquito… Vais ser homem e ser homem é ter coragem e não chorar. O teu tio Alonzo está na América e muito te espera. Quero que tu fiques com ele, por uns tempos.”

“Vovó…eu vou sózinho? Não vais?”

“Não meu amor. Vovó tem que ficar, porque a música aqui não pode parar.”

“Mas eu posso ajudar, o Tio Manito ensinou-me a clave da rumba….eu mostro… é um pouco diferente da do son…”

“Niquito, ouve bem a vovó! É importante que te vás, aqui não está muito bom para meninos da tua idade. O Tio Alonzo tem um quarto para ti, aí estarás seguro.”

“Não quero ir sem ti, vovó. Quem vai cantar e dançar comigo?”, choramingou.

“Na América vais dançar e conhecer muita gente. Vais conhecer o mundo. Vovó não pode ir agora. Mas um dia quando tiveres dinheiro vais comprar o meu bilhete. E eu estarei contigo, como sempre.”

Abraçou o netinho com toda a força. Nesse dia, passou muito tempo com ele aos seus braços. Se calhar sabia que nunca mais voltaria a vê-lo, entregue à sorte que Deus lhe reservara.

No dia 8 de Janeiro de 1959, enquanto os heróis da revolução davam a sua entrada triunfal na capital, Niquito d’Aragón embarcava para Miami, um mundo novo que não escolheu, para o qual o atirou a sua sina de eterno exilado. E aí continuou o seu crescimento, tal como tantos cubanos, em terra e cidadania alheias. Sem saber que a vovó fora posteriormente presa por causa do filho e suas ligações com o regime batistano.

Não obstante as dificuldades de adaptação nessa nova terra que foi forçado a aceitar, Niquito não deixou de ser alegre. Estava no seu sangue rir quando a vida só lhe dava razões para pranto. Dava mão ao seu tio Alonzo, na pequena frutaria que possuía na populosa “Pequeña Habana”, a Meca para todos os exilados, sem no entanto se esquecer das palavras da vovó.  E foi a rir e dançar que conquistou todos.

 Na América, a vida de imigrante tinha mais baixos que altos. Apesar da aparente solidariedade entre os hermanos em terra de gringo, sobreviver era a palavra de ordem. Estava fora de Cuba e havia toda uma série de primos porto-riquenhos, colombianos, mexicanos, peruanos, bolivianos, enfim toda a América-Latina tinha poiso na Little Havana. As rivalidades entre eles eram uma constante, e não poucas vezes, sangue jorrava pelas ruas de Miami.

Niquito tinha todas as condições para o banditismo, era ágil, expedito e eficiente em tudo em que se metia. Contudo, não tinha feitio para isso. Fora criado para estar ao de cima e era assim que acreditava ser o meio de dar a volta às intempéries da vida. Não seria, nem a droga, nem a faca que o levaria ao pináculo. Haveria que tirar partido do que o acompanhara desde muito novo ao som da charanga da avó Consuelo. Tarefa impossível, como várias vezes gritava para os seus botões, quando por inúmeras vezes se sucumbia à crueldade da vida real, em que o ser humano não valia mais do que uns escassos dólares. Até que numa tarde passara por um clube nocturno em ensaios.

Estava-se no intervalo e o saxofonista entoava uma canção mexicana acompanhada de um bongo. “Noche no te vayas … quédate con nosostros… para siempre…” (4), ouviu a sua própria voz a cantarolar maquinalmente essa melodia de Roberto Cantoral, que o Tio Alonzo tocava sempre em casa. Um som diferente da charanga da avó, mais suave, harmónico principalmente nas vozes, acompanhado de três violas.  Os trios mexicanos faziam um grande furor nos Estados Unidos, acasalando o mariachi com os ritmos caribenhos. Fechou os olhos e meneou as ancas ao sabor do bolero que o bongo impunha. O seu ritmo lento e indolente evocava uma sensualidade natural que subia à cabeça desde a ponta dos seus pés, acompanhado dum calafrio na sua espinha.

Sentiu a mira de alguém quando o saxofone parou. Era Johnny Arroyo que naquele momento se inspirou. E se a orquestra incluísse uma trupe de dança nos seus espectáculos?

A partir daquela tarde até a formação dos “Rumbéros de La Esperanza”, dois meses depois, todos os dias à mesma hora, Niquito iria ao clube para os ensaios de aperfeiçoamento da sua dança. Era esquio, de altura mediana, moreno, cabelos bem escuros e luzidios, usava roupa muito justa que denunciava a musculatura de um macho ágil e robusto. Caíu nas atenções de Pilar, a filha predilecta de Johnny, com ela dançou e muito. Teria sido uma ligação fugaz, não tivesse ele engravidado a princesa, praticamente à primeira. Niquito passou a frequentar a casa dos Arroyos e mesmo antes da estreia dos Rumbéros já ganhava uns dólares. Não tinha muita liberdade, sobretudo depois do seu casamento que se daria logo a seguir. Johnny, que se tornara viúvo muito cedo, exigia muito que sua filha fosse sempre muito feliz. Para Niquito, o sucesso em vista justificaria sempre qualquer sacrifício, não obstante suspirasse por um mundo onde pudesse respirar o seu próprio ar.

Aos vinte e quatro anos, como rumbeiro da trupe de Johnny Arroyo, saía dos Estados Unidos, com a sua mulher e filha de dois anos, rumo a outros países, onde os ritmos da clave, maracas e bongos animavam os salões de dança, apesar da vaga crescente do rock. Bangkok, Saigão, Singapura, Taipé foram algumas paragens por onde o seu ritmo deixou marcas.

Um dia parou em Wanchai, Hong Kong.

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Mais um trago de rum pela garganta abaixo, quando cantava Beny Moré “Como fué….no sé decirte, como fué…  no sé explicarme qué pasó…pero de ti me enamoré…” (5) que o amarrava para o fundo da sua melancolia.

E pôs-se a cismar como muitas vezes lhe ocorria fazer. O que se teria passado, como foi tudo para agora acabar os seus dias só, na companhia das suas memórias, mantinha-o vivo na sua memória.

Nico tragou um bom bocado do seu fumo, aguentou para o exalar no momento decisivo em que Beny Moré entraria na frase apoteótica. Semicerrou os olhos antecipando-se à catarse. A congada decisiva estava mesmo à esquina, Nico até preparou o seu corpo. É agora.

Um estrondo de latas no caixote de lixo vinham da vizinhança.

Nico tossiu como que tivesse entrado numa câmara de fumo. O susto fê-lo virar a mesinha onde tinha a sua bebida. Tudo estilhaçado no chão, copo, Santiago, e ele de pernas para o ar.

    Tal qual como na última vez, pegou no pau e saiu da sua casa para afugentar os gatos da vizinhança que apareciam à vasculha do jantar. Ou então seria a rapaziada que lá paravam para fazer disparates da meia-noite, mormente largar partidas ao “Tao ngao lou” (6)

Ai Carrico! Venga, venga! Donde estás tù, cabrón?!”

Ia de peito feito para desancar, para mostrar que aos cinquenta e três anos continuava hombre. Porém não era o que estava à espera.

Diante de si estava uma  moça franzina, imóvel, prostrada sobre um canteiro abandonado.

Toda a aparência de touro enraivecido dissipou. Nunca lhe acontecera coisa semelhante. Queria ver se passava alguém aí, mas o Beco era calmo demais para interessar fosse a quem fosse. Queria chamar a polícia, mas o que eles iriam pensar? Queria pura e simplesmente voltar para casa, ignorar o sucedido e limpar o estilhaço da noite, e assim fez. Mas malvada consciência que não lhe deixa escapar um percalço, ribombou em protesto. Ademais, começou a chover e cada vez mais.

“Carajo!”

Voltou ao mesmo local e a chuva castigava. Olhou para a moça imóvel no chão da rua e decidiu que ela não podia ficar aí. Pegou no seu braço, colocou-o sobre o seu ombro que por sua vez pressionou o seu axilar, segurou-a na parte lateral do seu indolente corpo e arrastou-a para dentro da sua casa.

Sentou-a no seu sofá. Encharcada, aí estava em sua casa, ante o pasmo de um homem que subitamente perdeu a fala.

Isto … não está a acontecer!” Dizia ele para si, observando a moça inanimada.

O que iria fazer era coisa que não passava pela cabeça, já em si pesada com o efeito do rum. Ela está molhada de cabeça aos pés, quanto tempo levará para secar toda a roupa? E… ñooo! … tresandava a vómito.

 

II

Maria Lúcia Pena Guterres, faria vinte e quatro anos nesse dia.

Passou a sua vida despercebida do público. Ela sabia disso e tinha as suas razões para se afastar das pessoas. Para além da dentuça presa por uma armação metálica que os seus lábios se viam impotentes para disfarçar, não tinha nada que o comum padrão de beleza feminina abonasse a seu favor. Pálida de pele, era esquelética que nem uma “Olívia-Palito”, sem relevo algum quando apreciada de lado. Enfim,  “aeroporto”, como cruelmente chamavam as bocas maldosas em Macau às raparigas que tivessem esse infeliz atributo. E para acentuar a sua distância à formosura estereotipada, a sua postura fazia lembrar um ponto de interrogação, porém, mais mais alongado nas curvaturas. Tudo isso a rematar com rabicho no penteado e óculos de aros largos e escuros.

Sem surpresa, não era popular. Ou então a sua popularidade advinha do escárnio da rapaziada desbocada, pelo qual  ninguém a venceria numa corrida de atletismo, pois a sua dentuça e o seu pescoço longo e descaído dar-lhe-iam sempre uma invejosa vantagem.

O pai, oriundo da Marinha Grande, em Portugal, nunca se convencera de que ela era sua filha. A fealdade da menina não se coadunava muito com a sua fama de moço bem parecido e atraente. Separou-se da mãe, logo após o fim da comissão de serviço na polícia, no início dos anos noventa do século passado. Quando finalmente Marilu foi a Portugal visitá-lo, vinte anos depois, anunciaram à porta da casa “Pai, está aí uma mascarada de múmia, à tua procura”. Lá dentro ouviram-se gargalhadas. Foi em finais de Outubro e a tradição do Halloween tinha já chegado com força em Portugal.

A mãe, macaense(7), casou com um indivíduo de nacionalidade filipina de quem teve vários filhos. Marilu, sentia-se estranha na sua própria casa, onde, tal como em público, era ignorada. Contudo, teve garra suficiente para se esmerar nos estudos. Embora não tenha sido aluna de notas sonantes, nunca fizera a mãe ou o seu padrasto gastar mais do que deviam para assegurar a sua educação. Enquanto os seus irmãos foram todos para as escolas chinesas, ela achou que devia aprender português e depois inglês. E depois chinês e depois outras coisas que eram pura e simplesmente menosprezadas por gente da sua geração. Aprendeu fotografia e até armar tenda para campismo. Tinha tempo de sobra e até se inscrevera num curso de dança de salão.

Ingressou na função pública, juntou o seu dinheiro e pôde pagar uma caução por um arrendamento, quando decidiu sair de casa e levar uma vida só dela. A mãe e a sua prole nem reagiram.

Nunca namorou, também não surpreendia. Era invisível aos rapazes, aliás um mero espírito errático para toda a gente que conhecia. Habituara-se a isso desde pequena. Assim, aquelas festas de escola, onde toda a gente se abraçava, se beijava, se alimentava de dramas de paixão, não eram com ela. Solidão, ela sim, era a sua melhor amiga.

No entanto, gostaria que Deus um dia lhe abrisse uma excepção. Não lhe exigia, nem o implorava que fizesse. Apenas desejava que condescendesse. Um dia bastaria.

Imaginava que nesse dia, alguém  desse pela sua existência, não como uma alma danada, mas como pessoa viva a fazer coisas que faria gente normal. Não era um queixume. Quem nasceu assim, pensava, seria assim vida toda, sem razão alguma para qualquer lamento, tal como um cego de nascença não choraria por não conseguir ver. Ela queria apenas algo de novo, de invulgar, tal como o cego acharia interessante, por uma vez da sua vida, experimentar o que seja a luz.

Este dia apareceu. Um rapaz no curso de dança de salão ficou sem par e calhou à Marilu a situação de poder corresponder ao pedido do instrutor para que o rapaz não perdesse a aula. De facto não teria sido em vão, pois ela sabia todos os passos e compassos que aprendera de Mister Hung, funcionário aposentado que aproveitara o seu vigor para dar umas aulas de dança que aprendera de outros. Nada de grandes coreografias,  nem o seu instrutor tinha criatividade para tal, mas era cumpridora e executava todos os passos que ele identificaria de tango, cha-cha-cha ou paso-doble.

Rapidamente se desenvolveu uma relação de confiança entre ela e o rapaz, a ponto de se gerar uma cumplicidade, fundamental para que um par de dança funcionasse como tal. Não que dançasse bem, até porque sofria da síndrome do pé pesado, mas ela não falhava ante o escrutínio rígido do Mister Hung.

Três semanas de aulas foram o suficiente para que Marilu abrisse olhos para um sentimento nunca experimentado. Aliás, que nunca ousara tê-lo. Achava que as aulas lhe desbravavam caminhos nunca antes trilhados, vias para um excitante mundo desconhecido. Criara-lhe expectativas. E o rapaz correspondia-lhes.

Os sonhos passaram a ser outros, tal como aquele que teria o cego depois de se despertar para uma imagem idílica. Encheu-se de coragem e de resolução para se declarar e escolhera para o efeito o dia dos seus anos.

Tinha escolhido o melhor vestido que achou apropriado para si, depois de vasculhar muita revista de moda informal. Marcara uma mesa num restaurante, conforme tinha combinado com ele na aula da noite anterior. Ficou nervosa e ao mesmo tempo indecisa se devia pedir vinho, aquela “coisa amarga” com que nunca se dera bem. Não obstante, achou que a ocasião merecia tudo e assim veio à mesa um Grão Vasco, o único tinto português que se vendia em muitos restaurantes de Macau.

Mas ele não apareceu. Eram já dez horas e meia quando ela saiu do restaurante. Suspirou fundo, não se enraiveceu. Apenas engoliu seco o que naquele momento era de todo intragável. E disse para si, que amanhã seria outro dia, como foram todos os outros. Procurou pensar em coisas boas, concentrou-se e à força convenceu-se de que o caldo verde estava delicioso, assim como o nairo grelhado e o bolo de aniversário. Não faz mal, dizia, alguma vez os seus anos foram diferentes? E sózinha acabou com o tinto.

Sentia calor, sabia que estava corada de vinho, o coração acelerava e a pulsação sentia-a na cabeça. Estava tudo bem, não fora ter apanhado um grupo de rapazes e raparigas a conversar logo à esquina do bairro por onde seguia para casa. Eram da sua gente e de gente conhecida.

Ainda bem que te salvámos deste ridículo” – ouvia-se de uma voz feminina.

“Já imaginaste como a malta falaria de ti, se te apanhasse a jantar com a “Avestruz”? – perguntava um.

Chupâ-ovo de avestruz (8) – respondeu outra voz. Risada forte.

Oh pá! Ela é uma gaja porreira…”

Reconheceu a voz. Agora agachou-se para ouvir o resto da conversa, embora a sua habitual prudência aconselhasse uma outra coisa a fazer.

“Gaja porreira para levares pra cama, seu porco de merda! É pa… ainda dás cabo daquela caixa de ossos!” – Gargalhada estrondosa, que até motivou protesto da vizinhança.

Caramba mé! Só quis aprender a dançar, mas a Rosa adoeceu e não tinha par”. – prosseguia ele em tom jocoso.

Podias dançar com uma vassoura, po!” – outra risada. ”Deixa-te dessa merda, ainda acabas por vê-la prenha! Ainda bem que estás salvo!”

“Homostruz! Filho de avestruz e homem!  – outra gargalhada.

“Dou-te mas é uma omelete no cú, seu boca-fêde! (9)” –  retorquia ele.

A festa da rua continuou. À custa dela.

Cada palavra era um alfinete que perfurava a sua pele. Cada vulgaridade, um facho em brasa na sua alma. Não estava à espera disso, não tinha como se defender, sobretudo quando já saíra amachucada do restaurante. Sentiu-se enlameada, entorpecida pelo vil insulto da boca de quem lhe dera toda a imagem de homem são e leal. Fitou o céu e bradou em silêncio.

É isso queres para mim!?”

Não foi para casa, antes cambaleou por uma mercearia e comprou gin. Bebeu-o toda e nele se afogou. Deu-se por vaguear pelas ruas estreitas do bairro. Não sabia ao certo onde se encontrava. Mas pouco importava, não queria era parar, precisava de andar, contrariando o que de costume fazia. Tinha já parado demais na sua vida. E agora que o destino se foda!

A cabeça dava-lhe a sensação de transportar um panelão de água quente, com sérias dificuldades de equilíbrio. E ao errar pelo Beco do Musgo foi de encontro ao contentor a transbordar de lixo, escorregou e caiu. Se alguma dignidade lhe restava nessa noite, o saco de dejectos que sobre si caíra, desfê-la por completo.

Não sentiu a chuva que, a rematar,  regou sobre ela. E mesmo que tivesse dado por ela, iria alterar coisa alguma?

O sol inaugurou com fulgor ao segundo dia dos acontecimentos, com uma clareza invulgar, como se a chuva das noites anteriores tivessem limpo o ar de todas as impurezas. Nico saiu para fazer compras e o relógio batia o meio-dia quando regressou a casa. Preparara uma canja de galinha à moda chinesa, que sabia ser boa para quem convalescia de uma noite agitada de álcool e vómito.

Queria primeiro ter a certeza de que ela estava bem, para depois tomar outras medidas. Algo lhe dizia que agia correctamente, apesar da situação sem precedentes em que se encontrava. Só sabia que cuidar dela era a única coisa que no momento fazia sentido.

Ouviu-a tossir. Aproximou-se e colocou a palma sobre a sua testa. Já não tinha febre e o corpo indiciava transpiração. Retornou à cozinha quando ela acordou.

A cabeça desta girava ainda quando tentou olhar para os objectos ao alcance da sua visão. Estava deitada em cama alheia, envergando roupa alheia. Sentia-se confortável, o seu corpo exalava odor a pó talco. Entrou em súbito pânico, ao procurar saber da sua própria roupa. É quando Nico volta com um copo de água.

Acenou a cabeça quando colocou o copo na cabeceira.

“Oyé…?” – Marilu não respondeu.

“Bebe este água que te faz bien. Estoy a preparar una canja que está cási pronta” – esforçou-se a falar português, como que adivinhasse que essa fosse também a língua dela.

“Onde …estou?”

“En mi casa” –  Marilu olhou-o atónita, indagando como isso teria sido possível. Nico sentiu desconforto, desviou o seu olhar  e encolheu os ombros.

“Estavas tán bêbada. Como vieste parar aqui? Conoces alguém?” – Marilu não respondeu, apenas olhou para o velho pijama no seu corpo. Nico suspirou e explicou-se.

“Perdoname, não tinha outra coisa para te vestir.” – Os olhos da Marilu aumentaram sobremaneira.

“Chica! Llovia por ahí, estabas empapada! – Marilu incrédula.

“Carrico! Sí … io tuve que… que… bañarte!” – Marilu em pânico.  

“Eras uno…uno excremento de vómito, qué esperabas?!” – Marilu soluçava com as mãos no rosto, enquanto Nico aumentava o tom de voz.

“Ahhhh, no….no…quería … Mira, chica …” voltou a falar o pouco de português que aprendera. “Preparé …una canja de pollo….de galinha”. Marilu desfaleceu.

 Perdeu a paciência de esconder o seu embaraço. Retornou à cozinha e desligou o fogão.

Carajo!” pegou no seu casaco e sumiu da casa.

Já fazia noite, quando ela voltou a acordar, encharcada de suor e faminta. Certificou-se de que não era sonho, que de facto despertara na cama de alguém, com vestimenta que não era dela. E teve uma conversa conturbada com um homem de meia idade. Olhou à sua volta, à procura dos seus haveres. Estavam sobre a cadeira perto de si, a sua mala intacta pendurada no encosto da cadeira e a roupa passada a ferro. Quis sair daí já, mas a fome berrou mais alto.

Não viu ninguém quando saiu do quarto e dirigiu-se à cozinha. Havia aí apenas uma tigela sobre um prato e uma colher junto de um panelão de canja, confeccionada para ela. Devorou-a num ápice, estava saborosa mesmo quando fria.

E na sua terceira tigela deu-se a apreciar o seu redor. Pé direito alto, numa casa que aparentava ter umas largas décadas. O tecto a acusar infiltração de água e cheiro a bafio. As paredes, para além da imagem da Imaculada Conceição, enchiam-se de fotografias de artistas. Reconheceu os grandes da música latino-americana, o Trio Los Panchos, Los Três Caballeros. Estava também Lucho Gatica, Omara, Tito, Celia, Compay Segundo. E dum canto, fitavam-na olhos sabedores, dum semblante escuro e ossudo, com fino bigode a traçar um sorriso sedutor, Beny Moré. O que estas figuras faziam num antro tão lúgubre como aquele sítio, não entendia. Se calhar nem era para entender, quando mal se convencia da razão de ser da sua própria situação, única em toda a sua vida.

Pousou a tigela na mesa e apressou-se a vestir. Mas, brigava com um sentimento de culpa. Quem podia ter sido aquele sujeito que a tirara da confusão da rua? Que fora decente com ela, o mesmo ininteligível sujeito que a poupara da pior degradação que lhe aconteceria?

Respirou fundo. Assomaram-se-lhe imagens nebulosas da tina de banho, a toalha e pó talco sobre o seu desnudado corpo, o pijama e alguém a carregá-la com ambos os braços para a cama. Como agradecer? O conflito estalara, mas a vergonha vencera. Não olhou mais para trás quando fechou a porta da casa, correu sumindo do Beco do Musgo como quem fugisse de algo ignominioso.

Chegou a casa, pousou os seus haveres e despiu-se. No chuveiro, rodou a torneira até o máximo para que o jacto de água a fustigasse com toda a violência, como que quisesse sacudir à força o que acabara de se entranhar na sua vida. E aí chorou copiosamente. De medo, de confusão, chorou.

 

III

No Kai Kei, a velha mercearia do bairro, Nico sorvia a sua quinta cerveja, ruminando o incómodo que a situação lhe causava. Já passara por muito, mas nunca na sua vida se pôs fora do seu próprio poiso por uma escanzelada moça que não conhecia e que a pusera na sua cama para se recuperar de uma ressaca violenta, seguida de uma gripe demolidora, a quem banhara e preparara uma canja! A boa vontade mal compreendida era algo difícil de digerir, mas algo lhe empurrara para essa maluqueira. O que teria acontecido a essa moça aparentemente normal para se apresentar naquele estado?

Sem querer, Benita atravessava o seu pensamento e aí estacionou. Extasiado, viu-se a zumbir, imitando o som dum avião ou duma mosca em vôo livre, enquanto sua mão rodopiava pelo ar,  com a colher levando a papa à boquinha, ante olhos castanhos claros que o fitavam felizes. Aí a menina rasgava-se em gargalhadas, com covinhas pronunciadas. Ela agitava-se, as palmas minúsculas batiam suavemente no tampo da mesa. Lia-se segurança naquelas gargalhadas, de quem tinha pai, casa estável e vida condigna. Era o seu tesouro, o escape no exercício das suas funções de bom pai de família.

Eram os bons tempos em que passaram em Hong Kong. Imagens de Wanchai sucediam-se na sua mente, revia o seu apartamento que não era grande, mas suficientemente arejada, com boa vizinhança e tudo estava ao alcance para que a vida fosse levada com paz e sossego. Pilar estava feliz e ele era um homem bem lançado. Mal grado, a noite possui a mística de transformar os mais puros, ou então revelar a sua verdadeira natureza.

 Os “Rumbéros”  acompanhando a banda caribenha de Johnny Arroyo, faziam furor, não só no Tropicana, como também noutros recintos de espectáculos, como o Lee Theatre em Causeway Bay.  Johnny  diversificava os contactos e conseguia mais contratos, para a sua orquestra  e a troupe de dança.

Todavia, com o tempo, Nico  passou a ser o espectáculo principal. O modo como o seu corpo viril se contorcia, como seus pés deslizavam suavemente sobre  a pista, como as suas ancas e sólidas nádegas marcavam infalivelmente o compasso sensual da rumba, alimentava fervor nas mentes libidinosas das suas fãs. Em terra de Dragão, ele movia-se sinuosa mas poderosamente como o mítico monstro. Não tardaram a apelidá-lo de Long Ngao (龍牛), o Dragão-Touro, o másculo ao qual se rendiam todas as menos resilientes. Vaidoso, fez gala disso. Deixou de ser Niquito, e o seu nome de família D’Aragón converteu-se no epíteto “El Dragon”.

Porém, a fama é daquelas facas de gumes diversos e um deles é particularmente mortífero, fazendo sangrar quando menos se espera. Se a receita dos espectáculos não cessava de entrar, o Dragão não parava de rumbar em camas alheias. Um homem requisitado no meio feminino, deleitava-se com a disputa entre as mulheres pela sua atenção. Não poucas vezes fazia visitas a uma, a seguir de outra num mesmo dia, antes de um espectáculo. Entre as suas admiradoras havia muita gente da alta sociedade, que lhe pagaria tudo para uma noite de volúpia. Dum momento para outro, passou a usar anéis, calçado luzidio, fatos de alfaiatarias caras. Se no início Johnny Arroyo aprovava esse “modo peculiar de atrair admiradores”, começou a sentir o incómodo que gradualmente crescia, à medida que diminuía a alegria da filha. Até que um dia não se conteve:

“Nico, a mulher do outro é como cocaína de que não nos livramos facilmente. Mas quando a nossa filha está casada com um drogado desses…”, o recado foi muito claro, havia limites para tudo. Porém, ouvidos moucos também, como tão bem os fazia, quando tal vício o enrigecia e tomava conta do seu tino.

Pese embora essa tendência femeeira que foi adquirindo, não lhe faltava devoção à pequena Benita. Acreditava que ela era fonte da sua permanente juventude, a encarnação daquela criança risonha e arrojada que sempre trouxe consigo, desde os tempos da avó Consuelo, e acarinhada pelo Tio Alonzo na Pequena Havana em Miami. Por nada deste mundo a trocaria. Chegava até tarde aos seus encontros íntimos, porque Benita precisava do seu colo para adormecer. E aí despia-se de todos os pensamentos lascivos, para se concentrar na sua pequena Benita, contando-lhe histórias que ela pudesse entender, com os seus dedos acariciando-lhe a minúscula testa, sussurrando-lhe suavemente “Como fué…” até os seus olhinhos se apagarem, para um sono em paz.

Depois repunha a sua veste de besta castigadora, marraria por aí fora entre beijos, pernas, gemidos e gritos, num martelar sem piedade, para a delícia e perdição das suas amantes. Os constantes avisos de Johnny Arroyo não surtiam efeito. O dispêndio de energia não o preocupava, nem tão pouco a ciumeira cada vez mais badalada em casa. A juventude criava-lhe a miragem de um poder sem limites e havia sempre quem desse cobertura a todas as escapadelas que se lhe exigiam.

Cego de êxtase, o seu ímpeto não conhecia marido de ninguém, nem os riscos que pisava. Era o toiro bravo, que só conhecia um território, o dele. Até que, numa noite encontrou uma turma de forcados pela frente, a mando de um inconformado com a leviandade da esposa.

Suava ele em cima desta, quando a porta da pensão se abriu a pontapé. Entraram seis encapuzados e logo se ouviu a estalada que pôs a adúltera inconsciente. De imediato, dois deles prenderam-lhe os braços, posicionaram-no de pé. Nico mal pôde organizar as suas ideias quando sentiu o duro de um bastão a atingir a sua barriga. Seguiu-se mais um golpe. E mais outro. Abriu os olhos e eram dois. A pancada era de tal violência que lhe pareceu sentir as suas entranhas já fora. Os dois que lhe seguravam os braços esticaram-nos e um terceiro golpeava-o por trás, enquanto mais bastonadas atingiam a parte frontal do seu corpo. Nico gritava. Sangue expelia pela sua boca, sabia que acabaram de fracturar pelo menos uma das suas costelas. As suas mãos a cobriam agora a cabeça e o porrete atingia os dedos, enquanto que outros continuavam a sovar as partes vulneráveis do seu corpo mazelado.

Um dos golpes mais duros atingiu-lhe a tíbia. A crueldade não tinha limites e a ponta do bastão foi o suficiente para esmagar o seu pé. Ao querer segurá-lo para evitar mais dano, levou uma paulada na maçã do rosto e outra na clavícula. E por fim, já prostrado no chão, divisou que um deles empunhava um cutelo e não queria acreditar que essa fosse a sua última noite. Estava à mercê do seu destino, demasiado ferido para decidir como iria morrer. Fechou olhos e esperou pelo final.

Soou um grito de alarme. Ela acordara atordoada e assistia o cenário horrendo em que o seu touro se encontrava. O homem hesitou, o seu cúmplice segurou-lhe o punho e persuadiu-o a desistir do pior. Cobriram-na com um lençol e arrastaram-na para fora do quarto, entre gritos e soluços.

Nico acordou deitado numa maca no hospital. Havia polícias à volta a querer saber do sucedido, sem que pudesse corresponder ao que lhe era perguntado. Não conseguia mexer e cada acto de respiração era uma dor lancinante. Estava preso na maca, para lhe assegurarem repouso absoluto, com um penso atado na cabeça para manter imóvel o seu maxilar. Acusava também fractura de dedos e da tíbia. Não sentia o seu esmigalhado metatarso. Nico só cantarolava em silêncio “Como fué…” com Benita no seu pensamento, a única forma de amenizar o tormento do instante. Não compreendia como continuava vivo, enquanto corria notícia de que uma mulher, esposa de um temível, flutuava cadáver nas águas de Deep Water Bay.

Passou no hospital duas semanas e ninguém o visitara. Telefonou várias vezes à casa, a linha não dava sinal de vida. Teriam os mesmos jagunços feito alguma coisa à sua família? À Pilar? À Benita do seu coração? Quando conseguiu finalmente andar apressou-se a ir para casa e quando lá chegou a porta não estava trancada. Esperou pelo pior e entrou. A casa estava impecavelmente arrumada, não havia sinal de saídas abruptas. O único cheiro que havia não era da violência que esperava, mas sim do vestuário da Pilar, quando abrira o guarda fato do quarto. Estava tudo intacto, porém sem ninguém, sem nada. Ao sair do quarto, reparou que algo o enxergava. Era o brilho reflectido nos cabelos de ouro da muñequita da Benita, prostrada num canto do sofá. Nico imaginara como Benita teria chorado quando Pilar a levara da sua casa, sem a sua amiguinha de dentinhos de pérola e lábios de rubi. Não obstante o sentimento de culpa, podia viver sem Pilar. Mas, o coração despedaçou-se quando pensou em Benita. Traíra-a com a sua ignominiosa leviandade. Naquele momento mal sabia que tinha começado o seu longo calvário.

Acelerou o passo que o levaria à Tropicana. Aí deparou-se com Johnny e levou logo um estalo na sua já macerada cara, quando principiara a conversa.

“Não te quero ver mais, não me cumprimentes, não olhes para mim. Não gosto de gente do esgoto, dá-me nojo. Nem penses em voltar a ver as duas, que já saíram desta terra. Nem te passe pela cabeça voltar a Miami, pois a tua mísera cachola está a prémio”.

Nunca mais voltou a ver Johnny Arroyo, nem mais passou pelo Tropicana. Nunca soube se a sova que levara tinha algo a ver com o seu sogro. O certo é que nunca mais sorriu, como a avó Consuelo gostaria.

Acordou do seu devaneio quando Ah Kai, o dono da mercearia perguntou se queria mais alguma coisa, pois estava a fechar o estaminé. O dia caía calmamente e ele arrotava cerveja. Era altura para voltar ao Beco do Musgo.

 

IV

Passaram-se dez dias e a vida teria retornado ao seu incondicional tédio, não fosse o tilintar da campainha.  Nico arrastava-se sonolento em direcção da porta, sem dar conta de que já marcavam oito da noite, quando a sineta voltou a tocar. Irritado, abriu-a, mas despertou de vez.

Marilu olhava para os seus próprios sapatos, estava tensa. Tinha encenado muitas vezes nesse dia para esse momento, mas não controlava o seu nervosismo.

“Qué quieres?” – desferiu a voz com impaciência e agressividade.

“Vim…ah… Posso entrar?”

Atónito, esperava tudo menos isso e antes que lhe fechasse a porta na cara, convidava-a a entrar, sem ao certo saber porquê.

Ela sentou-se no sofá, ante um olhar julgador, que na verdade mais escondia incredulidade.

“Comprei uma coisa para si. Achei que iria gostar”.

Nico franziu a testa quando tirou o CD do embrulho. “Reliquias de Havana” lia-se na capa. Mirou e interrogou-a com um encolher de ombros.

“Eu…ah…muito obrigada… por… por ter … cuidado de mim. Teria ficado bem pior se o senhor não tivesse dado por mim.”

Nico sorveu o seu rum, pouco impressionado, continuou com os olhos fixos nela, sem nada dizer.

O silêncio colocou-a numa situação difícil de gerir, o seu coração acelerava de ritmo, num misto de vergonha e de arrojo. Estava aí, vulnerável, sentada diante de uma figura a quem devia a sua vida, em circunstâncias tão invulgares que não teria coragem para relatar, fosse a quem fosse.

Perdoe-me por ter saído assim de sua casa, sem lhe dizer nada. Não sou ingrata, mas não sabia como e o quê lhe dizer. Estava desesperada e fugir foi a primeira coisa que naquele momento me veio à cabeça” – Já rogava pragas a si mesma, por não terem sido essas as palavras que decorara.

Nico encolheu os ombros, não sabia o que dizer.

“Qué pretendes de mi?” – indagou enquanto dedilhava as bordas do CD.

Hesitou.

“Queria retribuir… Posso pagar, sei lá, mas também fazer qualquer coisa. Por exemplo arrumar a sua casa…” – ela mal continha o seu calafrio pela gafe cometida. Nico apenas fez uma careta de espanto.

“Pero, mi casa está mui bién, no necesito de nada más!”

Ela não sabia com que retorquir. Que mais lhe ocorreria dizer, nessa situação tão inacreditável, sem o risco de um mal-entendido?

Apenas dizer-lhe que … que…”

“Qué?”

“Apenas para lhe dizer que … nunca fui assim … tão bem tratada. Nunca ninguém se interessou por mim, que tivesse cuidado da minha saúde e da minha segurança.”

“Pero tú padre, madre…” – ela baixou os olhos e meneou a cabeça.

Na verdade, nos dois dias que passou em sua casa, o seu telemóvel não deu sinal de vida. O que animava essa espinafrada moça com dentuça aramada, nunca iria entender. Mas, percebeu que havia algo comum entre eles. Ambos viviam uma vida à margem da atenção de todos, cada um no seu gueto inexpugnável, construído de vivências, angústias, apelos sem resposta e gritos inaudíveis. Porém, enquanto ela ainda nova com resquícios da vã esperança pela melhoria da sua condição e ele já resignado do fado que se lhe traçara.

“No sé lo que más decir.”

“Não tem que dizer nada. Podemos ouvir o disco e…e depois vou-me embora, prometo! Isso…se… se não se importar, é claro!”

Ele suspirou fundo.

“Chica… Qué es lo que realmente quieres? No tengo nada para ti.”

Não respondeu logo. Baixou os olhos e fitou nas as suas mãos que se cruzaram.

“Não tenho mais nada que se chame … família.”

O silêncio instalou-se e assim se ouviram todas as notas de Paquito d’Rivera soprando”Cuando vuelva a tu lado” e de outros tantos que se lhe seguiram, sob os auspícios da Imaculada Conceição e de toda uma turma de estrelas da parede. Até ela se ir embora, não disseram palavra alguma. Talvez a calada fosse a língua comum, cruzando duas vidas tão distintas, num momento tão improvável.

E o bolero passou daí em diante a soar de modo diferente no Beco do Musgo. Deixou de ser uma mera nostalgia para se tornar em algo com razão de ser.

 

V

Três meses se passaram, de uma nova vida para Marilu. Todos os dias de todas as semanas, eram um sopro novo na sua vida monótona. Havia agora motivo de se estar, que alimentava um ânimo que jamais experimentara. Interrogara-se várias vezes, o que aquele velho amigo tinha de especial que lhe dava uma força estranha e tornava os seus dias mais diversificados. Até o sol lhe parecera mais amigo. Não poucas vezes, se surpreendia com o cantarolar que espontaneamente brotava da sua boca, ao ritmo da sua caminhada. Antecipava a alegria que adivinhava desfrutar na visita que iria fazer ao Beco do Musgo. Sem surpresa encontraria um Nico, parco em sorrisos, mas sempre pronto a contar mais uma peripécia. Inicialmente havia os “olá estou de passagem” mas rapidamente eles converteram-se em algo constante.

Ele contava-lhe histórias da sua meninice, das traquinices com os colegas da escola que frequentara pouco, os brinquedos que inventaram, os sonhos que fingiram realizar. Contava-lhe sobre as sessões da charanga da avó, a congada de Pablito, o guiro do velho Chano e como todos juntos acompanhando a voz cheia de alma de Consuelo, davam mel à vida do bairro mísero de Havana. Algumas vezes saía sem dizer para onde, no momento em que ela chegava. Ela ficaria em casa arrumando o que estaria fora do sítio.

A vizinhança coscuvilheira não tardou em apelidá-la de “afilhada do espanhol” , com evidente  tom de escárnio libidinoso. Um hispânico caquéctico e uma trinca-espinhas vesga e dentuça, um rico par de circo que alimentaria anedotas mais grosseiras que uma mente pecaminosa poderia abarcar. Mas, isto não lhe beliscava em nada, pois já se dera com nomes bem piores.

A visita regular tornou-se uma necessidade. Nico passou a ser a pessoa a quem podia contar tudo, sem receio de censura, a ser um ouvido para as suas façanhas. Contou-lhe a sua vida, a sua solidão, os seus desejos.

Não obstante, havia nele também momentos de melancolia. Menos efusivo, ele repousaria no vago ao sabor do rum. Reinaria então mais o silêncio, quebrado fugazmente por uma ou outra melodia latino-americana. Nesses dias, não conversavam. Ela lia e ele errava pelos pensamentos.

Num desses momentos Marilu perguntou-lhe:

Quem é a menina da fotografia?

Retorquiu com um trago súbito, que até pingos de rum salpicaram sobre a sua camisa. Seus olhos habitualmente ágeis tornaram-se inertes, denunciando o vão de uma vida ainda à procura de sentido.

Marilu esperou. Pressentiu que tocara numa cicatriz mal curada e, quiçá, a chave do quadro enigmático desse homem de tantas facetas e surpresas.

Esta es la última foto de Benita que he guardado. Mi hija tenía trés años. – disse, passados vinte minutos de mudez.

– Onde está ela?

– No sé. Nunca la he vuelto a ver.

– Chegou a procurá-la?

Nico sorriu, emborcou mais um gole e explicou a sua resignação com um encolher de ombros. Marilu não insistiu mais. O desalento estampava-se no rosto do idoso, cujos olhos trémulos dispensavam palavras. Ela então decidiu que seria só ele quem voltaria a falar sobre a Benita.

Nessa noite, a conversa acabou cedo, Nico até adormeceu no sofá. Marilu cobriu-o com uma manta e antes de sair desligou todas as luzes que ela ajudou a montar, e eram tantas nessa noite.

A brisa de inverno soprava suavemente pelo beco adentro. Ela caminhou suavemente e sorriu de inveja. A menina da foto não fazia ideia de um pai que a amava tanto. Galgou a escadaria de Santo António e entrou na igreja. Estava já no fim da Missa do Galo e o coro entoava Adeste Fidelis. Ela ajoelhou-se, cerrou os olhos e encostou a sua testa aos seus dedos cruzados e rezou. Enquanto outros fiéis já se cumprimentavam com Boas Festas, ela estava a sós com o seu Deus e lhe rogara pelo bem estar do cubano e da menina da sua paixão.

 

VI

“Porqué no tienes un namorado? Estás perdiendo tiempo aqui, no?” perguntou o cubano, numa noite depois do jantar.

“ Porquê? Queres livrar-te de mim?” – gargalhou Marilu, enquanto lavava a loiça.

“Una chica con tu edad debia namorar, no?”

“Nico por favor, quem me quererá? Acorda!”

“Ah io te quiero! Pero tengo edad para ser tu padre! No seria apropriado”.

“Haha, tu és bom para mim, mas eu sei que Deus tem outras ideias. Umas pessoas nasceram para namorar e têm uma sorte bestial, outras podem esperar até morrer… sozinhos”.

“Como io…”

“Oh Nico…”

“Tus clases de baile… nunca más has hablado dellas.”

Desta vez a ferida abriu-se.

Desisti. Telefonei ao Mister Hung para cancelar a minha inscrição”

“Porqué?”

“Nico… sempre julguei que podia dançar. Mas afinal isso não é para mim”.

“Disparate! Voy a hablar con el señor Hung…”

“Nico olha bem para mim!” Ria-se, mas a mágoa transparecia. “Não consigo ver-me ao espelho. O que uma pata pesada pode fazer numa pista de dança? Fiquei farta… enojada” – lembrara-se da noite do seu último aniversário.

Nico não disse nada, respirou e dirigiu-se para a sala e pôs música.

Venga chica”.

“Nico, por favor não, amanhã trabalho e vou já para casa…”

“Callate. Acércate de mi”.

Marilu fazia cara de quem já adivinhara tudo o que viria a seguir. Não quis contrariá-lo, mas fez um trejeito de enfado.

Mírame a mí! No digas nada para lo que voy a hacer.”

Ela cumpriu, fixando os seus olhos nos dele. Intensamente. Apontou o seu dedo na boca dela.

Sácate eso de tu bóca.” Ela fitou-o nos olhos com espanto, ia protestar mas ele limitou-se a acenar a cabeça suavemente, insistindo no que pedira. Depois de ela ter removido o aramado da sua boca, manteve-se imóvel à espera do próximo passo de Nico. Este passou para trás dela e soltou o seu rabicho. As suas mãos rugosas seguraram depois nos débeis ombros da atordoada Marilu, e forçou que as suas costas ficassem rectas, projectando o seu liso peito para frente.

Seguidamente ela sentiu os seus rugosos dedos retirarem os seus pesados óculos. Nico virou para trás e apontou para o pé do sofá a sete metros de distância. Marilu seguiu o dedo indicador e olhou.

Nico fez-lhe então sinal para manter o ângulo da sua cabeça e voltou à frente dela.

Chica, ahora mírame en mis ojos. Escucha la canción”.

As suas faces ruborizaram e sentiu-se nua de todos os objectos que a ocultavam do mundo, que a protegiam de qualquer escárnio e censura. Mas a sensação de leveza atingia rapidamente o seu imo, nada pesava naquele momento, e pela primeira vez experimentou o seu próprio ser, que por tantos anos a inanidade do seu meio tratou de ofuscar.

“Sin ti…no podré vivir jamás… y pensar que nunca más … estarás junto a mi…” (10)

Instintivamente o corpo de Marilu se embalava ao ritmo dos Panchos. Enquanto Nico segurava firmemente os seus ombros, as suas ancas meneavam lentamente. E subitamente algo atravessou pela sua espinha acima, ela fechou os olhos e contorceu-se. Voltou a mirar Nico, agora ousada, mais ela. E lia os seus pensamentos.

 

Sin ti … No hay clemencia en mi dolor … La esperanza de mi amor … Te la llevas al fin…”

Não o percas de vista, porque é ao teu domínio e sedução que o homem se submeterá. Ele é a tua presa e tu, a razão da masculinidade que ele quer manifestar dentro de ti. Mas disso ele ainda não sabe e é essa a magia do teu domínio. Bolero é carne e beleza sublime. Bolero és tu, mulher.

“Sin ti… Es inútil vivir… Como inútil será… El quererte olvidar… “

Era áspera a sua palma, quando segurou na sua débil mão esquerda. A outra mão, pousou-a a meio das suas costas e conduziu-a. Marilu deixou-se levar, ignorando o domínio que Nico lhe atribuía, apertou-se junto desse homem que lhe dava um sentido tão diferente de se sentir mulher.

E ele murmurava para o ouvido dela “chi…ca….pom-pom… chi…ca…”, marcando o compasso “lon-go… curto-curto… lon-go…” do mais básico do bolero.

Para Nico, era estranho ver o seu corpo junto de uma mulher, que podia ser a sua filha, levando-a até onde as emoções o permitiam fazer. Força desconhecida essa que o fazia mover e pela primeira vez, sem Benita, sem Pilar, Johnny, avó Consuelo, La Tropicana, jagunços, noite, e tantos outros fantasmas que sempre o acompanharam. Todavia, na sua mente corria a imagem duma criança num descampado em terra batida que ele conhecia bem. Era Niquito que acabara de receber da avó um papagaio de papel, quando fez oito anos.  Como estava feliz nesse dia. Ele aí sorriu largamente, como também havia muitos anos que não fazia.

Nessa noite, quando ela chegou à casa, não foi rente ao chuveiro. Parou antes diante do seu espelho vertical e desnudou-se. Voltou a tirar os óculos. Inclinou a sua cabeça ligeiramente para baixo e olhou-se. Sorriu e, mantendo estáveis os seus ombros, as ancas voltaram a menear, quando a sua mente reproduzia uma melodia.

 “Chi…ca… Pom-pom…. Chi…ca… Pom-pom…” – riu-se desbragadamente.

Admirava agora o que via ao espelho. Uma magriça de pele alva, cabelos escuros soltos, pequenos seios, ancas pouco salientes, agora porém, de olhar penetrante, desafiadora, que se movia com a ousadia de quem ganhou algo e para sempre. Marilu continuava a não primar em beleza, mas achou em si a mulher que a leveza da liberdade lhe trouxe essa noite. Não tinha ainda plena consciência de que tudo mudara nela, mas achou belo o que vira no espelho. Queria reter aquele bocado de felicidade. Era real e era disso que andara à espera, vida toda.

Nessa noite, não dormiu. A sua cama, transformou-se antes em recinto onde concentrara toda a roupa “apropriada”, para ser jogada fora ou doada. Com ela seguiriam pares de sapatos comprados por mera conveniência. Num ápice, esvaziou o guarda-fato. Todos os quadros com frases inspiradoras foram para o lixo, assim como aí pararam os livros de auto-ajuda. Quem se encontra e se aceita, não precisa de modelos, nem paradigmas de felicidade. Os santos também saíram da parede. Quem tem fé, não precisa de mais estímulo divino. Por fim, lançou para o cesto de descartáveis o seu aparelho dentário. Que aturem a minha dentuça, bradou para si!

Na manhã seguinte, passou pelo Cheok Chai Un(11) e parou na tenda do chu-cheong fan(12) e pediu a dose grande. A dona do estaminé, Chan Si Lai, não a reconheceu no início, nem ela a cumprimentou logo. Aí estava nervosa, sem saber da reacção dos seus conhecidos. Mas, rapidamente a dona desfez-se em alarido.

“Menina! És tu! Oh como estás diferente!  Quando foi a última vez que vieste? Há dois dias!…”

Marilu estava agora à espera da sua sentença. A Chan Si Lai, uma bela mulher dos seus quarenta anos, era conhecida na vizinhança pelo seu deslinguado. Não fosse ela exímia na sua arte de preparar uma bela massa enrolada, já teria a sua tenda ido para o fogo, pela ira que causara a alguns incautos.

Estás linda…a sério, sem óculos, cabelos soltos. Eras tão acanhada, o que te deu?”. As suas faces coraram, mas não disse nada, esboçou apenas um sorriso. “Ah, já entendi, agora és mulher! Já era sem tempo! Ouve, nós as mulheres também temos que gozar. E ele é bonito?”. Marilu declinou mais uma vez a responder. Chan Si Lai, encolheu os ombros e o seu sábio sorriso não se fez esperar “Pela tua cara, sei que tiveste uma noite bem trabalhada. Hehe… hoje não pagas nada. És mulher! Ha-ha-ha!”

Marilu não sabia o que lhe dizer, pois ela não entenderia. No entanto, passou pelo seu remoque e teve a certeza de que fora aprovada no exame. Quantos crivos mais teria de passar, não lhe interessava no momento. Queria desfrutar a sua despreocupação o melhor possível. E desceu pela Rua do Campo abaixo. A sua miopia pesava no passeio, mas sabia bem andar em plena rua sem o peso nos olhos. Passou pelas vitrinas, por onde podia ver-se. E todas as vezes que aí via uma figura magricela encurvada, endireitava as suas costas, puxava os seus ombros para trás, enquanto retesava o seu peito. Deu-se depois a olhar o espelho da vitrina do lado para onde atravessaria, abrandou a marcha só para divisar como andava. Pela primeira vez observara com acuidade, o passo de outras mulheres e imitou. Chegou à porta do edifício do seu serviço. Respirou fundo, mais um grande exame à vista.

Chegou à casa no fim do dia. Por várias vezes quis direccionar-se ao Beco do Musgo, mas hesitou. Sentiu que precisava de mais um tempo para se preparar para o grande momento. Observou novamente pelo espelho  a menina em plena transformação. O seu novo penteado menos volumoso, a sua camisa branca comprida de seda, ganga azul ajustada às suas ancas e pernas alongadas. O único óbice eram os olhos avermelhados por ainda não se terem habituado às lentes de contacto. Mesmo assim sorriu, para se assustar depois: no dia anterior, era outra a pessoa que aparecia no reflexo e que sempre a acompanhara.

Na cama pensou em Nico e o coração bateu forte. Era a barreira mais importante que tinha de ultrapassar.

 

VII

“Ah-Ngao, isto não melhorou.” (13)

Nico escutava mudo o diagnóstico do mestre-china(14) Lam Tat Cho que estudava a palpitação do seu pulso com os seus argutos dedos. Não que falasse muito chinês, mas foi o mesmo sujeito quem o livrara de muitas mazelas do passado, curara-o de reumatismos, gripes, espinhela caída, eczemas, diarreias e cólicas, de quem aprendeu os curativos mais básicos para se cuidar quando for necessário. Como um cubano se pôde dar com um chinês, numa língua que é apenas franca para ambos, só o milagre de Macau pode explicar. O certo é que aquele nunca mais confiara na medicina dos hospitais. Não havia bisturí, nem estetoscópio mais certeiro que o dedilhar do curandeiro.

“E agora?

“Quanto tempo queres viver, toureiro?”

Boa pergunta. Havia dias em que queria despertar em algo etéreo, porém noutros sentia haver ainda algo por fazer e que por isso ainda não era hora de partir. Estava nessa última situação, achou.

“Por ora não quero pensar nisso”. Mas pensou em Marilu que já não vira havia quase uma semana.

“Pois, entendo.”

O mestre-china sempre sereno e impávido, com quem Nico nunca conseguira ter o que pudesse designar-se por conversa, pegou no seu pincel rabiscou a receita numa artística caligrafia. Olhou Nico nos olhos e pela primeira vez denunciou reserva.

“Toureiro, o que te receito é coisa mais forte do que o habitual, vais precisar dele. Não gosto da tua cara, mas enquanto a tua urina não escurecer, está tudo controlado. ”

Mas eu… mou-chin(16)!”

O mestre Lam sorriu, como também raramente fazia. “Não te preocupes. O teu coração é bom e tens ainda algo inacabado, disso o mestre Lam sabe.”

Não entendeu essa última frase, que mais lhe soou a uma despedida. Mais uma.

De facto, já esteve noutras situações parecidas, em que a vida lhe corria sobre um fio.

A caminho da farmácia onde iria buscar as ervas medicinais, lembrou-se dos dias seguintes à conversa que teve com Johnny Arroyo. Estava-se perto de Natal, o céu nublava-se a condizer com o rosto dos transeuntes e do norte soprava o vento hibernal da época, relativamente seco, mas ainda suficientemente húmido para levar o frio até os ossos.

Fez uma lista de visitas a fazer, mas as portas fecharam-se-lhe tão rapidamente como a queda das pedras do dominó. Os tais amigos da noite e de peito despacharam-no a eito, jurando a pés juntos nunca na vida o terem conhecido, que ele não passava de um impostor e que merecia, era, uma surra das grandes. Não conseguia andar com a destreza de outrora, mas mantinha a sua bela figura, embora o desmazelo tenha já tomado conta do seu penteado e da indumentária. Não tinha, na verdade, condições para estar melhor, sobretudo quando foi ter com Maggie, a abastada filha de um magnata da marinha mercante, a oferecer-lhe serviço como tantas vezes fizera no passado, de quem recebera tanta prenda e nota. De todas, Maggie era a que mais o adorara, tanto foi o prazer que o touro lhe dera que até rogava por mais. Não se importaria, decerto, com a sua apresentação. Pelo menos, foi essa a ideia com que galgara a subida pela Mid-Levels. Abriu-lhe, então, a porta um sujeito de feições asiáticas, possante, musculoso e sorumbático. Nos outros tempos, ele exigiria uma explicação, mas agora era ele quem teria de explicar a razão da visita.

“Quem é?” ouvia-se a voz dengosa da Maggie do interior.

“Um camafeu que pergunta pela senhora. Quer que corra com ele?”

Maggie apareceu em robe de inverno a cobrir a sua nudez e hesitou quando o viu. Nico avançou logo à primeira oportunidade, abraçando a antiga amante como se nada tivesse acontecido na sua vida, ignorando o mastodonte aparentemente enciumado.

“Oh meu coraçãozinho, como preciso de ti. Sinto-me tão desamparado e indefeso sem ti. Tenho pensado nos dias em que passaremos nas Caraíbas…”

Nicky…” ela interrompeu-o afastando-se dos seus abusivos lábios. Era visível a sua repulsa, contra o intenso odor corporal do cubano.“As coisas já mudaram. Esse jogo de eu ser a boneca a teu mando já terminou. Já encontrei um novo companheiro, lamento. Vamos já resolver isso, duma vez por todas”. Fez sinal ao seu empregado para lhe trazer a carteira.

Cinquenta dólares de Hong Kong, uma bofetada e mais sevícias, foram com que descera até Central, sem noção donde seria o seu poiso para o resto do dia. E a fome, essa inoportuna companheira da desgraça, não tardaria a acotovelá-lo. A caminhada foi-lhe particularmente penosa, com o seu pé amordaçado, obrigando-o a repousar, para depois seguir o seu trilho com destino sempre adiado. Todavia, acordou com dois indivíduos a vasculharem os seus bolsos. Nico ainda tentou debalde segurar o dinheiro. Levou dois murros que o pôs prono no chão. Um deles até soltou os atacadores dos seus sapatos, arrancando-os dos seus pés.

Nos dias seguintes passara por tudo, embrulhando os seus pés com saco de plástico, atando-os com qualquer corda ou guita que pudesse encontrar pelo caminho. Doíam-lhe sobremaneira, de tanto andar e de tanto ser corrido dos sítios já ocupados por outros da mesma condição. Era miséria que encontrara nesse submundo da fausta cidade, onde cada canto era uma cama e tudo que andasse sobre quatro patas era comestível. O impensável duma dita auto-suficiente cidade ocorria-lhe à vista, onde vivia gente à margem de qualquer noção de dignidade humana. Bem mais feliz era o tempo da pobreza extrema em Havana, onde o povo, ao menos, se divertia à custa da própria desgraça, alimentando-se da música e dos ritmos fortes, ofuscando o cru de uma vida sem futuro. Bem mais triste era ser invisível, numa cidade onde o cimento se confundia com o lúgubre estampado nos rostos dos indigentes.

O que estava mais à espera, dizia para si, junto de uma das docas de North Point. Lembrou-se de Benita nessa hora que pressentia ser de despedida. Teria tanto para lhe dar e contar, encher-lhe-ia de conselhos, seria o seu confidente. Mimá-la-ia com tantas prendas de Natal ou de outras ocasiões. Dançaria com ela, faria dela a melhor bailarina da turma para a inveja das suas colegas. Seria um Pai.

Porém o seu coração arrefeceu de seguida e seus olhos semi-cerraram. Benita não quereria um trapo humano como pai, não mereceria a infâmia que ele lhe causara, nem a vergonha com que teria de crescer. Não, ela teria de ter um curso de vida sem ele. Resignou-se e apagou-se-lhe, então, a luz. O seu pé daria o último passo para o gélido mar de Dezembro.

“Isso não. E se Benita não se importasse com a tua desgraça e viesse um dia à tua procura? E porque não esperar por esse dia?”  Era a voz da sua consciência, como se tivesse ganho vida própria naquele derradeiro segundo, para reclamar a sua própria sobrevivência. Ele agachou-se e se encolheu como uma concha e chorou. Sabia que tudo não passava de falta de coragem para pôr fim à sua própria existência. Quer ele morra naquele momento, quer viva como um leproso pelo resto da sua vida, não haveria retorno. Benita não voltaria. Desfaleceu.

Acordou no leito de um centro missionário católico de solidariedade a desabrigados, trazido por uns estivadores da doca. Aí permaneceu durante dois meses, onde se recuperou em toda a sua extensão. O centro não tinha condições para o albergar por tempo indeterminado, quando ele manifestou o interesse em apoiar a acção social a troco apenas de comida e dormida. Nisso, alguém sugeriu-lhe que fosse a Macau para prestar auxílio a um grupo de jesuítas espanhóis, no apoio aos refugiados vietnamitas.

 

VIII

A campainha tocou e Nico mal se recompunha das suas recordações. Arrastou-se até à porta e quando abriu-a deu um pulo de espanto.

Marilu encolheu-se embaraçada.

“Estou …mesmo horrível, não estou?”

“Caramba …!” Viu uma moça delgada de cabelos soltos mais curtos, mas finos, sem óculos, nem dentuça, de camisa branca, desabotoada por onde se divisava uma peça ajustada cobrindo os seus seios pequenos, de saia acima dos joelhos, calçando saltos médios. Diante de si estava uma moça tímida, mas descomprometida do seu passado, pronta para uma nova vida.

 “Qué bella!”. Sorriu genuinamente.

Marilu respirou de alívio e apenas apertou-o nos seus braços. Não lhe interessava as considerações que outros lhe teceriam sobre o seu novo visual. O importante era que Nico a aprovasse e aceitasse a nova Marilu que emergia dentro de si. Muitas vezes interrogava se amava esse homem. A resposta era sempre positiva. Mas, escutava também o que a sua voz “de anjo” lhe segredava. Ela lhe contava como Nico se situaria numa dimensão bem acima da de um mero amante. Era isso que alimentava a sua devoção por essa estranha pessoa, escutando-o e confiando-lhe o seu impenetrável mundo de anseios, esperanças e desejos, desnudando-se de preconceitos que a atormentaram toda a sua vida.

O jantar que houve nessa noite pareceu no início ser entre pessoas que mal se conheciam, mas com suficiente empatia de se darem bem num ápice. Não obstante, Nico não falar muito de si, Marilu contou tudo o que se passou durante a semana, a reacção das pessoas, dos vizinhos, dos colegas quando a viram. Riram-se muito, partilharam o rum e até ela sorveu um trago da cigarrilha.

“Ensina-me, Nico”, desafiou-o por fim.

Ele sorriu e concordou. Nos dias e meses que se seguiram, passaram, pela rumba, pelo samba, merengue,  son, calipso. Marilu experimentava a sensualidade à flor da pele. Vira que afinal os grandes movimentos e as coreografias do Mr. Hung não faziam sentido. Compreendera que a dança não tinha de se sobrepor à música, porque ambas são faces da mesma moeda, assim como o é o vinho e as delícias da boa mesa. Sentir a música e exprimi-la através do seu corpo, amparando-se no seu homem que a corteje a cada passo, seria a isso que apelaria toda a dança. Bolero era isso tudo.

Ao concentrar-se na sua pupila, Nico renascia paulatinamente. A postura do corpo, o alinhamento dos ombros, a flexibilidade das ancas, a leveza de cada passo em contraste com o contrapasso, acima de tudo a capacidade de se moldar ao movimento do seu par, eram lições que exigiam de Marilu uma incondicional atenção, e dele uma revivência dum passado enclausurado nas profundezas da sua memória.

Apesar da fraqueza de um dos pés, Nico recuperava lentamente a destreza que o caracterizara nos tempos áureos, animado pelo prazer que tinha o condão de criar. Gradualmente, voltava a sentir algo havia muito arredado das suas sensações, o touro, agora amadurecido e não obstante, a querer desenvencilhar-se do grilhão com que ele próprio o prendera. Inquietante este pensamento, não fosse o resquício da charanga da avó Consuelo que também começava a entoar no tardoz da sua consciência.

Cuando estoy entre tus brazos corazón … Me quema la pasión y el fuego de tu piel… “ (16)

A sua mão direita posicionava-se a meio da coluna de Marilu, os dedos pressionavam-na consoante as nuances do ritmo, enquanto ele gingava suavemente, levando-a a rodopiar. De olhos cerrados ela inebriava-se com esse carrossel, segurando-se nele, sem se importar com o tempo. Sentia a segurança e a confiança nesse homem que passou a ser a sua referência.

“…Déjame quererte con ternura adolescente para poder concebir …”

Ela abriu de seguida os olhos e mirou Nico pela forma como foi ensinada. Este então sentiu as mãos delgadas da pupila a corresponder a pressão dos seus dedos masculinos. Puxava agora por ele, incitava-o a mais, pelo instinto que a dança atiçava no seu magro corpo, o feitiço do bolero que a soltara dos demónios que a amedrontaram no passado.

“… Quiero estar bajo el embrujo de tus besos y en tus labios conocer… “

Movia-se agora livremente dentro do compasso, criando pormenores, coreografando a sua dança, deixando Nico surpreendido com o seu serpenteio que adquirira num espaço de tempo tão curto. E naturalmente os papéis inverteram-se: ela passou a comandar a dança, desafiando o seu touro, provocando mais arrojo nele, mais sangue nas suas entranhas, mais desejo de posse, a que ela só corresponderia, como e quando quisesse. Nico viu nisso nela, excitou-se e sorriu. Agora sim, ela dançava. Apertou-a mais junto do seu também renovado corpo, moveram-se em todo o espaço que a sala permitia, como que num único corpo, com um único propósito, o de acenderem em cada um, uma chama, há muito arredada da vida dele, mas fundamental para que a dela fizesse sentido. A paixão de querer, de possuir e de fazer.

Por fim, suportando o leve corpo da pupila com a mão no seu dorso, inclina-se sobre ela. Ele lia o seu desejo e sabia que bastava um pequeno gesto para se consumar o que a lascívia lhes trazia. Porém, não era isso que ele pretendia, não queria ser causador de algo, cuja consistência não estava em condições de garantir. Não iria comprometer um futuro desta inocente moça que medrava em beleza e se fortalecia como pessoa. Queria sim transmitir-lhe algo, deixar-lhe algo com sentido de decência. Algo que não lograria fazer com Benita.

Ele inclinou-se e beijou-a na testa.

Marilu esboçou um sorriso. Também leu algo no rosto magro de Nico, vincado pela angústia de muitos anos. Entendeu que o desejo por ele teria de ser mais do que o estímulo carnal pudesse causar. Ele transcendia  o simples homem com quem poderia partilhar uma cama. Ela iria encontrar muitos homens na sua vida, casaria quantas vezes que entendesse, mas voltaria sempre junto de Nico. Cerrou os olhos e aconchegou-se nos braços do touro, dormitou com a segurança que se deve ter num berço.

“Como fué… no sé decirte como fué …”.

 

IX

A brisa húmida soprava essa manhã do início de Setembro, trazendo um trecho de temperatura amena para suavizar o calor típico dessa altura do ano. Era o prenúncio de mudança de estação, as libelinhas já pairavam no ar, anunciando o começo das aulas, pondo os garotos aprumados com novos uniformes e malas. O dia começou bem cedo no Beco do Musgo. Nico já estava acordado e apreensivo. Queria que o dia fosse como o planeado e que nada o fizesse mudar de ideias. Faltou à consulta ao mestre Lam, não queria que este dissesse algo que o desencorajasse para o que vinha a cogitar nos dias anteriores.

Marcavam um pouco mais de nove horas e ele sairia, mas deu com a Marilu à porta. Tinha uma folga e resolveu aproveitá-la, fazendo a visita de costume.

“Bom dia, vais para algum lado?”

Ele acenou a cabeça, diante dos olhos perscrutantes da pupila.

“E… posso saber aonde?”

“Voy a Hong Kong.”

Ela não quis insistir nas razões da ida, como instintivamente se aconselhara.

“Que tal eu ir também?”

“Muy bien… se así quieres!”. Não planeara ir com ninguém, mas também não queria contrária-la. No fundo seria uma boa ideia ela ir também com ele, podendo com ela partilhar os estados de alma.

O silêncio reinou a viagem, sem ela saber ao certo qual o itinerário do passeio, embora já o pressentisse. Sem surpresa o metro parou na estação de Wanchai. Consultou o mapa e deambularam pelas ruas adentro. E pararam diante dum centro comercial. Nico olhou à sua volta para se certificar do sítio.

“Tens a certeza de que este é o sítio que procuras?”

Confirmou.

“Antigamente, éso era La Tropicana, dónde io era uno dançante muy importante!”. Embora o recinto se tenha convertido em algo completamente diferente da sua origem os traços se mantiveram. Onde era o acesso aos elevadores, transformaram-se em armazém de artigos. Reconheceu o lugar onde teria sido o palco, na zona onde passou a ser a loja da bijutaria e a imensa e fausta pista de dança deu lugar a vários corredores com inúmeras lojas de tamanho diminuto, de comércio variado, desde cosméticos, brinquedos sexuais a cabeleiras falsas. Nico ria-se, lembrando-se das suas fãs, no auge da sua carreira, da grande banda de Johnny Arroyo e os exímios dançarinos da plateia, que exibiam a sua arte durante os intervalos dos Rumbéros. Ria-se também, lembrando-se das escapadelas com algumas das fãs que o namoravam por trás do palco. Descreveu a Marilu todo o velho recinto com todos os pormenores de que pudesse lembrar.

Ao voltar para o exterior do edifício, ficou mais taciturno, quando lhe veio à memória a última conversa com Johnny. O sentimento de culpa ardia-lhe o peito, ao recordar a mão que este lhe dera em Miami, a protecção que lhe assistia e toda uma projecção para ribalta que lhe proporcionara. Johnny não merecia o que ele lhe tinha feito. Marilu limitou-se a observá-lo a fechar os olhos e a rezar.

Depois de ter feito uma ligeira vénia, prosseguiu o seu caminho, com Marilu no encalço. Andaram cerca de quinze minutos e depararam-se com um prédio habitacional, de uma decrepitude evidente, a acusar falta de pintura, sujidade generalizada, residentes com um aspecto duvidoso. Marilu tentou debalde demovê-lo do intento de nele entrar, para depois subir com ele ao oitavo piso, num elevador imundo, com escarro no chão e odor nauseabundo.

“Nico, porque estamos aqui?

Desta vez Nico não retorquiu. Absorto nos seus pensamentos e ante a impossibilidade de entrar em nenhum dos apartamentos, virou-se em direcção a um deles e ajoelhou-se para o pasmo de Marilu. Baixou a cabeça e aí se manteve durante um minuto, antes de dizer algo.

“Perdónenme, ustedes… perdónenme!”

Marilu, então, entendeu porquê se encontraram nesses locais, afagou-lhe as costas enquanto ele murmurava palavras inaudíveis. Por sorte, ninguém saiu das respectivas casas, caso em que não só se frustraria o seu propósito, como teria de se lhe dar uma explicação incómoda. Para Nico, era indiferente que alguém se sentisse importunado, pois estava aí para ficar o tempo que fosse necessário. A sua mente era um carrossel de imagens que se rodavam ininterruptamente. Mas, todas se fixavam em Benita, a menina de cabelos encaracolados e de covinhas pronunciadas. A menina que perdera por um seu devaneio carnal. Soubesse ela da saudade doentia que tinha dela.

Na volta a Macau, também a calada imperou. Contudo, Nico quis quebra-la.

“Perdóname también, Marilu”.

“Tinhas que vir um dia e fazer o que fizeste, Nico, não tens que te lamentar”.

“Estoy en paz, chica. Ahora, puedo retornar a casa. Muchas gracias, Marilu”.

Ela encostou a sua cabeça no seu ombro e embalou-se no sono até chegarem ao Porto Exterior, enquanto o escarlate do céu acompanhava a descida do sol por trás da montanha.

A ida a Hong Kong tornou Nico mais feliz e jovial, como que tivesse libertado de si um grande fardo. Estava sempre pronto para onde ela lhe sugerisse fossem. Até por várias vezes acompanhara-a às aulas do Mister Hung, o qual, consciente da melhor técnica que a sua pretensa aluna adquirira, decerto não dele, nomeou-a sua assistente, com a função de demonstrar aos outros alunos os passos de dança, talvez a forma mais inteligente de poupar a sua autoridade de professor de dança.

Nico observava de longe com orgulho e admiração a sua pupila, agora exímia executante da rumba, do cha-cha-cha e do calipso, tão diferente daquela desgraçada que encontrara deitada na rua, um ano atrás. Era agora uma mulher com voz própria e sonante, mais espontânea. Era por isso, bela. Uma vez, por insistência dela, ele viu-se no embaraço de pisar o centro do salão, onde dançou com ela. Se no início recusara dar um único passo, música acabara por o seduzir o suficiente para a conduzir, numa rumba para o deleite de todos. Ressabia-lhe os tempos mágicos de La Tropicana, em que dançava para uma plateia de admiradoras, estava delirado. Havia muito que não sentia tanto sossego e paz, esquecendo-se de tudo o que vinha adiando.

Lembrou-se de que estava perto o dia dos seus anos, que coincidia com a de Benita. Porém, recordou também que tinha o encontro com o seu mestre-china no dia seguinte.

“Ah-Ngao, isto está mau”, a voz do mestre-china não deixava dúvida.

A sua cara já vinha adquirindo uma tonalidade acinzentada, amarelada. A sua urina um tom acastanhado, ele estava mais magro. Por mais que Marilu lhe perguntasse, respondia-lhe sempre que estava bem e se sentia robusto. Na realidade, porém, tossia com mais frequência, as dores de barriga tornaram-se mais frequentes.

“Preciso de mais tempo…” avançou ele ante a reserva mais pesada do mestre-china. Contudo este não respondeu logo, ademais, que mais poderia dizer?

“Meus amigo… o que tinhas por realizar já o fizeste, segundo me contaste. Para nós chineses, o favor divino já te foi concedido, pois nem todos podem partir com o trabalho feito. Não é correcto pretender mais”.

“Eu preciso de passar os anos dela … com dignidade”.

“Ngao… Ela não é a tua mulher, nem tua amante, por quê te importas?”

Nico ficou mudo, mas a súplica no seu amarelado olhar falou mais alto.

O mestre Lam Tat Cho foi perspicaz. Não sendo uma coisa, nem outra, a menina tornara a vida do cubano, macerada de culpa e de angústia, em algo renascido. Há valores que justificam levar a vida até o extremo, ainda que fossem  incompreensíveis até para os deuses. Ele faria tudo para estar em condições nesse dia. O mestre também, se estivesse no lugar dele.

“Muito bem, como deves saber, a tua hora chegará quando menos esperares”, rabiscava o curandeiro a receita da sua medicação.

“Há muito que ando à espera desse dia”.

“Isso é mentira que todos contam, quando lhes falta coragem para encarar o seu fim”. sorriu o mestre Lam, consciente de que aquela seria a sua última sessão.

E que te importa, nisso tudo?”

“A inocência da moça que acredita na tua imortalidade!”

 

X

Camisa com motivos floreados, calças de cor beige, sapatos a preto e branco impecavelmente engraxados e suspensórios. Esse era dia de festa e, mais um ano,  Nico iria celebrá-lo como todos os anos fazia, desta vez com algo muito real.

Escolhera o restaurante onde houvesse música ao vivo. E havia um em que tocava um trio filipino músicas dos Trio Los Panchos e outros agrupamentos mexicanos. O responsável do restaurante perguntou se precisava de preparar algo especial, ao que respondera que precisava apenas de um bolo de anos, champanha e vinho.

A ocasião reuniu todos os pormenores como bela estava Marilu, vestida de um conjunto branco de blusa com alça fina e saia curta com folho, sapatos altos pretos luzidios, pendente fino com cruz de prata. Os saltos imprimiam um andar mais lento, que por sua vez denunciava um corpo frágil mas segura. Essa confiança conferia-lhe elegância e sedução. Ele riu-se de vaidade sabendo que fora responsável por essa sublime transformação.

“Hoy mi playa se viste de amargura … Porque tu barca tiene que partir…”(17)

O trio filipino esmerou-se de paixão nesse bolero de Roberto Cantoral, convencidos de que cantavam para dois namorados, embora fosse evidente a diferença de idade. Nico fez a vénia e deu-lhe a mão. Marilu aceitou-a, deixando-o iniciar a dança, como tão bem ela aprendera. O seu esguio corpo de sereia e as mãos de dedos longos roçavam-se no ainda másculo corpo do touro, os pés pareciam mais pequenos e eram agora de pena que deslizavam sobre o chão como se não o tocassem, acompanhavam com mestria as voltas e rodopios que ele lhe induzia. Mas nada disso valia, não fizessem os olhos parte desta cumplicidade. Bolero era ela e ele apenas a tornava mais mulher.

Ouviram-se palmas quando voltaram ao seu lugar. Marilu sabia que estava admirável essa noite.

“Tengo un regalo para ti”.

“Ui, que noite maravilhosa, há jantar, champanhe, vinho, dança e presente!”, aplaudiu levemente, segurando o pequeno embrulho contendo algo fôfo.

Nico atentava com expectativa a reacção da pupila. Com cuidado, Marilu abriu o embrulho sem o rasgar e viu uma boneca branquinha. Os olhos eram de vidro, lábios vermelhos, a boneca foi obra ele.

“No sabia lo que querías y…”

“Não queria nada, estar contigo aqui já é um grande presente”. Marilu apertou a bonequinha contra seu peito e sorriu largamente, sabendo do significado disso. Os seus olhos humedeceram.

Muito obrigada por esta noite, Nico”.

La cena está magnifica”.

Marilu manteve-se calada por uns segundos.

Não é deste jantar, Nico. Falo de ti, do que fizeste por mim, do que ainda fazes. Salvaste-me e deste-me a dignidade de ser como devo ser”. Nico retorquiu com o seu sorriso. “Sei do esforço que fazes por esta noite”, continuou.

Nico olhou-a com algum espanto.

Não queria vir” prosseguiu Marilu “pois sei que não estás bem. A tua cara, tua pele e teu olhar, não me enganam”.

“Qué estás hablando, mujer?”, brincou.

“Nico … o sr. Lam Tat Cho, também o conheci”.

Ficou hirto, enquanto ela prosseguia.

 “Numa das escondidas que me fazias, segui-te sem saberes e foste para o seu consultório. E foste várias vezes nestes últimos tempos. Estou a par da tua situação. Tenho poucos amigos, mas ainda falo com alguém no hospital. Sei da doença que tens há muitos anos e não há meio de a tratar. Falei com o médico que esteve com o teu processo. Chorei muito, fiquei muito revoltada por não quereres saber de ti, mas tive que manter a minha cara de serena. Não é fácil, quando sei … que é terminal. Toda a minha vida foi um mar de incertezas, de auto-flagelo, mas recriaste a minha coragem de ser eu própria, de me encarar e de ter a ousadia de dizer estas coisas. Esta noite não devia eu estar a celebrar coisa alguma, quando sei que … quando sei que não te terei outra vez. Mas, mais do que isto sei que este dia é importante para ti. Irias celebrá-lo ainda que estivesses paralisado.

“Chica, basta… hoy no és para hablar de cosas tristes …”

“Não são. Estou feliz por esta noite e sei que estás também. Hoje é dia da Benita, soubesse ela quanto gostarias de dançar com ela, como toda a tua vida sonhaste. Não calculas a inveja que tenho dela e quero viver o que ela nunca viverá! Viver o significado que tudo isso tem para ti. Tenho aprendido a ser indiferente ao porvir e viver todos os dias. Em cada um vi coisas lindas contigo, e hoje é provavelmente o mais feliz da minha vida”, pegou na mão de Nico e sorriu “Não são coisas tristes”.

No tengo nada para ti, pero nadie me trató como tu. Qué és lo que vês en mi, chica?”

“Um homem bom, Nico. Um homem muito bom”.

Ela levantou-se e puxou-o para a dança. Ele apertou-a nos seus braços e não se mexeu, enquanto a música continuava.

Cuando vuelva a tu lado… no me niegues tu besos…”

 

XI

A saúde piorava de dia para dia. O apetite, os prazeres do charuto e  do rum esvaíam-se com o peso e o tom amarelado da sua pele acentuou-se. A tosse e as convulsões passaram a ser gradualmente mais frequentes, e a partir do dia em que o sabor a sangue tornou-se evidente, tornaram-se dolorosas, violentas.

Marilu chamou uma ambulância, um dia quando chegou à casa do Beco do Musgo, e deu por Nico caído no chão da casa de banho com a sanita de vermelho.

O Dr. Mendonça não ficou surpreendido quando voltou a ver o seu velho doente anos após ter desistido dos cuidados do hospital.  Foi peremptório em pouco se poder fazer, perante um historial feio que se vinha a agravar nos últimos tempos. O cancro do fígado que avançava, provocara varizes esofágicas e metastizara. O máximo que se podia alcançar era constatar o estado da doença, antevendo-se desde logo estar já na derradeira fase.

Ficou por três dias internado na Unidade dos Cuidados Intensivos. Sedado, dormia profundamente, enquanto tubos ligavam o seu corpo a aparelhos de medição, ao soro e a outro tratamento que mitigava o seu sofrimento. Marilu estava a seu lado, observando serenamente a sua respiração, como já o fazia havia duas semanas, quando passou a dar-lhe ansiolítico para o induzir ao sono. 

Onde estaria ele nesse momento? Com o quê estaria a sonhar? Interrogara-se ainda sobre o que teria passado pela cabeça dele, na noite em que ela acabara desfalecida na sua casa, como teria sido a sua preocupação em livrá-la de uma possível pneumonia ou mal maior. Ele teria feito tudo, apesar do seu feitio de então e do facto de não a conhecer de parte alguma. Porém, ela via-se agora impotente em fazer, fosse o que fosse por ele. Guardava um rancor especial por não poder mudar inelutabilidade das coisas, por ter chegado tarde demais para travar um fim de um homem que passou a ser a sua estrela. Se calhar era a sua hora que chegara, contra a qual não haveria retorno possível. Já a adiara por diversas vezes, quer por circunstâncias alheias à sua vontade, quer por deliberação própria. Alguém quis que a sua vida se cruzasse com a dela, mas para quê? Seja para o que fosse, ela deu-lhe uma razão para se manter vivo e completar o que a sua alma demandava fizesse. De súbito, viu-o a esboçar um sorriso. Podia ter sido um reflexo, mas ela desejaria tanto que ele tivesse visto a imagem da avó Consuelo, que ele lhe pintara com tanto pormenor e paixão.

A enfermeira de serviço interrompeu os seus pensamentos, ao informá-la que Nico passaria para um quarto normal, uma vez que a sua condição se estabilizou. Marilu disse que não. Caso fosse possível, ele iria para casa.

“Nem pensar, Maria Lúcia. Ele não está em condições para voltar à casa”, negou Dr. Mendonça com toda a veemência, o pedido de Marilu.

“Se você pudesse escolher entre morrer numa cama do hospital ou na da sua casa, qual seria a sua opção Dr. Mendonça?”

A volta à casa pareceu a Nico o regresso de uma viagem longa, e que todos lhe davam as boas vindas. Tito Puente com a gargalhada estampada na cara, Celia Cruz e Omara Portuondo, de braços abertos. E, claro, Beny Moré, piscava-lhe o olho maroto. Marilu conduziu-o para a sua cama e cobriu-o com uma manta. Foi à cozinha preparar uma canja que ele lhe ensinara a fazer.

Era reconfortante o cheiro a canja chinesa com ovos pretos e carne de porco, a qual passou a ser a sua refeição nos próximos três dias. Marilu dava-lhe de comer com pontualidade, arrumava a sua cadeira e assegurava o seu conforto nela. Numa destas vezes, resolveu brincar, rodopiando a colher pelo ar antes de chegar à boca de Nico. Este riu-se com esforço, mas fez questão em corresponder à paródia.

“Regresso a la casa es siempre bueno. Es aquí que quiero quedarme para lo todo siempre”.

“Sim, é a tua casa”, Marilu beijou-lhe a testa “Agora descansa um bocado”.

Mergulhou-se rapidamente no sono. Era visível a sua fraqueza. Mas, despertou sobressaltado.

“És tan triste cuando nadie acompaña a nuestro ataúd, no?”, balbuciou.

“Estarei sempre contigo, Nico. Sempre.”

Seus olhos fitavam-na. Lia-se neles reconforto de que tanto precisava.

“Vou te buscar um copo de água.”

Todavia marejado, o seu olhar transparecia a certeza de que tinha reconciliado com o seu norte. Era pena que não pudesse demorar um pouco mais. Contudo, era esse seu destino, implacável como aliás fora todo o seu percurso, e condescendeu. Lembrou-se novamente da noite em que estava à mercê do jagunço pronto para o apunhalar. Recordou ainda do dia em que podia ter saltado da doca para o mar gelado. Em ambas as alturas, algo decidira que ainda teria muito que viver e sofrer por isso. Que fez ele de tão hediondo que merecesse tudo o que foi na sua vida? Sorriu e encolheu os ombros. Encostou a sua face sobre a almofada e seguiu os passos da Marilu até ela chegar à cozinha. Não a queria perder de vista.

Voltou a pensar em Benita interrogando sobre o que estaria a fazer, contudo, a sua imagem turvava-se na memória, como um boneco de cinza a desintegrar-se ao sopro do vento. De súbito, a menina de cabelos encaracolados e covinha salientes, não passava de um registo ténue no tempo, como um mero retrato na parede que, graças à teimosia do seu dono, se manteve aí incólume às intempéries da vida. Deixou de fazer sentido a adoração por aquilo que agora tinha a certeza de que era uma miragem. Porém, Marilu era real, quiçá, a recompensa de tanto ano de redenção, a pessoa que a final lhe permitiu compreender a razão de ser da sua existência. E estava aí a seu lado, acompanhando-o à espera do combóio que o levaria para a eternidade.

Quando ela retornou, os seus olhos já não mexiam, abertos, mas sem mira. Ela entendeu e estava pronta. Foi à secretária e abriu a gaveta, donde retirou a fotografia de Benita para a colocar sobre o seu peito. 

“Nico… Nico.” – chamou por ele suavemente. Seus olhos ainda responderam, concentraram-se nela. Beijou no retrato, mas deixou-o deslizar-se para o chão. Puxou-a perto de si. Ela cedeu e encostou o seu ouvido junto da sua boca, quando seus lábios trémulos principiaram a pronunciar uma palavra. Fechou os olhos quando Nico se calou e beijou-lhe longamente a mão que se arrefecia. Murmurou-lhe, então, em cântico.

“Como fué, Nico. No sé decirte como fué…no se explicarte qué pasó….pero de ti me encanté… Muchas gracias Niquito!”

E ficaram assim conversando em silêncio, cada um querendo reter a imagem do outro na hora do adeus.

 

XII

Era domingo quando o corpo de Nico recebeu as últimas bençãos, na capela do Cemitério de S. Miguel. Muito pequena era a assistência, algo que Marilu já esperava. Não obstante, fez questão em cumprir todas as regras sociais, participando à imprensa o óbito e a data das exéquias, tanto em português, como em chinês. Fez o melhor ao seu alcance para que fosse identificado, mencionando as suas alcunhas e até características físicas. Nico fora sempre muito solitário e uma limitada assembleia não surpreenderia.

Pediu ao padre que lhe permitisse a por a tocar uma música durante a missa, num momento de pausa nas preces. Ficou combinado que o fosse apenas por um minuto e meio.

Queria tanto concentrar-se na homilia, sentir as palavras, quando o padre dizia maquinalmente que o finado jamais morreria se tivesse fé em Cristo. Porém, não logrou fazê-lo. Nico estava bem presente na sua mente e ainda que não tivesse tido fé alguma, nunca morreria dentro dela. Enquanto o padre rezava a missa ela percorria a sua memória, como se vasculhasse livros de uma biblioteca. E reviu todos os momentos mais significativos da sua relação com um homem que nunca sonharia encontrar. Evocou a memória de se ver ao espelho com ele atrás, por onde aprendeu a aceitar-se e se convencer da sua beleza apesar dos padrões convencionais, viu-se mulher de paixões fortes enaltecidas por uma dança que lhe restituiu a dignidade que ela própria menosprezou.

Sentada, os seus pés sapateavam suavemente, ao ritmo de Beny Moré, das maracas, congas, bongos e guiros, no momento combinado para a música. Ocorria-lhe a imagem da charanga da avó Consuelo, que ele tanto contava. Fantasiou conversar com Benita de mãos dadas.

No momento em que o caixão descia para a cova, uma borboleta pousou no seu ombro. Quem sabe se não era ele sob outra forma a dizer-lhe adeus, pensou Marilu. A saudade era imensa, mas não estava triste. Talvez chorasse quando chegasse à casa, mas naquele momento queria estar a seu lado até o fim, como prometera, com a determinação a que se habituara com ele. Pensou na sua própria mãe e nos seus meio-irmãos e depois no seu pai português da Marinha Grande, e encolheu os ombros. Quem seriam eles para ela, não soube responder. E que importava naquele momento? Mas sabia o que Nico era para ela.

A caminho da saída, chamou por ela um padre, com acentuada pronúncia castelhana.

“Perdoe-me, vi a senhora todo o tempo junto do falecido, achei que devia ter sido uma pessoa muito chegada a ele. Queria lhe dizer que o senhor Nicolás D’Aragón foi um grande homem. Uma mão muito importante para os refugiados de Vietnam, juntou famílias dispersas, construiu carros de madeira para os meninos, bonecas de pano para as meninas. A nossa congregação deve-lhe muito e para perpetuar a nossa gratidão, você pode ficar a viver  na sua casa pelo tempo que quiser, tal como o fez o senhor Nicolás em vida.”

Marilu apenas acenou agradecida com a cabeça, mas não respondeu. E continuou o sacerdote, com uma caneta sobre um bloco de notas:

“Para registo apenas, posso saber o seu nome e a sua relação com o Sr. Nicolás?”

“Maria Lúcia …”

Não prosseguiu mais, quando o bolero começou a soar na sua mente, com a imagem dele lhe entregando a bela muñequita na noite dos seus anos. Não era de cabelos de ouro, nem lábios de rubi. Era delgada e na saia estava inscrito o seu nome. Foi para ela a boneca. Só para ela, sem ter de compartilhar com ninguém. Entendeu.

Olhou então para o seu interlocutor e sorriu.

Mi nómbre és Marilu D’Aragón. Soy su hija.”

 

Macau, 17 de Janeiro de 2020, sexta-feira

 

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(1) Da canção “Mucho Corazón” (Emma E. Valdemar)

(2) Da canção “Te Quiero Dijiste” (María Grever)

(3) Fulgêncio Batista, o ditador de cubano saiu de Cuba no dia 1 de Janeiro de 1959, refugiando-se na República Dominicana. Sete dias depois entrava Fidel Castro em Havana, proclamando a vitória da Revolução Cubana.

(4) Da canção “Noche No Te Vayas” (Roberto Cantoral)

(5) Da canção “Como fué” (Ernesto Duarte Brito)

(6) Toureiro em cantonense, referente a espanhol, pela imagem icónica que se associa a Espanha e a arte do toureio (Tao Ngao, 鬥牛)

(7) Macaense, termo utilizado em Macau para designar os naturais de Macau de ascendência portuguesa.

(8) “Chupâ-ôvo” expressão macaense, de significado polivalente correspondente ao que no vernáculo português se diria desde “vai à m**da” a “vai pró c***lho!”

(9) Do patuá macaense, literalmente “boca mal cheirosa”, diz-se do desbocado.

(10) Da canção “Sin Ti” (Pepe Guízar).

(11) Do chinês 雀仔園, literalmente “jardim dos passarinhos”, o nome dado ao bairro chinês da Horta da Mitra em Macau.

(12) Massa enrolada feita de farinha de arroz, muito vulgar entre as guloseimas chinesas.

(13) Do cantonense 牛, lit. “boi, touro”.

(14) Designação antiga atribuída aos mestres de medicina tradicional chinesa.

(15) Cantonês: sem dinheiro (冇錢).

(16) Da canção “Fuego Bajo De Tu Piel” (Hector Hernandez)

(17) Da canção “La Barca” (Roberto Cantoral)

 

 

beny more

 

©Miguel de Senna Fernandes

NOITE DE BABALÚA

Ela sabe o que pensamos, como dizem.

Já no início da nossa existência, paira no alto do céu e nos observa em silêncio, com um ostensivo brilho que sempre nos intrigou. Não tão fulgurante como o seu parente durante o dia, ela permanece discreta na noite, marcando com a sua mudez uma presença indelével. Dizem que conversa connosco também, sussurrando-nos sobre o que o destino nos reserva. Ou então, somos nós que privamos com ela, confiamos-lhe o nosso imo, como se nossa confidente fosse. A ela dirigimos as nossas preces e súplicas e com ela explicamos os estados da alma, desde a euforia de um namoro bem sucedido ao devaneio de uma perda irreparável. Dedicamos-lhe a música, os nomes, o dia da semana e comemorações.

No entanto, o que mais fascina nela são as histórias que conta através da nossa imaginação. 

A Lua não escolhe nem o enredo, nem o desenlace do herói, mas no seu silêncio luminoso no cimo do firmamento, comove-nos e alimenta o imaginário que vai ganhando vida e sentido nas nossas mentes.

Histórias que não ocorrem ao Diabo, como esta que se diz ter passado no velho e emblemático bairro de S. Lourenço, em Macau.

Havia um tempo em que o nobre bairro de tradições seculares, albergara a fina nata da comunidade portuguesa macaense. Fora eleito para poiso dos mais altos dignitários da velha administração portuguesa, tão belo e enigmático que até os então governadores da Província de Macau relutavam em dele sair, para visitar outros locais, como  demandava o seu ofício. 

Tendo como referência central a Igreja de S. Lourenço, o bairro abarcava em toda a extensão desde a Praia Grande à Praia do Manduco, passando pelo barroco Seminário de S. José, desbravando-se pelo Lilau(2) fora até ao Templo de A-Má. 

De calçada portuguesa, as suas estreitas e sinuosas ruas desenhavam-se sobre  o desnivelado relevo da colina encimada pela Ermida da Penha. Não era fácil para quem tinha de as percorrer a pé todos os dias, num infindável subir e descer, sobretudo nos dias de chuva ou na época da densa humidade, em que ventos quentes do Mar do Sul se esbarram contra o ar ainda fresco do fim do Inverno.  

Chegava-se a ele quer pela Praia Grande, quer pela Rua Central, que outrora ligava a Igreja à Sé Catedral, mas que fora cortada a meio com a construção da Avenida de Almeida Ribeiro, no início do século XX. Mas, também se lhe acedia, subindo do bairro chinês da Praia do Manduco através da Rua Inácio Baptista, ou pelo emaranhado de ruelas da zona do Seminário.

Do casario dominante, com um máximo de três pisos, havia as portentosas mansões das grandes famílias chinesas e macaenses, ao estilo emprestado da art deco, com amplas varandas que serviam de alpendre para o piso térreo, havia também as moradias mais pequenas e modestas, habitadas pela classe média, funcionários públicos, polícias, gente mais humilde, estas porventura as mais graciosas que se desfilavam pelo bairro todo, estreitas com porta de madeira, duas janelas com veneziana.

O bairro era pacato, onde se ouviam as horas badaladas nos sinos da Igreja, os pregões que se sucediam suavemente durante o dia e noite, desde o cântico desafinado do amolador de facas e tesouras, ao chôro do velho vendedor de catupá(3). As bicicletas, motas e lambretas eram rainhas que transitavam alternadamente, ritmo que se completava com percussão do tim-tim, que chamava pelos despojos das famílias a troco de uns avos.

Havia também baldio, casas abandonadas e terrenos apenas aproveitados para entulho de obras vizinhas, onde crescia a vegetação selvagem. Escuros à noite, eram ideais para as escapadelas, namoricos não autorizados e outras coisas mais ousadas, numa altura em que o pudor, a decência e os bons costumes primavam em ser temas fervorosos da devoção católica no púlpito da Igreja. Também nestes locais, a juventude se juntava para fumar, longe da vigilância dos pais, para cantar, para fazer toda a espécie de dislate.

Esse estado de abandono ganhava outra mística, nas noites em que a Lua resolvia dar uma espreitadela. O pessoal da noite ganharia outro alento que de outro modo aturaria o lúgubre da má iluminação, ao som do repicar dos sinos.

Babalúa, babalúa (3)
Lúmi di iou-sa coraçám
Quando vos-tem na rua
Iou nádi tem pensám (4)

Eis uma possível lenga-lenga que se soltaria da boca de gente antiga de Macau, sob o lânguido olhar da majestosa Lua Cheia, nas noites do seu maior fulgor, em que destinos se mudam, vidas se transformam e opções se alteram. 

E assim foi numa das noites de babalúa no S. Lourenço, numa das histórias que passo a contar.

A noite caía depressa e não tardaria muito que a malta o viesse buscar.

No seu recanto ele se aprumava, enquanto na sala havia música, gargalhada, tilintar de copos, talheres e pratos. Era mais uma daquelas enfadonhas festas que se davam em casa, de que não tirava outro proveito que testar a sua paciência. De quando em vez, alguém entraria para pousar um casaco, uma mala. Cumprimentavam-no efusivamente. Para ele, contudo era uma constante irritação, um convite para sair daí de vez.

“Onde está a privacidade?!”- bradava em silêncio.

Durante horas de paramento, limpava o seu bigode fininho, ensaiava vezes sem conta a sua pose, esticava os seus membros, as suas costas, para se manter intacta a sua flexibilidade. Ao espelho mirava-se treinando o olhar de lince, letal numa noite de luar como essa.

Certificou-se de que a hora chegara. Sentiu-se limpo, esguio e luzidio.  O seu trabalhado olhar deu mais uma mirada ao espelho. Aproximou-se da janela ansiosamente. Estava elegante, tinha estilo, estava pronto.

Sentia o nervosinho. Iria ser a noite em que ele provaria ser gente, crivo por que passariam todos como ele. Teria que fazer algo de extraordinário que o acaso definisse, que só a heróis correspondia. Ainda sentia a dor que vinha das costas. Resquícios de uma briga ocorrida havia duas noites. Saiu-se bem, foi bravo e aguentou os golpes do adversário. O grupo até aplaudiu o feito, todavia não valia para o que se preparava. O que uma luta por mais arranhada fosse podia mostrar? Que áurea podia ganhar? Era mais uma entre muitas outras rixas que encontraria no futuro. Sem glória, nem memória. Nada valia. 

Até porque Daisy não estava presente. 

Curvou-se sobre o parapeito da janela, de queixo sobre as mãos, e concentrou a mente nessa beldade. Lembrara-se da primeira vez que a vira e começara a admirá-la. O seu coração bateu mais depressa, quando evocava imagens do seu pachorrento e sedutor andar. Ela sabia dos famigerados olhares que todos lhe lançavam, ciente do silêncio que ela causava ao passar por todos, caminhava propositadamente com mais pausa, meneando as suas ancas, rebolando o seu traseiro, as suas pernas cada uma cruzando sobre a marcha da outra. Sabia da lascívia que causava àquelas mentes famintas de amor. Por fim pousaria o seu leve corpo de deusa, ladeada de suas amigas intimas, observando todos, sorrindo com desdém. Ninguém no bairro mexera com a alma de todos e despertara tanta cobiça como aquela endiabrada. Daria tudo para chamar a sua atenção, brigaria com qualquer um para cair num segundo que seja na sua consideração. Lutar por ela faria todo o sentido. Ganhá-la seria afirmação da masculinidade. Eis a almejada áurea. 

E não havia meio de a malta chegar.

A noite avançava, mais uma hora se tinha passado. Lá fora a Lua subia altiva, lançando sobre ele o feixe luminoso, urgindo a que saísse da casa, onde nada aconteceria. Até porque não se conteve em pensar na possibilidade deles se terem esquecido dele, tal o frémito que Daisy e o seu séquito de boas amigas, causava à rapaziada.

Sorrateiramente, pressionou a alavanca da janela que de seguida se abriu o suficiente para que o seu corpo fino pudesse passar. Não a fechou para garantir o seu regresso. Deu um salto de mestre, mas os seus pés foram ter com uma lata de conserva abandonada. O ruído da queda no entanto não incomodou. Estava fora, enxergou lá para cima, havia luzes. A festa não tinha terminado e prometia prolongar-se pela noite fora.

Ainda que caísse o céu, estava já na rua. E ninguém o deteria  a venerar Daisy dos seus sonhos, que nem um doente. O luar não fazia mais nada do que criar desejos, nessa noite de babalúa em que a dona subia cheia, inspirando loucos e apaixonados. 

Seguia por caminhos  habituais e é nesses trajectos que encontrava os compinchas. Seriam tantos que a vizinhança não tardaria muito em lançar água, sapatos e outros objectos para a sua dispersão.

Porém esta noite, algo de diferente sentiu. Onde estão eles?

Nem um único indício da sua presença habitual. A rua estava deserta e ele caminhava sózinho e pela primeira vez sentiu um calafrio.

“Não me digam que já estão com a Daisy. Safados. Só podia ser!” O galante Pompim do muro do Palácio, o esfomeado Puchini do capelão italiano e o arguto Giga-Magica da loja de aluar, estes não deixariam as oportunidades passar.

“Sacanas, isto não vale, é jogo sujo”- falava para os seus pés.

À medida que pensamentos de revolta cresciam, mais impaciente ele se revelava. Mas algo estranho acontecia. Chico-Bucha, o mais pesado que preferiria estar à chuva a correr, também não estava.

“Psssssssttt” alguém interrompera os seus pensamentos. “Para aqui, já!” Era o Seco-Mirado, o solitário esquelético do bairro, com quem ninguém queria coisa alguma.

Encolheu os ombros. “Mas, o que se passa?”

“Cala-te e vem já para aqui”

“Que é dos outros?”

Seco-Mirado não vai de modas, sai do seu esconderijo e empurra-o para o abrigo. Nunca de motu proprio  fez algo semelhante, mas o instinto de salvar alguém marcou o timbre.

“Explica-me o que se está a passar!”

“Estão todos presos. Não na cadeia, mas presos nas grades. Pegaram-nos um a um e estão num grande armário metálico por trás da casa da loja do aluar.

“E o Giga?”

“O Giga coitado tentou reagir. Resistiu como um valentão. Mas a força do gigante é imensa, pegou-o pelo pescoço e quase o esganou. Meteu-o na jaula, já inconsciente.”

“E… viste a Daisy?”

Seco pausou. “Ohh… a miss…! Meteu-a numa outra jaula com as suas amiguinhas. 

“E tu? Como conseguiste safar-te?”

“Achas que alguém se dará ao trabalho de me fazer mal?”, ripostou com sarcasmo. “Mesmo assim, tive que me esconder.” 

“Por que razão haveria alguém de fazer uma coisa destas? Só a polícia pode fazer isso, não?”

“Sei lá, acho que tem a ver com o chinfrim que vocês têm feito nestes últimos tempos. Há muita gente nova a morar aqui e nem todos acham piada aos vossos urros e uivos pela noite fora. E agora que se juntam também as gajas, tás a ver a festa! Bom, portanto já sabes, é melhor pirares-te daqui.”

“Seco, leva-me até onde se encontram. Eles precisam de mim.”

Seco interrompeu a sua marcha e esboçou um sorriso cáustico.

“Jafa, aquela catrefada de brilhantes não precisa de ninguém, precisa é de ser queimada viva. Sempre se julgaram senhores do bairro, punham e dispunham de todos que não gramavam”.

Jafarel arrepiou-se com o tom recalcado que vinha daquela boca. 

“Via-te com eles e isso só me metia dó” continuou Seco. “Mais, um pateta que se junta a uma cambada de inúteis, falava disso para as minhas unhas, sempre que te via cegamente enfileirado naquela corja de gente.”

“Então porque me estás a avisar do perigo?” – retorquiu Jafarel, impaciente com a conversa que só lhe estava a roubar tempo.

“Porque apesar desse ar de camafeu que queres ter, és uma pessoa de bem. Por várias vezes evitaste que eu levasse um enxerto de porrada. Seco-Mirado não se esquece dos que lhe querem bem”. 

Ocorreu-lhe a imagem de Seco com a face enlameada e os olhos arrancados de horror ao tentar flutuar numa poça de dejecto, tragando goles de impureza, enquanto todos se gargalhavam à custa desse espectáculo deprimente de luta pela vida. Soube-se que ele ficara muito doente com intoxicação e só por sorte não virou cadáver.

“Por favor, diz-me onde eles estão. Viste a Daisy, como ela está?”

“Hi hi” contorcia-se Seco de gozo. “Ah… Já percebi. Querias lá saber deles! Pretendes é saber onde está a Daisy!… ahaha… Podias ter-me poupado este discurso todo…”

“Seco!” – sentiu que a sua voz rasgava o silêncio que era preciso manter  e ambos se retraíram. Segundos depois, certificando-se que não houve consequências de maior voltou a inquirir. “Vais me dizer?”

Seco ficou sério. Os seus olhos apontaram para a direcção onde todos foram parar.  Meneou a cabeça com pena.

“A partir daqui, dou a língua às minhas mãos e estamos quites. Não te devo mais nada.” Desapareceu num ápice.

Jafarel seguiu a direcção indicada. Cautelosamente como lince à espreita da sua presa, introduziu-se na pequena mata que havia ali formada de muita vegetação e arbusto. A Lua subia e iluminava o caminho que doutro modo seria negro como breu.

O seu passo abrandava, à medida que avançava pela ramada que se adensava. Era leve e silencioso, que até permitia ouvir o cântico dos grilos e de outros bichos que pela mesma razão eram chamados pelo luar.

Por fim deu com o ruído abafado no fundo do mesmo caminho.

“Jafa… ! Qui!”

Mesmo sem conseguir enxergar, reconheceu a voz de Puchini. A escuridão nunca lhe fora um estorvo, todavia havia algo que lhe impedia uma melhor visibilidade. Adiantou mais uns passos.

“Tá quieto, puto” advertiu Pompim. “À tua frente está uma rede armada. Se avançares mais ficas lixado como nós!”

Jafarel, manteve-se imóvel por um instante e suavemente aproximou-se da rede. Era fina mas rija e cobria uma superfície várias vezes o seu tamanho. Não admirava que qualquer incauto cairia na malha. Olhou à sua volta e reparou que a mesma estava presa em ambos os lados a arbustos, aparentemente,  frágeis. Por fim localizou a jaula colocada por cima de um plano rochoso, a uma considerável altura.

 “Estão bem?!” procurou saber, ao mesmo tempo estudando a forma de contornar a rede.

“Não podemos mexer. O Giga está ferido. Levou com o pau nas ventas e está ainda a sonhar …”

“Vamos morrer todos!” choramingou Chico Bucha.

“Pôfa, Chico, mete o teu focinho noutro lado ou ficas sem ele!” vociferou Pompim.  

“Estávamos todos à esquina dos Salesianos, à espera do Giga, quando ouvimos o seu grito. Apressámos o passo e num instante estávamos aqui. Vimo-lo inconsciente deitado ali no chão. Ficámos preocupados pois ele não se mexia. Seguidamente veio o som dum petardo e depois outro. Assustámo-nos e corremos em direcção oposta e  demo-nos com esta rede. Que cilada!”.

“Mas, faz bastante tempo que a polícia não fazia este trabalho.”

“Pois, cos’altro ci accadrà?!” Puchini meneava a cabeça de desespero.

“Pucho… pára lá com esse patuá de esparguete pode ser??” ripostou Pompim.

“Não sairemos vivos da porrada! Já levaram cinco antes e nós somos a seguir” Chico Bucha já gemia de ansiedade, qual condenado à câmara de gás.

“Temos que sair daqui!” Jafarel sabia que não convencia, mas precisava de dizer algo para pôr o seu raciocínio a funcionar a todo o vapor. “Precisamos de ajuda”.

“É só chegar ao topo desta jaula e puxar a vareta de correr. Já vi abrir coisas assim. Não conseguimos por aqui dentro, tem de ser feito por fora. Ma sei solo…! ” 

Da sombra sai a figura franzina e sombria de Seco-Mirado.

“Seco!”, entusiamou-se Jafarel.

Puchini repara nele põe as mãos à cabeça. “Jafa… Perchè?? A cosa ti serve un eunuco como lui?”

Seco engoliu a humilhação sem pestanejar, mirando impávido  para os seus patrícios no desespero da sua clausura. Era a alcunha que mantinha aberta a ferida no seu ego. Sem saber como lhe aconteceu, dum dia para outro acordou sem os testículos. Sofrera sempre muito com isso.

“Pára Pucho, não fosse ele, estaria eu longe daqui”

“Já nem sinto os meus tomates! Vou morrer sem ver a minha mãe!”, o desalento de Chico Bucha tornava-se contagiante.

“Ahhh…Eu tenho é dores de cabeça. Ai…!” Giga retomava consciência com as mãos à cabeça, “o sacana tem cá uma força! Só me lembro de ter voado contra aquela árvore. Sacrista o gajo!”

“Giga! Acordaste finalmente. Pensámos que patinaste de vez, porra!”, exclamou Pompim ao ver o seu amigo recuperar a alma. 

“E a Daisy? Onde elas estão?” Jafarel não escondia a sua aflição.

“Ahh ma ora capisco perchè… estás cá com aquele eunuco não por nossa causa!” Puchini picou com sarcasmo. “Bastardo. Eu devia tê-la mangiato!”

Antes que Jafarel pudesse responder, sussurrou Seco do alto da árvore “Jafa, por aqui!  Há uma brecha por onde podes introduzir-te, sem problema algum. 

Não leu a razão da sua mudança de ideias, mas naquele momento, Seco era no momento um auxílio irrenunciável. Seguiu as suas instruções, e rapidamente estava no topo da árvore, mesmo em cima da jaula e tinha ultrapassado a rede meticulosamente montada, a qual cairia sobre qualquer coisa que a tocasse.

Podia observar os outros em baixo, lutando com a falta de espaço. Todos olhavam-no atentos, com a esperança de serem libertados. Todavia, Jafarel queria saber de Daisy.

Seco indicou o local, que ficava uns cinco metros do sítio onde todos se encontravam.

Jafarel então moveu-se ao sítio indicado, sob protestos da malta. Não queria saber. A sede por Daisy era a prioridade a satisfazer.

“Jafa… vieste!”

A sua voz de veludo, com tons nasais pronunciados, era simplesmente irresistível. Mesmo naquela situação de aflição ela teve o condão de o entesar. 

“Daisy, estão seguras aqui e por enquanto nada de mal vos acontecerá. Mas, neste momento a malta lá em baixo precisa mais de mim. Volto já, prometo.”

Não esperava que Jafarel a relegasse para o segundo plano, mas nem por isso ficou aborrecida. Isso mostrava personalidade que curiosamente ela apreciava muito num macho.

Jafarel de volta pousou sobre o topo da jaula estudando a maneira de abrir a jaula, pelo topo. 

“Despacha-te Jafa…não tarda muito voltarem”

“Estou a pensar, estou a pensar…”

“Não penses tanto. O amor não está lá em baixo!” O sarcasmo de Seco não se fez esperar.

Jafarel, reparou que uma trava de bambu fechava a portinhola no topo da jaula, o qual por sua vez era ligeiramente convexa, o que tornava difícil deslizar o bambu, quer para diante, quer para trás. Para se soltar, era mister pressionar-se essa parte para baixo.

“Isto está impossível”.

“Estás a perder tempo!”, Seco avisava.

“Jafa não queres saber de nós?”, gritava Daisy do outro lado, acompanhada dos sussurros das amigas.

“Pompim, Chico e Pucho, preciso do vosso peso para que essa portinhola se abaixe. Temos de fazer ao mesmo tempo. Vou contar, e à terceira empoleirem-se na grade enquanto que eu salto por cima e vamos ver se conseguirei soltar a trava.”

Todos acharam estúpida a ideia, mas não lhes custava nada tentar.  Sem perder mais tempo Jafarel contou:

“Um, dois e … três!” nada. 

“Um, dois e…três!”, em vão. 

“Um dois e … três!”, grito de suspiro.

Já lá ia a décima quinta vez que Jafarel pulava sobre o local em questão, sincronizando-se com os três feitos macacos, sem que concretizar o seu desiderato. No desespero – até porque Daisy já estava a reclamar da falta de atenção – contou pela última vez…

“Um, dois, três…que sa f………” com todo o seu peso caiu sobre a jaula. Desta vez, também Seco emprestou o quanto valia de peso a sua esquelética carcaça, atirando-se também sobre ela. A violência do embate causou um balanço da jaula para a frente. Todos gritaram quando a jaula rolou para a frente e tombou. Pompim estava debaixo de Puchini que acabou de levar uma bofetada despropositada de Giga. Chico-Bucha enviesado desequilibrou de tontura indo por cima de todos. Grande gritaria.

No entanto a jaula abriu-se, para o espanto de todos. Um a um saíram, mas tiveram dificuldade em libertarem o obeso Chico, admirando de seguida como ele foi lá metido.

Num ápice desapareceram todos. Jafarel retornou ao sítio donde saltara, para depois ir ter com a Daisy. No entanto ouviu passos de alguém a chegar. Escondeu-se sem no entanto assinalar Daisy e amigas para se manterem em silêncio.

O homem foi rente à jaula onde supostamente a malta estava. Jafarel aproveitou-se para tentar o mesmo que fizera antes, derrubando a da Daisy. Não conseguiu, pois o homem descobrindo que os “bandidos”se tinham libertado voltou para verificar se a outra ainda se encontrava intacta.

Estava visivelmente furioso. Abriu a jaula e pegou em Daisy bruscamente. E ela gritava. Jafarel tremia de medo, mas não podia ficar impávido e sereno perante a situação. Tinha razões para temer. Perante um gigante havia pouca margem para mais arrojo. Daisy não parava de gritar de pânico, nem ele tinha outra solução que enfrentar o gigante. E mostrou-se.

“Com que então seu camafeu, soltaste os teus compinchas e agora voltaste para proteger a donzela, hein?”

Jafarel engoliu seco e não respondeu.

“Muito bem e que tal assistir a pequena ficar sem ar?” começou a apertar a garganta da Daisy que esperneava de pavor. “Que espectáculo, né. É esperar mais um pouco e ver como gente da vossa laia deve acabar” E virou-se para a apavorada Daisy e apertou ainda mais.

O que não esperava foi dar com a cara de Jafarel ao voltar a mirá-lo. Este esmurrou, mordeu, arranhou, fez uso de tudo ao seu dispor para salvar a donzela das garras deste gigante. Um dos golpes atingiu mesmo a cara do homem, ferindo-lhe um dos olhos. Por sorte não lhe afectou a visão mas foi o suficiente para soltar Daisy. As suas amigas aproveitando-se da situação saíram espavoridas da jaula.

Jafarel apressou Daisy para o único atalho que no momento atentou, para darem depois com uma betesga, quando o homem já recomposto voltou à carga.

“Mas  estás a brincar com quem?!”, avança com um pau enorme, pronto para desancar. 

Jafarel olha para Daisy e assegurou-lhe. “Ninguém te fará mal! Juro!” e cobre a donzela com o seu corpo esguio esperando a pancada que se seguiria.

No momento em que o homem levantava o seu braço para a paulada, Pompim, Giga e Puchini, lançaram-se sobre ele. A força dele era imensa e pegou em Puchini e lançou-o a metros de distância. Havia que se livrar dos outros dois que não o largavam. Mas os três não cessavam a sova que infligia ao monstro. Atacavam-no com uma ferocidade invulgar.

“Jafa… pisga-te agora!”, era a voz de comando Pompim, antes de voltar à carga do desgraçado.

Jafarel encheu-se de orgulho. De mero atalaia do grupo, passara a ser membro de pleno direito, merecendo a solidariedade dos outros, sem necessitar de mais provas de bravura. Demonstrara o bastante e ganhara estatuto.

Tinha de colocar a Daisy em local mais seguro. Mas, fugir não estava nos seus planos. O ímpeto da noite inspirava-lhe mais arrojo, mais determinação na afirmação da sua singularidade que todo o bravo mereceria.

“Ficas aqui. Vou ver onde estão as tuas amigas.”

Os três companheiros de luta gritavam de fúria, mas o gigante parecia invencível. Por fim conseguiu desenvencilhar-se de dois e pegou novamente em Puchini pronto para lhe virar a cabeça.

Jafarel gritou:

“Seco!! “

Nem fora necessário. O eunuco já se tinha lançado do alto da árvore sobre o gigante no momento do brado, desferindo-lhe mais golpes no pescoço. Decididamente queria também ser gente e era essa a oportunidade. O monstro, atordoado, tapou a zona afectada, libertando involuntariamente o italiano. E quando recuperou a atenção, vira dois cristalinos mirones de pupilas dilatas, de alguém que se arremessara para a sua cara, com argumentos para disputar o momento. E sucessivamente, recebe uma, duas e três naifadas executadas com precisão. Era o mesmo sujeito que teria feito o mesmo momentos atrás, mas que agora, como que tivesse detectado o seu ponto fraco, repetia a façanha com melhor destreza, mais certeira, mais letal. O gigante recuou e perdeu balanço, tocou na rede que caiu sobre ele.  

Desta vez o odor a sangue fez-se sentir nas narinas de todos. Jafarel arfava, com adrenalina à tona, estava pronto para a nova investida. E assistiu o mastodonte confuso, indo de encontro ora de uma árvore, ora de uma rocha, procurando sofregamente recuperar o seu tino e voltar para a luta.

Pompim, Puchini e Giga-Magica não escondiam o embaraço e surpresa que Seco lhes causara. Mas, a admiração pelo puto que se tornara adulto, marcou para sempre nessa noite de babalúa. Todos estavam prontos para o momento derradeiro, quando o monstro deu um urro de sofrimento, saindo do recinto com cara tapada, visivelmente derrotado.

Gritos de alegria ouviram-se no bairro, que até provocaram o latir de cães. Mas, foi por muito pouco, por deliberação dos três. 

“Temos o herói da noite. Merece o silêncio e discrição”, todos desviaram o seu olhar para um mesmo ponto e sorriram com manifesta cumplicidade.

“Obrigado malta, mas bravura temos todos, cada um no seu papel”. 

“Todos menos eu…” ouvia-se do escuro em tom mais baixo.

“Chico, pô… és um de nós!” consolava-o, Giga.

“Eu sei, mas gostaria de ter feito melhor”

“Estamos juntos, Chico”, Jafarel assegurou-lhe afagando-lhe o ombro.

“Ok turma, vamos deixar o nosso campeão jantar em paz!” –  risos de ironia.

“Jafa, aceito restos! Estou com tanta fome!”, Chico rematou, o que provocou mais risada. 

“Vamos todos … Pucho?”, interrogava Pompim.

Aspetta… ainda falta um” – todos viraram-se para Puchini, quando este chama para o escuro. “Seco?”

Não se ouviu som algum, mas sabiam que ele aí estava a observar e a escutar, como sempre fazia em todas as ocasiões da confusão.

“Estamos à tua espera, Seco … tempo di mangiare”.

 A folhagem então produziu som de movimento. Era intenso o seu olhar em Puchini. Não pestanejava porque sabia que também provara ter sido alguém nessa noite.

Graze!” 

Havia muito tempo que não sorria de coração, Seco olhou para a Lua e sussurou-lhe algo. Crê-se que, à sua maneira, agradeceu-lhe também.

Jafarel suspirava de alívio, ainda mal alcançando o real significado dessa noite para ele. Mas soube bem ter feito algo  com a malta. Soube ainda melhor ter sido o seu esforço reconhecido. Era altura de desfruir o seu momento.  

Daisy estava deitada no canto resguardado da vegetação. Sorriu quando Jafarel se aproximara.

“És o meu herói”. A cabeça dela roçou no seu pescoço. 

Lutou por esta noite, por este resultado, mas não acreditava que tinha o seu precioso troféu entre as mãos. E agora? Estremeceu de súbito ante esse pensamento. Ela aí estava toda para ele, derretida nos seus braços, à mercê da sua vontade, rendida à sua bravura. O que um herói faria de seguida? 

Hirto, Jafarel tremia por recear que qualquer movimento pudesse estragar a noite, que sabia ser dele. Deveria beijá-la já, por a mão no seu ombro? Encostar o seu nariz à sua face? Não podia ser assim, ele não fora educado para ser rude, um reles do bairro, ele era da família de gente boa, educada, com maneiras. As meninas são preciosidades que os meninos deveriam aprender a respeitar, há regras para tudo e até para o namoro. E …

“Jafa… estás à espera de quê?” ria-se dele que ainda cogitava a melhor forma de se aproximar dela. Por fim, não encontrava a solução com aquilo que aprendera. A memória não dava para tudo, e era impotente numa situação de emergência. Mas aprendera também do velho Leôncio dos lados do Seminário: “Quem está à rasca, ou vai ou racha!”

Virou-se para Daisy que ainda o mirava com olhos de pupilas dilatadas, e não foi de modas. Saltou por cima dela e antes que ela pudesse recuperar-se da surpresa, prendeu-a por baixo de si e ajeitou-se instintivamente.  Ela não mais podia mexer. Vulnerável ela exibia o seu corpo em total rendição, sem vontade alguma de se proteger. Ela queria o seu herói, que arriscou a sua vida e lutou por ela conquistou o direito de a possuir. Jafarel correspondeu. Num golpe penetrou-a. E há muito que o Lilau não ouvia tamanho uivo.

Por fim, feliz ela virou-se para ele, sorriu perante um Jafarel de olhos bem cerrados, tremelicando de espasmo. Sabia que o tinha também conquistado. O novo herói do bairro, o eleito para ser o pai da sua prole. Sentiu-o beijando-o e lambendo o seu esguio pescoço, enquanto ele se recusava a sair dela. 

“Vou-te ver de novo, amor?Sempre, a toda a hora, coladinho a mim? Não te quererei longe.”

“Mas tenho casa para voltar e…”

“Eu também, mas onde estou há lugar para ti e … para os nossos. Ai faremos tantos.”

“Daisy… falas a sério?”

“Nunca fui tão séria. Vi muito e muitos. Sem saber, andei à tua espera há muito tempo e chegaste. Não te largarei, nunca mais. Sou tua.”

Ele mirava-a seriamente. “E tu és meu!” acrescentou. Jafarel não sabia o que dizer ante a mulher do sonho de todos, que aí estava diante de si rendida à sua vontade. Porque algo arrepiante atravessou o seu esguio dorsal. Não vislumbrava o quê, mas algo inquietante o espreitava. Esta noite provou a sua valentia, já não era o moço do bairro como no dia anterior, deixara de ser o aprendiz que bebia sem fim os ensinamentos dos mais velhos. Ele virou gente com fibra e os seus pés pisavam solo próprio, sem condescendência de ninguém. Esta noite conquistara a dama do bairro que aí estava a seu belo prazer. Os tempos de limitação terminaram e agora os horizontes vão para além do que todos os dias podia pela sua janela. Janela essa que também se lhe abria agora para outras aventuras que jamais teria imaginado para si. Não podia, nem queria voltar para trás. Descobriu a sua natureza em toda a sua plenitude, um ser livre que só a morte pararia o seu ímpeto.

“Vou para a minha casa.”

“Então vou contigo”, ela espantou-se com a falta de reacção de Jafarel. “Já percebi, fui uma conquista e agora já sou passado. Porque todos são assim?!”

“Daisy” hesitava a prosseguir ante o anúncio de um pranto. “Não faço parte destes “todos”. Apenas despertei para um novo mundo onde tanto me espera ver. Eu quero vê-lo com olhos de ver, sem amarras”. 

“Não podes ver esse mundo comigo?”

“Daisy… peço que me perdoes, não nasci para ser egoísta, mas neste caminho tenho de andar e tropeçar por mim. Entendes?”

“Mas somos um do outro!”

“Tu és tua, Daisy e … eu sou meu”.

Ninguém deu conta de que entrara em casa, por onde saira.  D. Gertrudes lavava os pratos, despejava o resto de comida no caixote de lixo. O jantar foi rico e pesado como de costume, regado a vinho do melhor. Capela, mínchi, galinha chau-chau parida a rematar com um arroz-doce e baba de camelo.

– Isto vai ser uma jantarada para a malta! – Falava alto para os seus botões, ao arrumar cozinha referindo-se satisfeita de ter mais uma vez recebido bem. Era motivo de orgulho, a fartura de comida e o receber bem. Não se importava com o que se desperdiçava, o que interessava era que todos voltassem para as suas casas a lembrarem-se dos bons jantares da D. Gertrudes.

Cantarolava satisfeita que ele passou pela cozinha.

– Olha, onde andaste metido meu maroto? Agora deu-te numa de andares às escondidas? Ai… Como cresceste! – Sorriu docilmente e fez-lhe a festinha na sua cabeça, indo de seguida para a sala de estar. Passou pelo gira-discos e pôs a agulha a deslizar sobre o vinil sonoro. Sentou-se no sofá e a voz de Bobby Vinton entoou “Blue Velvet”.

Subiu ao regaço da D. Gertrudes. As suas mãos macias de mãe deslizaram suavemente no seu macio pelo castanho dourado. As suas orelhas em riste captava sons que não compreendia mas que lhe eram tão enternecedores. Até a cauda serpenteva ao som da música.

– Então o menino gosta desta música? Era a música que o Armindo adorava – sorria D. Gertrudes no conforto do seu habitual sofá. As suas mãos passaram pela sua perna e Maxi encolheu-se. 

– Que te aconteceu? Andaste às zaragatas? – brincava. – Ó Maxi!

Era a palavra a que se habituara a ouvir, quando a D. Gertrudes se lhe dirigia, calculou que fosse o nome que essa mamã lhe dera. 

– Não faz mal, mamã vai cuidar de ti.

Como ele adorava estar nesse regaço onde existia um calor inigualável que lhe aquecia a alma e lhe dava a certeza de segurança. Mas, essa noite ele deixou de ser o menino de olhos felinos da D. Gertrudes. 

A campainha tocou. Era o Boaventura, zelador da Câmara do Leal Senado, uma figura austera de cerca de dois metros de altura que, nas horas vagas e para proveito próprio, fazia biscates para os moradores do bairro. A sua arte consistia em afugentar a bicharada selvagem que pululava pela vizinhança. Cães rafeiros, gatos vadios, ratos, cobras e lagartos, nada escapava à sua mão exímia. Os seus favores eram muito apreciados, especialmente em noites de lua cheia, em que, segundo se contava, até os loucos ficavam mais silenciosos, tal a lenda que o Boaventura criara. 

– Boa noite, D. Gertrudes. Foi só para lhe dizer que vou para casa e é tudo por esta noite. Acho que não vai haver barulho, corri com eles todos.

– Muito obrigada Boaventura, você é tão trabalhador. Venha, vou-lhe oferecer uma cerveja… Olhe, quer jantar? Posso aquecer a comida. Tenho mínchi e…

– Agradeço imenso, mas estou cansado. É melhor ir para casa.

Boaventura era pessoa de poucas falas e um frio executor de tarefas que lhe eram incumbidas. D. Gertrudes reparou que ele arqueava e depois de o observar melhor, viu um arranhão enorme que lhe atravessava a face já de si rugosa e outras escoriações pelo pescoço, orelhas, no antebraço direito, vestígios inequívocos de luta séria.

– Abrenúncio, você está ferido! Nossa Senhora, deve ter lutado com um tigre!

– Era um bicho enorme com umas garras como nunca tinha visto. Safado o bicho, atirou-se a mim como se eu lhe tivesse roubado a dama!

A pintura que na mente da D. Gertrudes se formava era a de uma pantera em transformação num leão esfomeado, ante os pormenores que o arranhado zelador alimentava.

– Coitado. Espero que tenha corrido com ele – abriu a sua bolsa e retirou de lá umas notas, dinheiro da sua contribuição. 

– Dei-lhe uma sova grande, pode ter a certeza. Nem passe pela sua cabeça voltar, que logo o reconhecerei e assarei vivo!

Maxi contorcia-se, o seu pêlo eriçava-se.

– Credo, Maxi –  apertava-o com ternura.  

– Ó pequerrucho, tá quieto, não é contigo! – zombava Boaventura, enquanto sorvia o copo de água fresca.

– Você é uma jóia de pessoa, Boaventura. A sua esposa deve ser muito orgulhosa de si. 

– Sou um homem feliz ao serviço de todos!

Boaventura ria-se de orgulho, que sabia ser aparente nessa noite. Quanto mais se gabava, mais quilos ganhava a sua consciência, sobretudo, ante o olhar discreto mas penetrante do franzino Maxi ao colo da D. Gertrudes. 

O sino de S. Lourenço repicava horas, quando já na rua, contava o dinheiro que recebera nessa noite. Parou e levantou a cabeça. Quanto mais atentava para a Lua, mais esta contundia a ferida no olho. 

Lembrou-se então de Maxi. Ia jurar que já o vira algures. Mas, depois meneou a cabeça. 

– Nah, coisa mais parva, essa! 

Até porque nunca compreenderia que pudesse usar o nome Jafarel.

(1) Zona antiga dentro do bairro de S. Lourenço, onde se dizia existir uma fonte cuja água faria o seu bebedor retornar a Macau.

(2) Guloseima chinês, confeccionado com arroz glutinoso, com carne seca e ovo salmoirado, embrulhado em folha de lótus e servida por alturas da festa de Duanwu (端午節), no quinto dia do quinto mês lunar do calendário chinês.

(3) Lua cheia, em crioulo macaense.

(4) Poema do autor. “Lua cheia, lua cheia/ luz do meu coração/ sempre que estejas cá fora/ não terei mais preocupação.

Macau, 25 de Outubro de 2019, Sexta Feira.

@Miguel de Senna Fernandes

UM CONTO DE CAPA VERMELHA

A BRISA descia suavemente pelo vale trazendo a fragrância do pinhal e da flora conífera, naquela manhã de Outono. O odor a terra e do folhado ainda por secar do orvalho da noite passada, bem presente nessa manhã de tempo fresco e seco. Em casa, Alba preparava-se para a caminhada.

Já não fazia isso havia três anos, por se ter decidido ser melhor para os cuidados de que necessitava. Não é fácil para quem tenha nascido com pigmentação cutânea praticamente inexistente, com as deficiências conexas. As alergias, o estrabismo, as câimbras abdominais carecem de cuidados constantes, que uma vida isolada no campo ou floresta não proporciona.  Mal grado, se a cidade potencialmente tem tudo, falta-lhe o natural, que os jardins públicos, os canteiros e floreiras das varandas não substituem.

albina5Deu-se mal.

Até porque era diferente de outras crianças, que ao menos … tinham cor. Uma vez perguntara a mãe porque ela se chamava Alba. Fazendo festinhas na sua testa, respondeu-lhe “porque caíste numa tina de leite e te transformaste na menina branquinha de caracóis louros mais linda deste mundo que amo tanto”. Sempre achou pateta essa explicação, mas vinha de sua mãe que lhe derretia o coração, que imaginava gélido como a sua pele sugeria. Foram, não obstante, três anos depressivos e não havia outro modo que apanhar o comboio rumando à casa. As alergias do campo, passaram a ser um problema secundário. Preferia tê-las a estar no burgo, onde domina o artificial. Fez treze anos e decidiu que tinha de voltar. Ao seu verdadeiro lar.

Precisava de ar fresco, de correr pelo vale, rolar-se pela grama do jardim natural, mesmo à porta da sua casa. Precisava de encher os seus pulmões, absorvendo tudo o que a natureza lhe pudesse proporcionar cada vez que inalava o perfume que a aragem outonal lhe trazia.

Retomaria nesse dia o hábito de visitar a sua avó, que morava no lado oeste da sua casa e que se recusava terminantemente a deixar a sua vida solitária, numa altura em que já levava sobre os ombros setenta e tantos anos. Para Alba, ainda bem que fosse assim. As suas visitas não eram mais do que um pretexto para percorrer a floresta. Preparou com esmero tudo o que era necessário levar. Cantil, saco para os primeiros socorros, cremes para alergias, repelente e alguns artigos de caça, como a sua fisga e seixos.

A temperatura ameaçava baixar. A mãe aconselhou-a a agasalhar-se, não fosse o vento piorar a tosse, que já trazia da cidade.

– Que é da minha capa? – Perguntou à mãe que de início não entendia – Aquela cinzento-esverdeada.

– Ah, despachei-a há dias. Estava muito gasta e cresceste. Mas, comprei-te outra, vais adorar!

Alba ficou chocada quando a viu. Era de vermelho vivo.

– Ó mãe, o que foste fazer! – Protestou.

– Mas, esta cor é lindíssima!

– O que vou fazer feita uma arara numa floresta como a nossa?!

Não havia escolha, porém. Ou envergaria a capa ou seria indefinidamente adiada a caminhada. Num gesto brusco de revolta, enfiou a repugnante vestimenta, seguindo-se a mochila, zarpou da casa sem qualquer despedida.

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Conhecia a folhagem, o perfume da caruma, a gradação dos verdes, dos castanhos que se alaranjavam primeiro nessa altura do ano. Escutava o murmurejar da floresta ao sabor dos ventos, maravilhava-se com a miríade de cores que a luz do sol criava ao penetrar por entre as árvores. Conhecia a toca dos pequenos esquilos e de outros roedores que saltitavam pelos troncos e ramos, os coelhos do bosque e as lebres, reconhecia as nuances do caminho pelo coaxar dos sapos, o grasnar das aves do rio, chegaria perto do daquele troço com água corrente com o crocitar dos corvos. Sabia dos caracóis, dos lagartos e centopeias. Dos melros e rouxinóis que mudariam de melodia consoante o temperamento do céu. Céu este ostentando-se azul, palco do majestoso vôo das águias, falcões e outras aves de rapina.

No temporal, ela transformar-se-ia numa gigante caixa percussão, com a batida das gotas de chuva, fazendo-se acompanhar do ribombo da trovoada, e de mais outros sons dos animais saudando a água que lhes é benta.

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A noite era para outros inquilinos, que se manifestavam sob a forma de pios, arrulhos, zumbidos, sibilos, ora prolongados, ora ritmados, e de outros sons que a escuridão tornava mais audíveis, melopeia que acompanharia o cricrilar dos grilos e a dança dos pirilampos, sob os auspícios das estrelas ou da Lua, que regularmente prendava com uma visita casamenteira.

A floresta viu-a crescer. Sorriu-lhe desde o dia do seu primeiro piquenique com a mãe junto ao rio, quando deu os primeiros passos, despertando a curiosidade dos pequenos peluches. Nesse dia o canto da passarada ouviu-se como uma sinfonia, donde se surpreendiam camadas de chilreio, cada uma com o seu motivo e ritmo, mas todas fazendo parte de um todo harmónico, talvez pelo vislumbre por aquela criatura humana tão frágil, tão à mercê de tudo à sua volta, tão branquinha a que a floresta se iria habituar.

Não poucas vezes, as árvores escutaram os seus lamentos, pensamentos em alto, os seus desejos, conversaram com ela nos seus sonhos. A sua condição de ser diferente do próximo aproximou-a do seu meio. Aí todos os animais eram diferentes e ninguém se importaria com a diversidade que a natureza para cada um determinou.

Todos pareciam entendê-la, pela linguagem que ela emanava, ao passar suavemente por eles. Criava nomes para alguns que encontrava, inspirados das fábulas e contos mágicos que devorava avidamente. Havia então a aranha Myriam, a gazela Mahalia, o cágado Kapo, os irmãos texugos Saxo e Phonix, e tantos outros que lhe eram especiais. Visitava-os constantemente no seu meio, falava-lhes. Desde novinha sabia que deitada no chão eles se aproximariam, talvez porque assim a considerariam à sua altura. Eles eram o seu próximo, algo que sentido algum faria na vida da cidade.

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A floresta foi a sua escola, onde aprendeu a subir pelas árvores, proteger-se das intempéries do tempo, a fabricar utensílios de defesa, lançar dardos, fazer uso das rochas para fins mais diversos. Compreendeu tão simplesmente que a vida era para se manter até o último reduto das nossas forças. Quem isso menosprezasse não contaria jamais para  a Natureza. Deixaria pura e simplesmente de existir.

Contudo algo mudou, não viu mais ninguém conhecido. Não ficou triste, todos eles têm o seu tempo de vida, é natural, pensou. Mas, havia sons diferentes. Eram de tensão, de desespero, gritos de fuga. Ouviam-se também os estampidos que vinham do outro lado rio, mas ecoavam pela floresta adentro, algo pouco frequente nos outros tempos. O quê teria causado estes estouros repetidos? Reflectia a menina alva de capa vermelha pelo mundo verde à sua volta.

Por entre a ramagem densa do bosque, duas pupilas amarelo-esverdeadas fixavam-na, estudando a sua compleição física, a sua agilidade e conhecimento do terreno, registando todos os seus movimentos, seguindo o seu trajecto. Alba tinha razões para se irritar com o escarlate da sua capa. Wolf-Stare

Kika não arfava, pelo contrário reduziu a intensidade da sua respiração, retesou os seus músculos, prontificando-se, ora para dar o salto sobre o seu alvo, ora para se escapulir em caso de necessidade extrema. Calculava a energia para um ataque bem sucedido. Não seria fácil estando só, longe da sua alcateia. Ademais, estava ferida, consequências de uma derrota na disputa por uma carcaça de um pequeno javali.

Não comia havia cinco dias e uma das suas quatro crias morreu e levado por um milhafre para alimentar os seus. A caça popular e desenfreada a certos animais do outro lado de vale, provocou uma procissão de atiradores e a subsequente a maciça imigração dos lobos, os quais já começavam a ameaçar a zona outrora pacífica para onde se dirigia Alba.

Kika seguia a menina com a mestria que a natureza lhe dera, os seus passos eram pausados, por entre os arbustos, pousando as patas com a instintiva certeza de que não estorvaria o silêncio. A certa altura pausou. Observava atentamente Alba, a qual também pausou para tirar algo da sua mochila. Podia ter atacado nesse momento, mas hesitou. Queria saber que mais a menina tinha para lhe surpreender.

Da mochila saía uma rede de arremesso ladeada de pesos, que ela tinha criado anos atrás para caçar perdizes e codornizes. Ainda se lembrava da técnica que certos pescadores do rio lhe tinham ensinado e que consistia em lançá-la por forma a que os pesos se dispersassem em direcções diferentes, abrindo-a sobre a presa.

E estava uma perdiz ao alcance, debicando os grãos de milho que previamente ela tinha lançado. Posicionou-se com a rede e esperava que a galinácea desse mais uns passos para a frente. Sem saber, fazia o mesmo a que Kika se preparava em relação a si. Sem saber ainda que as pupilas amarelo-esverdeadas focavam no seu pálido pescoço, vulnerável agora que ela se agachara à espera do assalto à perdiz, no perfeito ângulo de assalto.Wolf-Stare02

A adrenalina disparou, enquanto os músculos peludos alimentavam-se de sangue, Kika salivava sem se conter. Bastaria derrubar a menina com todo o seu peso e num golpe maxilar os caninos perfurariam a traqueia. Contraiu os seus membros traseiros que lhe dariam a força para se lançar à menina de vermelho. Respirou fundo e o desfecho viria no segundo seguinte. Foi quando Alba arremessou a rede.

Deu urros de felicidade quando viu a confusa ave a querer, em vão, desenvencilhar-se da rede. Conseguira a prenda para a avó, seria um lindo guisado que prepararia. Segurou na ave, agradeceu-lhe e pediu-lhe perdão. Por fim, para que não sofresse mais, torceu-lhe o pescoço. Enquanto contemplava a sua presa, sentiu então o calafrio. A sua visão lateral abarcava o vulto de um ser possante e algo lhe disse para não reagir já.

Os gritos de sucesso de Alba, soaram a raiva de frustração a Kika. Rangia agora os dentes, tornando-os bem visíveis, as pupilas pareciam assumir o tom alaranjado. Era o tudo ou nada. Ela tinha que investir, apesar da dor que ferida se fazia sentir.

Alba olhou-a de frente, franziu as sobrancelhas de espanto.

– Kika?

A loba pôde ver os seus estrábicos olhos azuis de cristal, a sua pele alva, o loiro encaracolado da menina do bosque, a mesma que tempos já idos a acariciara e a levara de novo para a toca de onde se perdera. Sem ela se aperceber, ganhara o seu nome, porque a menina nomearia tudo por que se apaixonava. Rosnava, não obstante, de dor, de fome, de desespero de uma mãe com petizes para alimentar e ao mesmo tempo em contradição com a memória sobre alguém do passado que dela cuidara. Não obstante, de modo algum sairia do sítio sem algo nos dentes.

– És tu … Kika? Estás com fome?

Instintivamente Alba sabia o que devia fazer. Retirou da rede a perdiz inanimada e colocou-a entre elas duas, e recuou mais um metro. Kika mirava Alba que baixou os olhos, como se tentasse a reconstituir tanto quanto possível essa memória da menina. A suculenta perdiz, porém, foi mais eloquente. Assim, sem perder tempo, avançou e abocanhou a ave, retornando-se à sua posição inicial. No entanto, não saiu do lugar como se esperava. As suas orelhas deixaram de estar em riste e começou a arfar.

Alba fez um movimento de aproximação e Kika manteve-se imóvel.

– És mesmo tu, amiga. Estás tão grande e … estou a ver que já tens filhotes – sorriu.

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Então reparou na ferida. Tirou a capa, arregaçou a manga, desnudando assim o seu braço e, lentamente, estendeu-lhe a sua mão nua. Era um gesto de paz que aprendera a usar. No momento certo acariciou a cabeça peluda da loba, começando por dedilhar o pêlo farto do seu crânio, passando pela orelha. Por fim pousou a sua palma sobre a nuca ao mesmo tempo que Kika baixava completamente as orelhas. A loba ganiu de amuo, mas de afecto também.

– Vai doer um pouco, mas ficarás bem.

Esganiçou quando sentiu o desinfectante a derramar-se sobre a ferida. Rangia os dentes, mas não reagiu contra menina. Sabia que ela estava aí mais uma vez por ela e que mais uma vez ela se curaria. Alba tirou gaze da sua bolsa de socorros e enrolou-a à volta da sua perna traseira magoada. E afagou-lhe a cabeça e o focinho quando deu por fim o curativo.

– O que vieste cá fazer? – Aproximou-se do nariz da loba e deu-lhe uma lambidela, ao que esta retribuiu do mesmo jeito.

Ao longe ouviu-se mais um estampido de caçadeira, seguindo-se o uivo longo e melancólico. Desviou o seu olhar, levantou-se e tentou, em vão, localizar a sua proveniência. Quando retomou a atenção, Kika tinha já desaparecido.

Alba ficou feliz por este reencontro fortuito e pensou no que teria sido de Zorka, um lobo macho que também encontrara quando pequeno.

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No outro lado do vale, eram mais de duzentos, num tempo em que gerações de lobos se estabeleceram e procriaram. A fauna era abundante que daria a todos um espaço para a sua vida, num micro-clima onde as condições eram favoráveis a um modo relativamente sedentário de se estar, não obstante à migração sazonal das espécies. Era o local onde ninguém iria, uma espécie de santuário destes cães de uma inteligência especial, altamente organizados, letais quando o instinto obriga.

Tudo mudou quando se deu a conhecer que aquela parte do vale, o clima produziu animais com características naturais especiais, cuja carne seria bem mais benéfica para a saúde do homem do que qualquer coisa adquirida nos supermercados ou nos talhos da vila. Rumores ou meros golpes publicitários, o certo é que se gerou uma curiosidade doentia que passou a enriquecer lojas de venda de artigos de caça. Toda a gente passou a arvorar-se em ter estado nessa parte do vale. Fotografias da caçada passaram a exibir-se nas redes sociais, alimentando ainda mais o apetite, já aguçado pela inveja que se causava em uns e outros.

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Começaram a escassear coelhos, lebres, animais de maior porte como gamos, javalis, cujas cabeças acabaram embalsamados, para abrilhantarem paredes de muitas casas como troféus. Nalgumas lojas da vila começou-se a comercializar peles de linces, que diziam ser do vale, numa afirmação de orgulho pelos produtos naturais da localidade.

A procura do alimento causou rivalidades na alcateia. Vários machos emergiram com potencialidade de liderarem e luta pela liderança, instalou-se a disputa e ela tornou-se sangrenta. A fome não simpatizava nenhuma das facções, antes arrasou tudo e o vale registou mortandade entre os lobos. A fome empurrou vários para o fratricídio e canibalismo.

Zorka viu o seu semelhante dilacerado por outros lobos e a sua despedaçada carcaça ser também motivo  de outras lutas. Viu fêmeas e crias a serem o manjar de alguns. Brigou com outros por causa de uma pata de um companheiro de caça.

Mas nada parecido com o que vira de outros animais que andavam empinados. Estes empunhavam algo, do qual saía um som aterrador e que provocava fogo. Foi numa altura em que os lobos resolveram atacar as povoações isoladas, contíguas ao seu território. O corpo desfeito de uma criança foi encontrado numa gruta com marcas evidentes do seu autor. A guerra homo-lupina não tardou a estalar.hunting03

E foi assim que o chefe do seu grupo morreu. Não por luta, pois não envolvia dentes, nem táctica. Não havia contacto físico. O seu chefe vencê-las-ia todas. Porém, desta vez  a sua glória terminou na rede que o tramou na fuga que o grupo um dia fez destes macacos pelados. Instalou-se o cerco, o chefe avançou sobre um dos caçadores, atraindo a atenção dos restantes. Zorka conseguiu, porém, desviar-se e levou o resto do grupo para um local mais seguro. E de longe observou como o chefe gania quando levou com o balázio de várias armas. Não fez barulho nenhum. Os seus olhos irradiavam a frieza de um sobrevivente que fazia questão em se manter vivo. Mirou os seus companheiros e todos entenderam que ninguém faria nada sem um sinal do novo chefe.

Fez-se noite e então Zorka ululou, incitando outros a fazer o mesmo. Era o uivo de luto, mas de desafio também. Os pelados estes sabiam como caçá-los, por isso para sobreviverem teriam que ser mais rápidos que eles, mais fortes e organizados. Mais mortíferos. wolf-pack02

Nessa mesma fuga sete lobos seguiram-no e ao longo de meses atacaram casas, levaram cães de guarda, galinhas, coelhos, cabras e mais animais de criação. No dia em que deu pela casa da idosa Adelaide, só lhe restaram dois companheiros, tendo uns sido mortos a tiro, outros capturados nas armadilhas metálicas espalhadas pela floresta.

Zorka e outros dois rondaram a casa por fora, certificando-se de que ninguém estava presente. Um deles subiu ao alpendre, dirigiu-se à porta de madeira. A sua pata pressionou e ela abriu-se, com o silêncio a que se habituara a usar, entrou. Mas não estava só.

– D. Adelaide, não pode viver assim. Perdoe-me a indelicadeza, mas a sua idade requer um cuidado pessoal. Esta casa está isolada e já não é segura.

– Bert, agradeço a tua atenção. Sempre cuidaste de mim depois do meu Lou ter partido. Mas estou bem, graças a  Deus. O vale foi me sempre bom e deu-me tudo o que preciso para viver – sorriu ternamente.

– Andámos a correr com os lobos e não há meio de os dizimar. Eles têm sido bastante aguerridos e arrasam tudo que mexa sobre patas.

Adelaide encolheu os ombros.

– Faríamos o mesmo se nos tirassem o pão, não achas? forest02

– Seja como for, D. Adelaide – suspirou – todo o cuidado é pouco. Eles atacam na calada e estão cada vez mais inteligentes. Lembram-se de muita coisa, o que é espantoso.

– Que mais podem querer com uma velhota como eu? – gargalhou.

– Não brinque. Você é uma das pessoas mais queridas aqui do vale! – Ripostou com um sorriso condescendente – em todo o caso já montei um sistema de alarme. Em caso de necessidade é só carregar no botão e estaremos prontamente aqui.

– Muito bem, Bert. Obrigada pela visita. Descansa que cumprirei à risca o que me recomendou.

– Não é uma recomendação, D. Adelaide. É uma ordem! – O lenhador deu-lhe um beijo na testa e saiu.

Adelaide acompanhou-o à saída e ficou no alpendre até a carrinha desaparecer da sua vista. Porém, antes de regressar para o interior sentiu um calafrio.

wolf-teeth-1Dois lobos estavam atentos, um deles especialmente robusto e pardo, orelhas em riste. Num ápice fecha a porta da sua cozinha e inicia a trancar as janelas, quando o rugido que vinha dentro da sua casa a paralisou. Instintivamente segurou numa faca e virou a sua cara em direcção à origem do som. Não teve tempo para se horrorizar, o animal lançou-se sobre ela e ferrou-lhe no braço com os seus dentes pontiagudos. A dor teria sido lancinante, mas no momento a luta pela sobrevivência falava mais alto, sobretudo quando o predador estava em cima dela, os caninos rasgando a carne do seu membro.

Nunca imaginara que pudesse ver o último momento da sua vida sob uma besta que a devoraria de seguida. O lobo libertou então o seu braço sangrado, abriu a sua boca preparando-se para o golpe final. Adelaide nunca vira dentes tão aguçados e horrendos, nem nunca cheirara o bafo gutural de um animal. Mas decidiu que não seria carne para ninguém, muito menos para lobos. E no momento da última investida do esfomeado animal, Adelaide usou toda a força que tinha e golpeou o pescoço do atacante, repetiu outro na cara do animal que se soltou do corpo da idosa. A adrenalina que lhe restava ainda foi suficiente para desferir um derradeiro golpe que atingira na articulação do seu membro dianteiro, perfurando o coração. O lobo soltou o uivo pela vida que se esvaía naquele instante.

blood knifeAdelaide com custo conseguiu dar uns passos em direcção ao alarme e ouviu o estrondo de quem se tinha introduzido na sua casa. Preferiu esconder-se na despensa, fechando a porta o mais levemente possível. Sentia o coração a bater como que esguichando o sangue pela ferida que se abrira. Contudo, não podia fazer barulho, sobretudo quando escutou passos dentro da sua casa. Fechou os olhos e rezou.

Alba estranhou o silêncio quando entrou em casa da avó, estando as janelas abertas. Caminhou de surdina, para não surpreender fosse o que fosse. Não viu nada de anormal quando passou pelas salas de estar e de jantar, que se mantiveram arrumadas com todos os adornos no sítio, tal era a meticulosidade da D. Adelaide. O mesmo aconteceu no quarto de dormir. Dirigiu-se então para a cozinha e aí viu a porta traseira aberta, uma janela por fechar. Começou por reparar uma desarrumação fora de normal. Havia pratos e talheres no chão, a toalha de mesa fora da mesa, uma cadeira às avessas.

E por fim, sangue. Dedadas a vermelho nas bordas da mesa, no soalho, resquícios de luta, marcas de garra. E num canto, estava um animal peludo prostrado sem vida expelindo uma poça sangue.

– Avó! – Bradou aflita. Avó estás aí??

A porta da despensa abriu-se e Adelaide apressou-se a avisar a neta do perigo. A sua mão sangrava ante o olhar horrorizado da menina. Dirigiram-se imediatamente à porta traseira, mas deram com os dois lobos barrando a saída, mostrando os dentes prontos para se usarem. O odor a sangue atiçou ainda mais a ferocidade dos dois que as cercaram. Adelaide, não obstante o desgaste físico a que se obrigara momentos antes, apertava o cabo do facalhão com mais força, protegendo Alba, enquanto esta sacava do seu bolso a sua fisga. blackwolf

O olhar de Zorka era frio, no entanto lia-se nele a determinação de matar. Guardando a porta, fez sinal. O outro não se fez de rogado e rangeu os dentes, retesou os músculos e avançou. Não compreendeu o que a menina fazia com a fisga direccionada a si. Por isso, não viu, nem pôde ter esperado que um seixo fosse disparado e em menos de um segundo lhe perfurasse um dos olhos. O lobo pulou desorientado pela dor e pela visão ofuscada. Ainda assim não desistiu, os seus maxilares abriram-se em toda a sua extensão, prontos para abocanhar, projectando-se às duas, com um rugido hediondo, quando mais um seixo era catapultado, desta vez directamente para a sua garganta. Desequilibrou indo de encontro com as duas, mas sem as morder. A ferida tornou-lhe impossivel fazer uso da boca  como a Natureza previra para ele. Não uivou, produziu antes um som abafado de agonia, tossindo sofregamente sangue, antes de tombar no chão.

Aproveitou-se do hiato em que Alba se ajoelhou, tentando recuperar a fisga, caída no chão depois do embate anterior, e aproximou-se. Mas, não de frente. Quis ele dar-lhe a conhecer o seu porte, num gesto de intimidação. Moveu-se ante as duas num vai-vem sereno. Em modo frugal mirou os dois companheiros, surpreendentemente arredados da luta, mas sem dar mostras de alguma preocupação. Exibia o seu pêlo farto, escuro, orelhas em riste, peito robusto, a cauda virada para cima. Andava como se risse da situação de desespero das duas peladas que certamente tombarão a seus pés. Andava como um chefe que daria luta até o fim.

Alba sacudia-se de medo, mal imaginando ter tido a coragem de fazer uso da sua arma. Não obstante, estar desarmada pôs-se à dianteira apesar do protesto da avó e olhou frontalmente o lobo pardo.

Este então sentiu que era altura para terminar com tudo, quando cruzaram o olhar. Porém, para surpesa da menina, não agiu logo. albina-eyes

Os seus olhos gélidos fixaram-se nos cristalinos de Alba, como se estivesse a lê-los. A ponta das orelhas tremelicava em contraste com o seu olhar imóvel e Alba teve a sensação de ter ouvido um curto amuo quase inaudível. E imagens começaram a inundar a cabeça do predador. Numa delas aparecia um animal de pele alva, olhos sem pupilas, de cabeça com cor doirada, que lhe dava festinhas no focinho, lhe lambia o nariz. Animal descolorado que brincava com ele e que num dia de temporal o  socorrera quando a chuva fez desabar terra sobre a sua toca.

– Zorka … – balbuciou Alba, sem ter a certeza do que estava a dizer.

Adelaide quase a desfalecer, levantou o braço com o cutelo na sua palma, interrompendo o breve momento de devaneio do lobo, encarrilando-o de novo no seu propósito assassino. Zorka baixou a cabeça ao mesmo nível do seu musculado dorso, apoiado nos seus robustos membros, arqueia as suas patas traseiras. Os músculos faciais contrairam-se, as gengivas visíveis e os caninos brilharam. Como ele salivava.

Alba entendeu, fechou os olhos e esperou pelo rugido final.

O que lhe soou, porém foi um uivo agoniante. Abriu os olhos e deparou com Zorka na acesa luta com outro animal que cravara os seus dentes no glúteo esquerdo e impedia a investida. O lobo pardo rodopiou, servindo-se do comprimento do seu corpo para alcançar o seu adversário. Mas este não era menos ágil e conseguiu evitar ser mordido. Alba aproveitou-se desse instante para soar o alarme e apanhar a sua fisga. Olhou para o intruso e reconheceu.

Kika manifestamente menor em tamanho, travava um duelo fratricida com o seu oponente, que a todo o custo queria livrar-se da dentada na sua carne. Sabendo da voracidade do lobo macho, ela meteu-se no encalço da menina e veio para a proteger. Para Alba, foi a única explicação plausível desse ataque.

Zorka não suportou mais a dor e num momento de frouxidão dos maxilares, afastou a loba com uma patada. Sabia que a loba não daria gratuitamente por findo o duelo, teria que a imobilizar. Seguiu Kika para fora.wolf fight03

Ouviram-se ruídos de contacto físico, correrias, roncos ferozes, bramidos, ora claros, ora ofuscados, próprios dos momentos de luta com boca e dentes. Por fim um lamento longo de suplício, de quem fora atingido mortalmente. Seguiu-se um momento de calmia.

Alba tentou saber o que teria acontecido a Kika, mas Adelaide afastou essa possibilidade e ordenou que saíssem da cozinha por outro lado da casa. Era o que Zorka tinha também previsto. Esperou-as no fundo do corredor que daria acesso à sala de estar. Desta vez não hesitou e avançou com toda a pujança sobre elas. Poupou a avó que seguia à frente e foi rente à menina. Saltou e num ápice estava em cima de Alba, aprisionando-a com todo o seu peso. Alba inalou o forte hálito que vinha das suas entranhas, os dentes pontiagudos com resquícios de sangue, provavelmente da luta com Kika. Sabia o que lhe iria acontecer, um momento que vinha sendo adiado sucessivamente.

O lobo fixou novamente nos olhos vidrados de Alba. Escondeu as gengivas.

– Zorka … lembras-te de mim? – Sussurrou. O lobo não se mexeu, mas contemplava atentamente na menina. Alba não sentiu a agressividade esperada, porém não podia estar certa disso. Emitiu um som gutural agudo, a imitar um ganido. Fazia isto a cães, fez isso nos jogos que anos atrás teve com os dois lobos, rebolando-se pela grama. As pupilas do lobo ganharam cor.

Alba então arriscou. Fitando-o, fez um esforço e levantou a cabeça, ficando a centímetros do seu nariz. E antes que Zorka reagisse a essa acção, lambeu-lhe o focinho. E repetiu o acto, emitindo o mesmo ganido.

O lobo de repente levantou-se libertando Alba do seu peso. Manteve a sua cabeça junto à cara da menina, as orelhas baixaram, a cauda abanava-se lentamente. E lambeu o nariz incolor, a sua lingua subindo para as bochechas, permitiu que Alba afagasse a sua cara, a sua cabeça, sentisse a fartura do pêlo.

– Meu amigo. Lembras-te mesmo de mim, das nossas corridas, escondidas?

wolf kissZorka arfava agora, como um cão ao reencontrar um amigo. Correspondeu com um ganido uivante longo. E repetiu-o como se cantasse um hino de saudade, por alguém que o entendia e que pertencia ao seu mundo. E soltou mais um. E outro.

E ao iniciar o seguinte, ouviu-se um estrondo de caçadeira. Zorka baixou as suas patas traseiras como se sentasse.  Alba confusa, contemplava o lobo sem entender o que lhe teria acontecido. O lobo ganiu pela última vez.

– Não!

Seguiu-se mais um estrépito e bala atingindo-lhe um dos maxilares, perfurando o seu crânio.

– Zorka!! – bradou Alba, manchada de sangue do animal que acabara de a reconhecer. O lobo não teve tempo de fechar os olhos, mas Alba teve a certeza que ele a reteve na sua memória que agora acabava de se apagar.

– Por pouco! – exclamou Bert.

Certificou-se que um lobo estava morto, engatou a sua arma e deu dois tiros na cabeça do segundo que ainda vivia sofregamente.

– Que sorte nossa. Ainda bem que o alarme funcionou. Tu és um anjo, Bert! – Adelaide felicitou o lenhador, dando-lhe um abraço.

– Como lhe disse todo o cuidado é pouco. Este vale já não é o que foi. Agora vamos levá-la para o centro médico, vai ter de ser vacinada contra a raiva.

Aproximou-se de Alba que ainda estava agarrada ao inanimado monstro.

– Menina estás bem? Terás que ir connosco também, para ver se estás em ordem. Tudo acabou, estão ambas livres do lobo mau.

Alba ignorou o lenhador e desatou-se a correr para fora de casa. Queria saber da Kika.

Encontrou-a deitada por trás de uma vegetação circundante. Era visível o rasgo do músculo da sua perna dianteira.

– Oh, amiga. Olha o trabalho que tiveste. Voltaste por mim – as lágrimas corriam-lhe copiosamente. Kika não respondia, apenas a enxergava impavidamente.

– Menina afaste-se, está a escurecer e vamos ter de acabar o trabalho – interrompeu Bert.

O lenhador enfia dois cartuchos na sua caçadeira e prepara-se para dar o golpe final a Kika já prostrada.

0822-wolf-howl.jpgAlba travou a sua marcha, deu uma passo à frente e barrou-lhe o caminho.

– Não, por favor, ela não! Ela tentou salvar-nos. Rogo-te que a poupes!

– Ó menina, ela é apenas um animal. E é perigosa!

– Não estaria a falar consigo se não fosse ela!

– Animais são animais! Quando têm fome atacam. Nesta zona, os lobos não entram, é o sinal que darei. As pessoas têm o direito de viver em paz na sua casa, na sua terra!

Alba não ripostou. Mas era visível a ira nos seus olhos cristalinos.

– Isto tudo era terra deles! – bramiu – Para onde eles irão? Para uma reserva como os índios?!

O lenhador emudeceu. Não havia, na verdade, mais nada a dizer, apenas cumprir o que supostamente lhe era destinado a fazer. Encolheu os ombros e suspirou.

Fitou a menina seriamente e desengatou a arma.

– Que não volte a aparecer-me pela frente! – pousou a caçadeira sobre os ombros e afastou-se em direcção à sua carrinha arrastando consigo Zorka, o orgulhoso lobo pardo, outrora o terror do outro lado do vale e agora reduzido a um monte de carne, a ser posteriormente incinerado.

Quando Alba voltou, Kika tinha desaparecido.

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Nessa noite de céu límpido, a lua crescia fulgurante. A secura do tempo tornava mais visível a sua textura de crateras, ranhuras e manchas. Seria naturalmente brindada com o mesmo coro de sons e ruídos, cânticos nocturnos de animais e insectos com zumbidos e silvos, rastejos e cricrilos. Foi assim sempre, desde o início dos tempos.

Alba interrogou-se a saber como tudo isso foi possível. Pensou em Kika e Zorka e no que teriam os seus olhos visto, no que lhe diriam se pudessem falar. Se teriam mesmo se lembrado dela e se realmente lhe pouparam de um fim crudelíssimo para o ser humano, mas de todo normal para eles. Não haverá maneira de responder, por muito que se labutasse nisso. Subsistiria apenas a crença de que nem Kika, nem Zorka queria que ela acabasse como um lobo ditaria, porque no momento da verdade viram nela como um dos seus. Era isso que preferiria.

Mas sabia que não era uma história de fadas, onde vencem os justos, os bons e perecem todos os que lhes sejam maus. No estado da natureza, não há céu, nem inferno e não se purga coisa alguma. Não há razão, nem dever-ser. Há apenas uma ordem imanente de se estar vivo, independentemente das mutações e do fortuito que ela comporte.

De longe ouvia-se um uivo longo. Desejou que fosse Kika a ecoar-lhe um adeus.

Fechou o livro de “Bambi” e desligou a luz.

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Macau, 6 de Setembro de 2019, sexta feira

© Miguel de Senna Fernandes

O CORRESPONDENTE SECRETO

Olá Ilda

A Professora Lúcia disse a todos que hoje seria o dia do correspondente secreto e eu deveria escrever a alguém da nossa escola, sem assinar o meu nome. E explicar porque te escolhi.Penso que não tenho razões porque escolher outra pessoa. Espero que tenhas a paciência de leres isto, pois sou “bafo-comprido”. Quando não olham para mim, claro.

Pois bem.

Quando te vi pela primeira vez no começo das aulas, achei que não devia falar contigo, porque não terias tempo para mim. As tuas amigas estão sempre contigo e tens sempre muito que fazer. Riem-se de tudo quanto veêm. Nunca olharam para mim. Sorte minha, pois não saberia onde me esconder. Por isso sei que não dás por mim. 

Notei que tens uns lindos olhos. Quando fugazmente eles se viram para mim, vejo quão claros e intensos eles são, que me fazem amolecer. Parecem que me dizem algo, mas também imagino muita coisa. 

Mas, confesso, tenho fraquezas e fico com a cara vermelha se me olharem muito tempo. Detesto isso!

Quando sei que estás por aí, fico feliz e imagino-te bem perto de mim, a conversar comigo, a olhar-me nos olhos, a responder milhares de perguntas que teria para te fazer, a ouvir música. Não a dançar, porque não tenho jeito para isso e não gosto imaginar-te a rires-te de mim. 

Não posso esquecer do dia do nosso passeio escolar a Hong Kong. Fiquei surpreendido ao ver-te de sapatilhas, ganga e camisola vermelha, algo tão invulgar em ti. Estavas tão bem. De certeza que todos tinham os olhos em cima de ti. Os meus estavam também, embora não gostaria que reparasses que tinhas toda a minha atenção. Cansa muito olhar assim, mas não tinha outro modo. Vi um lugar vago a teu lado,  não tive é coragem de ocupá-lo. As tuas amigas não me perdoariam. Não sobreviveria à zombaria daquela “fantocheira” Patrícia. No entanto, escolhi o assento mais próximo possível de ti, ainda que remoesse de pena, pois a cadeira a teu lado permaneceu vaga. No Museu da Ciência, por um momento, estavas perto quando o Professor Germano passou pela secção dos esqueletos dos animais. Enchi-me de coragem e pus-me a falar sobre isso aos meus colegas da turma. Talvez assim pudesses também aproximar-te. Tive a certeza de que não tinha falado alto de mais, mas mesmo assim arrependi-me. Foi ridículo isso de me destacar, quando nem se quer disso deste conta.

Gostaria tanto que soubesses o que vem na minha cabeça

Nunca experimentei isso que se chama de ciúmes. Achei sempre que isso seria coisa ridícula de menina, até o momento em que senti o aperto do coração, quando vi o Afonso Vaz a dançar contigo, no baile do Natal. É indescritível como é essa sensação de perda e de revolta. Mas, o mais grave é que não sou ninguém, para sentir fosse o que fosse, não tenho estatuto no teu coração.

A carta não logrou sequer sê-la porque não chegou ao seu destino, parou antes num caixote de lixo junto à entrada da turma 9B, à semelhança de tantos outros papéis, embrulhos, pacotes e objectos sem importância, que aí se lançam ao abandono, por razões que ninguém se daria ao trabalho de saber.

Tal como aí se encontrava também um sobrescrito côr-de-rosa, dirigida a um “Rafael Augusto”, nele se incluía uma folha onde se lia qualquer coisa como: 

 Bom dia,

Estás bom, Rafa? Espero que não leves a mal que te trate assim, tal como os teus amigos o fazem.

Estou a escrever-te porque a Professora Mónica da minha turma, disse a todos que enviassem uma carta à pessoa da livre escolha de cada um. Hoje é dia do correspondente secreto, acho que a tua professora também vos disse para fazer o mesmo. Não poderia revelar o meu nome, referiu, mas teria de explicar porque te escolhi.

Julgo que não tenho razões para escolher outra pessoa. Espero que tenhas a paciência de leres até o fim. Não sou boa a sintetizar ideias e se calhar serei chata. É que, não sei se terei coragem de te dizer à tua frente o que sairá agora da minha esferográfica. Estou tão nervosa, acredita.

Quando te vi pela primeira vez no começo das aulas, achei que eras diferente dos outros colegas. Estes apenas queriam chamar atenção e faziam disparates sem graça alguma, mas tu estavas num outro mundo. Tinhas outras coisas na tua cabeça, com certeza, não parecias ter paciência para ninguém. Eu tinha que olhar muito para ti para ao menos saber se olhavas para mim. As minhas amigas são umas parvas, riem-se de tudo, pois tal como os rapazes, também querem chamar atenção. Mas, não tenho jeito para estas coisas e por isso, sei que não reparas em mim.

Contudo, quando consigo que me olhes, vejo naqueles olhos castanhos uma pessoa dócil, pronto para me ouvir. Tens um olhar tão intenso.

Fico feliz quando estás no recreio, no entanto nunca quis dar-te a impressão de andar a perseguir-te. Assim, permaneci sempre longe de ti. Mas, imagino-me perto de ti, a ouvir-te, a responder às perguntas que terias de me fazer, se é que existiriam. Dançarias comigo, embora saiba que os rapazes não gostam de dançar. Dançaria contigo de qualquer modo.

Gostaria tanto que sentisses um fraquinho por mim, nem sei como tive a coragem de admitir isso.

Lembro-me tão bem do nosso passeio a Hong Kong. No Museu da Ciência, pude escutar-te a explicar sobre o esqueleto dos animais aos colegas. Estava como sempre afastada, mas a tua voz soava bem ao longe. Nunca pensei que soubesses tanto e que falasses, pois sempre te achei distante a pensar noutras coisas. Nesse dia, chateei-me com as minhas  amigas. Tínhamos combinado ir de macacão azul, sapatilhas, meias brancas, eu de camisola vermelha, elas de outras cores. Achei uma ideia boa, pois podia usar outro tipo de roupa diferente do usual e, quem sabe, talvez pudesse chamar a tua atenção. Qual não foi o meu choque e embaraço, fui a única que assim apareceu no cais. Senti-me atraiçoada, pois detesto ser o foco de tudo. E proibi que se sentassem ao meu lado. No fundo, confesso, alimentava também esperança de que pudesses sentar-te nessa cadeira vazia. Não faz mal, ficaste umas cadeiras mais perto, dei-me por satisfeita. Ainda bem que elas estavam longe de ti, pois algo me diz que a mais espalhafatosa de todas gosta de ti.

Não penses mal de mim, com esta carta tão atrevida. Precisava de desabafar e o que melhor do que escolher alguém que tem a ver com isso tudo, sem que ele saiba quem seja eu? 

Precisava que soubesses, ainda que em vão, que no baile do Natal, não queria dançar com ninguém. Antes, ter uma oportunidade para conversar contigo e dizer-te tudo o que vinha na alma. Nunca bebi nada de alcoólico, mas precisei dele para ganhar coragem. Um deles conseguiu trazer vodka e bebi. Andei a olhar para todos os cantos à tua procura. E o Afonso não parava de por mais bebida no meu copo. Se calhar já sabes, essas bebidas ora põem-te triste ou então bem alegre, e eu não resisti. Dancei com o Afonso e senti que ele se agarrava a mim. A minha cabeça dava voltas e vi muitas coisas. Não tive a certeza mas fiquei  com a impressão de que olhavas para mim, e era triste o teu olhar. E de repente acordei e parei de dançar. Mas já não estavas. 

Se calhar nunca estiveste.  Queria tanto que soubesses.

Nunca o mesmo caixote experimentara tamanha revolução, como nesse fim da tarde. Na verdade, para quê vasculhá-lo, e recuperar o quê? O que passou ao abandono, nunca retrocederia à sua condição anterior. Mas, vira Rafa a confusão de papéis à volta do receptáculo, como se fora obra de alguém que, tal qual ele, quisesse à força reaver o que lá pusera. E para ele era uma questão vida ou morte, morte de vergonha, uma espécie de calvário que se adivinharia enfrentar, se por um infortúnio, a sua missiva caísse em mãos dúbias. Ainda que anónima, eles adivinhariam quem teria sido o autor, a chacota de que seria alvo e a depressão que se lhe seguiria. Que ousadia, foi aquela? 

As suas mãos remexeram, escarafuncharam a seu mando. Mesmo sem ver o que continha o caixote, ao menos tactear os objectos com a esperança de apalpar o sobrescrito, cuja textura já conhecera, depois de tantas noites a decidir se o deveria enviar. Ao cabo de quinze minutos de frenético resgate, suspirou fundo. Encontrou-o. O alívio sabia bem melhor que uma positiva a Matemática. Puxou-o para si, desinteressando-se do resto que a sua mão ia tocando no seu trajecto para fora.

E o sobrescrito não era o dele. Era de côr-de-rosa, com a letra que não era dele. Corou e sentiu o ardor nas orelhas ao ler o seu nome. Mas sentiu que não estava só no corredor naquele fim da tarde. Não se atreveu logo a ver quem era, mas já sentia uns olhos castanhos e redondos fitando-o intensamente. Nas mãos, a menina segurava a carta que ele andava à procura. 

Ilda sorriu-lhe.

 

9 de Agosto de 2019, sexta feira 

© Miguel de Senna Fernandes

NÃO MORRAS

Morri.

Tenho agora a certeza disso. Há um tempo que ando assim, sem substância, nem peso, numa inexorável leveza que me leva a pairar pela minha casa, olhando tudo à volta e de cima, numa existência volátil. Tudo é turvo, até o som das vozes é abafado. No início não ouvia a minha voz, a minha respiração, não me sentia.

Mas existo.

E sei disso porque vi um corpo inerte e dele me aproximei: tinha a cara que via todas as manhãs ao espelho. Nunca me vi de olhos fechados, mas vejo o que provavelmente o faz a Sara todas as manhãs quando acordava e me mirava com os seus olhos graciosos. Sim, tudo é turvo, pois é com esforço e determinação que me aproximo da minha mulher que já não me sente.

Já passei a fase de desespero, de desnorte, sem perceber porque não consigo reentrar nesse corpo inerte que eu sei ser meu e de me despertar nele como todas as manhãs, tomar o banho, fazer a barba, vestir-me, sair do quarto e ter o pequeno almoço à minha espera.6F630EB2-0939-4B43-B0D0-61AE1958CCD7-1798-000001C7631D7935

Porém, graças a um truque – chamemo-lhe de imaginação -, já consigo “ver-me” e assim, fazer de conta de que tenho membros, mãos, cabelo, etc. E sou do sexo masculino! Sim, porque uma vez ultrapassando a fase de aceitação da nossa condição etérea, as coisas tornam-se mais simples, vemo-nos e sentimo-nos com mais acuidade. Abstraímo-nos depois da nossa real situação e construimos um mundo e um físico à nossa volta! É assim aqui, julgo.

Não é fácil e já dei por outros como eu, que circulam por aí como presenças perdidas, uns tão confusos como eu no início, outros mais inteirados do seu estado e por sinal, mais resignados. Mas todos tristes neste purgatório, onde não se sabe se é céu, se já é inferno, nessa existência intermédia entre a vida mortal e a badalada eternidade, num vaguear errático sem fim, em busca de uma resposta à nossa condição de mero ente. À procura de quem nos possa ouvir. Estamos tão sós.

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Como eu queria falar com a Sara.

As horas não passam se é que se pode falar delas. Não consigo precisar a sequência dos eventos, o que veio primeiro ou o que passou a depois. A ausência de referências temporais torna difícil lembrar das coisas.

Numa das ocorrências, por exemplo, vejo muita gente a aparecer. Ora sós, ora acompanhados, fazendo vénias e salpicando a fotografia com água. Caras conhecidas mas tudo muito nublado. Sei quem são, e estão aí por causa da pessoa retratada. E mais uma vez me reconheço nessa fotografia. Lembro-me então que isso é funeral. O meu.

Mas o que me interessa é Sara. E ponho-me ao lado dela, sempre que a localizo, olhando todos os seus movimentos, seguindo-a de perto sem querer perdê-la de vista. Já desisti de chamar por ela, pois sei que não me ouve. Mas ao menos ter a esperança de que ela dê conta duma presença a seu lado, que o ar crie uma brisa com a minha passagem, para banhar a sua beleza.

O normal seria as pessoas ignorarem-me, ademais, nem dão por mim. Todavia, há uns que me enxergam, com aquele olhar que não deixa dúvidas de que existimos para eles, como aliás aconteceu, nessas que foram as minhas exéquias. No entanto, não consigo chegar-lhes a fala, não sou uma borboleta, nem bicho raro que sobrevoa o recinto nessas ocasiões. Não consigo pedir-lhes nada. Nada para os ouvidos da minha Sara.

Ghost-Hand-Hero-1500Estou a tentar lembrar-me do que aconteceu. Foi uma dor intensa no meu peito, julgo. Tenho a impressão de que estava em casa e li uma coisa qualquer, sem poder precisar, neste momento, que relevância isso tem.

Mas não consigo concentrar-me por ora, pois a Sara não pára de andar de um lado para o outro. Não quero perder-lhe o rasto.

Vejo-a sentada na cama. Deve estar cansada, pois o dia foi demasiado pesado, calculo. É obra ter de aturar tanta gente e suportar os abraços, beijos, palavras de conforto e de solidariedade, flores, tudo para resgatá-la do desgosto que, afinal, só ela compreende em toda a sua extensão. Suponho que tenha chorado, mas não tenho a certeza. A névoa não me permitiu presenciar isso, se calhar ainda bem. Mas aí está ela, sentada na borda da cama, cismando. Não sabia quando ela começou a fumar. Quando começou a beber. Os cigarros sucedem-se assim como os goles dessa bebida amarelo-bronzeada, que me lembro se chamar uísque.

whiskey-tasting-1-700x461 (1)Levanta-se e verte mais um pouco desse néctar no seu copo, servindo-se de um gole, enquanto despe o negro do seu corpo. Leva a bebida – e a garrafa, suponho – e entra na casa de banho, onde a água já jorra sobre a tina.

Nua, Sara sente-se na borda da tina com o copo renovado de bebida. Com a outra mão tapa a cara, enquanto franze a testa. Sei que soluça. Sorve-o uísque num trago e de seguida introduz-se na água, que calculo ser morna. Ela não se mexe, de quando em vez os seus dedos tacteiam os seus seios, o seu joelho, em gestos lentos e suaves, enquanto a água jorra sobre o dorso dos seus leves pés. E mais um gole atravessa a sua garganta, visível quando estica o seu esguio pescoço ao pousar a sua nuca sobre a borda da banheira.

Que saudades tenho desse corpo que me invoca tantas imagens, dos dias em que tinha mais tempo para ela, em que eu era um ninguém, sem os títulos executivos, sem as viagens prolongadas que tinha de fazer pelo mundo fora, em troco da fortuna imensa que fui fazendo. Dias de chau min com coca-cola, van tan min no velho Vai Kei, beijocada, marmelada e tanta cumplicidade marota ao escuro do CineTeatro.

Saudades da nossa cama, das unhas compridas a arranharem desenhos do imaginário no meu peito, das pupilas dilatadas desses seus olhos nos meus, quando por cima dela e encharcado de suor a possuía loucamente, desses dedos de pé que me faziam festinhas nas têmporas, enquanto se reafirmavam com ardor as nossas juras de amor.

sleeping bath2Mais um gole. E ela repõe o copo vazio com mais bebida. O seu olhar é cada vez mais vago, inerte, sem destino. De solidão, de derrota. De desintegração. Gostaria de penetrar na sua cabeça para saber o que sente, ao menos para aplacar o que pesa dentro dela. Ao menos para lhe dizer que sei o que é estar só.

Enche o copo mais uma vez. Mas desta vez acaba por não beber nada, porque deixa a bebida entornar-se no seu peito. Seus olhos semicerram e resta pouco para fecharem completamente. Pressinto que algo de mau está prestes a acontecer.

O seu corpo cede e começa a deslizar-se para dentro da água, sem que ela tenha noção disso. Ou será que tem?

Imagens do regresso da minha longa ida ao Brasil aparecem. E lembro-me da minha promessa – mais uma – de que a viagem seria a última do género e me dedicaria de futuro só a ela. Fiquei aí mais uma semana do que o previsto, por causa de uma reunião executiva de alto nível, marcada à última hora, “a que não podia faltar”. Vejo-me a entrar em casa e a estranhar o silêncio, enquanto pouso a bagagem. Dirijo-me ao quarto, impecavelmente arrumado. Solto a minha gravata e quando a coloco no armário deparo com a ausência do seu vestuário.

Sara agora não desperta, a sua cabeça imersa na água que não pára de encher a tina.

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Visões assaltam-me agora com mais persistência. Em casa deixa-se de haver rasto da minha mulher. Ligo para os telefones que conheço, mas nenhum dá sinal. Procuro a informação que me leve ao menos a calcular o seu paradeiro. Em vão.

E aparece-me um bilhete sobre a cabeceira, sobre o qual pousa o seu anel de casamento.

“Fernando,

Quando leres isto, estarei longe de ti. De vez. Perdoa-me a fraqueza, mas não aguento mais. Não posso viver assim. Custa-me a escrever isso, faltam-me palavras. Não vou desenvolver mais, pois não quero que me falte a coragem de dar este passo.

Encontrei outra pessoa.

Até sempre Fernando. Cuida-te.

Sara”

Bolhas saem do nariz da Sara que entra num estado de dormência debaixo da água a atingir a borda. Ela não tosse e não acorda.

Vejo-me andar de um lado para o outro em busca de uma explicação. Não podia, então, crer que a minha mulher me deixasse, quando acabei de voltar de  uma viagem coroada de sucesso, aquela que seria o ponto de viragem para as nossas vidas. Que ela saberia do quanto me custou subir na empresa? Todo o seu conforto na casa tem sangue e suor meu. Todas as viagens em primeira classe para as cidades mais conhecidas do mundo, são pagas com o quê?! E ela traiu-me enquanto lá fora me escravizava por uma vida melhor!

sleeping bathEstava furibundo, revoltado contra a crueldade da minha mulher, contra a sua leviandade e leveza do seu espírito. Contra a indecência da sua condição de mulher casada. Recorri-me a todos os pensamentos mais odiosos contra ela. Não podia admitir que ela gemesse com outro homem. O meu coração bombeava intensamente e carburava mais ódio. Mais ainda, quando enchi os pulmões e gritei-lhe todos os nomes mais horripilantes que o meu extenso vocabulário me permitia, atirando de seguida o meu anel contra a parede.

Tinha esgotado o meu arsenal de argumentos justificativos da minha ira. Arfava de nojo por ela. Olhei para o nosso quarto largo e todas as comodidades existentes, caprichos de um homem de sucesso e me interroguei, se essa imensa cama continuava a fazer sentido. O silêncio era absoluto, neste meu apartamento do quadragésimo quinto andar forrado de vidros duplos.

Porém, dei-me de súbito por me sentir mal, tal qual quando a consciência duvida da seriedade da nossa animosidade. Náuseas por um sentimento forte mas artificioso de que fazemos uso, quando nos falta a ousadia para enfrentar as nossas fraquezas. Mormente a verdade sobre a podridão que nos vai corroendo, à medida que nos vamos esquecendo da pureza dos primeiros anos do nosso ímpeto. Quanto a mim, um sentimento de cobardia, para encobrir um egoísmo atroz que afinal minara o que havia de bom e de belo entre nós dois.

originalSerá que cheguei tarde? Terei mais uma vez decidido unilateralmente o que era melhor para nós dois? E os filhos que andámos por planear? E a viagem de cruzeiro no  Mar Egeu que ficou na prateleira? E as tardes a fazer nada mais que encostados um ao outro a saborear o sol? E as noites a fazer amor para o deleite da Lua e as estrelas que a acompanham? E outras tantas promessas, possíveis e impossíveis de uma vida a dois, só para dois?

Apanhei o anel, repú-lo no meu dedo e deitei-me na cama.

Cheguei mesmo tarde. Fiz merda, não fiz?! O meu coração respondia à martelada.

Sara agora não respira. O meu desespero é incontável. Impotente em fazer fosse o que fosse e assistir o fim da minha amada. Não consigo tirá-la da água, pelo menos ainda não encontrei truques para o fazer. Ao mesmo tempo, revivo as imagens que voltam a tomar conta de mim. A respiração  a escassear e o meu corpo a transpirar, enquanto prostrado na cama abraçado à última carta da Sara. Indolência com formigueiro percorria em toda a extensão do meu braço.

Sara!”, brado alto, junto à superfície da água, que se mantém lisa, por mais esforço que faça para a agitar.

Ressinto a picada forte no meu coração, que me levou a arquear  as costas e levantar o peito. Faltou-me a respiração, a minha cabeça pressionou forte sobre o colchão, a minha mão machucava a carta, meus músculos faciais retesavam-se.

De súbito a dor pausou e recuperei a respiração. Estava encharcado de suor.

Mergulho na água, mas não senti densidade nenhuma, era como se ela não existisse. Olho para a Sara que não mexe mais, o corpo não reage, não leio sinais de animação.

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“Acorda, Sara, por favor….acorda! Tu não, não mereces isto. Não mereces fazer isto…por mim. Sara, suplico-te! Acor…”

Não termino a frase, porque a dor retorna e transporta-me de novo para cama, agarrado à carta. Revivo intensamente este momento como que duas vivências temporais se encontram acopladas numa só. O golpe desta vez foi mais forte, como uma lança a trespassar-me o peito, numa violência lancinante. O meu braço esquerdo, como que electrizado não movia.

“Saraaaaa!”

Mais uma investida no coração e não consegui enxergar mais.

Escuro. Mortalmente escuro.

Porém, lentamente a claridade foi aparecendo. Comecei a ver, olhando para todo o lado, sem norte. Sem cima, nem baixo. E tudo turvo.

Assisti o meu fim, como um filme que se revê.

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AAAHHHHH!” O suspiro não é meu. É finalmente da Sara.

“Estás?”

“Consegues ver-me?” Estou incrédulo.

Sara assente.

Nada é turvo agora. Vejo-a nitidamente, como se usasse óculos com graduação correcta, num dia límpido e solarengo. Todos os sinais da sua face, a pele fina do seu pescoço, os seus cabelos escuros com madeixas loiras, olhos castanho-claros. Em todo esse tempo, é a primeira vez que sorrio.

Mas depressa também me arrepio.

Os seus olhos não pestanejam, antes denunciando lágrimas e querem seguir todos os meus movimentos. Ela consegue ver e ouvir-me. Como o choro faz dela uma mulher tão adorável.

Abraço-a como há muito não fazia. Aperto-a com toda a força que conhecia.

“Desculpa, Fernando”. Balbucia.

“Não meu amor, não digas isto”.

“Deste-me a oportunidade de o dizer. E estiveste ao meu lado, depois que eu te deixei.”

“Quis ficar para te dizer que estou bem e que não te preocupes comigo. E mais …  perdoa-me por estes anos de abandono. Não tens culpa de nada. No teu lugar faria o mesmo”.

“Basta, Fernando. Estamos juntos é o que interessa.” 1_ShMcGMaSz-ZtQR_0ZWmpJQ

“Estamos, amor. Mas, isto não é lugar para ti, nem para mim. Não é para mim, pois aqui solidão é cruel e injusta. Não é para ti, porque não é assim que deves vir. Volta para trás enquanto puderes, que viverás mais feliz. Acredita, que estou bem e é isso que te peço, pelo amor que tenho por ti.”

Os cristalinos olhos da Sara tremem húmidos, num misto de compreensão e de gratidão. Mas de pena também, porque no fundo, querendo estar comigo, sabe que eu tenho razão.

Fernando…”. Tapei-lhe a boca.

Não morras, meu amor.”

Beijo longo, como teriam sido muitos outros no Mar Egeu, sob os auspícios da Lua e do seu séquito de estrelas. Os nossos olhos não fecham, para contarem tudo um ao outro, o que para tanto palavras não existem, nesta derradeira oportunidade. Até que a névoa volta a aparecer, turvando a minha visão da Sara, minha linda Sara.

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Desta vez encontro-me a sorrir de gratidão a quem deverá recebê-la.

Oiço o som abafado de quem está a tossir, a fazer lembrar dos tempos de miúdo das minhas aulas de natação, lutando para estar à tona e expelindo água que a inexperiência me fazia engolir.

Por fim, o mesmo suspiro prolongado.

Não me fui embora. Quis ter a certeza de que tudo esteja bem. Olho para a Sara e observo um semblante sereno. Dorme profundamente como consigo constatar pela sua respiração pausada. Noto uma leve curvatura para cima em cada canto dos seus lábios finos, como quem inicia um sorriso.

Não há nada mais fascinante que apreciar a nossa amada a dormir. A sua face é aquela que nada tem a esconder, sem defesas, sem pantomima, face que tão-só faz transluzir um estado de alguém completamente entregue às cores do seu imo. E se é bela, ela o é ainda mais, quando mergulhada na paz do seu sono. A minha Sara é isso.

Suspiro de saudade antecipada. Não há melancolia, porém. Apenas a certeza de que a amo. Eternamente.

E abre-se luz no meu caminho. Não estou só e agora sei para onde vou.

orig

 

É altura de partir.

 

19 de Outubro de 2018, sexta feira.

© Miguel de Senna Fernandes