NOITE DE BABALÚA

Ela sabe o que pensamos, como dizem.

Já no início da nossa existência, paira no alto do céu e nos observa em silêncio, com um ostensivo brilho que sempre nos intrigou. Não tão fulgurante como o seu parente durante o dia, ela permanece discreta na noite, marcando com a sua mudez uma presença indelével. Dizem que conversa connosco também, sussurrando-nos sobre o que o destino nos reserva. Ou então, somos nós que privamos com ela, confiamos-lhe o nosso imo, como se nossa confidente fosse. A ela dirigimos as nossas preces e súplicas e com ela explicamos os estados da alma, desde a euforia de um namoro bem sucedido ao devaneio de uma perda irreparável.  Dedicamos-lhe a música, os nomes, o dia da semana e comemorações.

No entanto, o que mais fascina nela são as histórias que conta através da nossa imaginação. 

A Lua não escolhe nem o enredo, nem o desenlace do herói, mas no seu silêncio luminoso no cimo do firmamento, comove-nos e alimenta o imaginário que vai ganhando vida e sentido nas nossas mentes.

Histórias que não ocorrem ao Diabo, como esta que se diz ter passado no velho e emblemático bairro de S. Lourenço, em Macau.

Havia um tempo em que o nobre bairro de tradições seculares, albergara a fina nata da comunidade portuguesa macaense. Fora eleito para poiso dos mais altos dignitários da velha administração portuguesa, tão belo e enigmático que até os então governadores da Província de Macau relutavam em dele sair, para visitar outros locais, como  demandava o seu ofício. 

Tendo como referência central a Igreja de S. Lourenço, o bairro abarcava em toda a extensão desde a Praia Grande à Praia do Manduco, passando pelo barroco Seminário de S. José, desbravando-se pelo Lilau(2) fora até ao Templo de A-Má. 

De calçada portuguesa, as suas estreitas e sinuosas ruas desenhavam-se sobre  o desnivelado relevo da colina encimada pela Ermida da Penha. Não era fácil para quem tinha de as percorrer a pé todos os dias, num infindável subir e descer, sobretudo nos dias de chuva ou na época da densa humidade, em que ventos quentes do Mar do Sul se esbarram contra o ar ainda fresco do fim do Inverno.  

Chegava-se a ele quer pela Praia Grande, quer pela Rua Central, que outrora ligava a Igreja à Sé Catedral, mas que fora cortada a meio com a construção da Avenida de Almeida Ribeiro, no início do século XX. Mas, também se lhe acedia, subindo do bairro chinês da Praia do Manduco através da Rua Inácio Baptista, ou pelo emaranhado de ruelas da zona do Seminário.

Do casario dominante, com um máximo de três pisos, havia as portentosas mansões das grandes famílias chinesas e macaenses, ao estilo emprestado da art deco, com amplas varandas que serviam de alpendre para o piso térreo, havia também as moradias mais pequenas e modestas, habitadas pela classe média, funcionários públicos, polícias, gente mais humilde, estas porventura as mais graciosas que se desfilavam pelo bairro todo, estreitas com porta de madeira, duas janelas com veneziana.

O bairro era pacato, onde se ouviam as horas badaladas nos sinos da Igreja, os pregões que se sucediam suavemente durante o dia e noite, desde o cântico desafinado do amolador de facas e tesouras, ao chôro do velho vendedor de catupá(3). As bicicletas, motas e lambretas eram rainhas que transitavam alternadamente, ritmo que se completava com percussão do tim-tim, que chamava pelos despojos das famílias a troco de uns avos.

Havia também baldio, casas abandonadas e terrenos apenas aproveitados para entulho de obras vizinhas, onde crescia a vegetação selvagem. Escuros à noite, eram ideais para as escapadelas, namoricos não autorizados e outras coisas mais ousadas, numa altura em que o pudor, a decência e os bons costumes primavam em ser temas fervorosos da devoção católica no púlpito da Igreja. Também nestes locais, a juventude se juntava para fumar, longe da vigilância dos pais, para cantar, para fazer toda a espécie de dislate.

Esse estado de abandono ganhava outra mística, nas noites em que a Lua resolvia dar uma espreitadela. O pessoal da noite ganharia outro alento que de outro modo aturaria o lúgubre da má iluminação, ao som do repicar dos sinos.

Babalúa, babalúa (3)
Lúmi di iou-sa coraçám
Quando vos-tem na rua
Iou nádi tem pensám (4)

Eis uma possível lenga-lenga que se soltaria da boca de gente antiga de Macau, sob o lânguido olhar da majestosa Lua Cheia, nas noites do seu maior fulgor, em que destinos se mudam, vidas se transformam e opções se alteram. 

E assim foi numa das noites de babalúa no S. Lourenço, numa das histórias que passo a contar.

A noite caía depressa e não tardaria muito que a malta o viesse buscar.

No seu recanto ele se aprumava, enquanto na sala havia música, gargalhada, tilintar de copos, talheres e pratos. Era mais uma daquelas enfadonhas festas que se davam em casa, de que não tirava outro proveito que testar a sua paciência. De quando em vez, alguém entraria para pousar um casaco, uma mala. Cumprimentavam-no efusivamente. Para ele, contudo era uma constante irritação, um convite para sair daí de vez.

“Onde está a privacidade?!”- bradava em silêncio.

Durante horas de paramento, limpava o seu bigode fininho, ensaiava vezes sem conta a sua pose, esticava os seus membros, as suas costas, para se manter intacta a sua flexibilidade. Ao espelho mirava-se treinando o olhar de lince, letal numa noite de luar como essa.

Certificou-se de que a hora chegara. Sentiu-se limpo, esguio e luzidio.  O seu trabalhado olhar deu mais uma mirada ao espelho. Aproximou-se da janela ansiosamente. Estava elegante, tinha estilo, estava pronto.

Sentia o nervosinho. Iria ser a noite em que ele provaria ser gente, crivo por que passariam todos como ele. Teria que fazer algo de extraordinário que o acaso definisse, que só a heróis correspondia. Ainda sentia a dor que vinha das costas. Resquícios de uma briga ocorrida havia duas noites. Saiu-se bem, foi bravo e aguentou os golpes do adversário. O grupo até aplaudiu o feito, todavia não valia para o que se preparava. O que uma luta por mais arranhada fosse podia mostrar? Que áurea podia ganhar? Era mais uma entre muitas outras rixas que encontraria no futuro. Sem glória, nem memória. Nada valia. 

Até porque Daisy não estava presente. 

Curvou-se sobre o parapeito da janela, de queixo sobre as mãos, e concentrou a mente nessa beldade. Lembrara-se da primeira vez que a vira e começara a admirá-la. O seu coração bateu mais depressa, quando evocava imagens do seu pachorrento e sedutor andar. Ela sabia dos famigerados olhares que todos lhe lançavam, ciente do silêncio que ela causava ao passar por todos, caminhava propositadamente com mais pausa, meneando as suas ancas, rebolando o seu traseiro, as suas pernas cada uma cruzando sobre a marcha da outra. Sabia da lascívia que causava àquelas mentes famintas de amor. Por fim pousaria o seu leve corpo de deusa, ladeada de suas amigas intimas, observando todos, sorrindo com desdém. Ninguém no bairro mexera com a alma de todos e despertara tanta cobiça como aquela endiabrada. Daria tudo para chamar a sua atenção, brigaria com qualquer um para cair num segundo que seja na sua consideração. Lutar por ela faria todo o sentido. Ganhá-la seria afirmação da masculinidade. Eis a almejada áurea. 

E não havia meio de a malta chegar.

A noite avançava, mais uma hora se tinha passado. Lá fora a Lua subia altiva, lançando sobre ele o feixe luminoso, urgindo a que saísse da casa, onde nada aconteceria. Até porque não se conteve em pensar na possibilidade deles se terem esquecido dele, tal o frémito que Daisy e o seu séquito de boas amigas, causava à rapaziada.

Sorrateiramente, pressionou a alavanca da janela que de seguida se abriu o suficiente para que o seu corpo fino pudesse passar. Não a fechou para garantir o seu regresso. Deu um salto de mestre, mas os seus pés foram ter com uma lata de conserva abandonada. O ruído da queda no entanto não incomodou. Estava fora, enxergou lá para cima, havia luzes. A festa não tinha terminado e prometia prolongar-se pela noite fora.

Ainda que caísse o céu, estava já na rua. E ninguém o deteria  a venerar Daisy dos seus sonhos, que nem um doente. O luar não fazia mais nada do que criar desejos, nessa noite de babalúa em que a dona subia cheia, inspirando loucos e apaixonados. 

Seguia por caminhos  habituais e é nesses trajectos que encontrava os compinchas. Seriam tantos que a vizinhança não tardaria muito em lançar água, sapatos e outros objectos para a sua dispersão.

Porém esta noite, algo de diferente sentiu. Onde estão eles?

Nem um único indício da sua presença habitual. A rua estava deserta e ele caminhava sózinho e pela primeira vez sentiu um calafrio.

“Não me digam que já estão com a Daisy. Safados. Só podia ser!” O galante Pompim do muro do Palácio, o esfomeado Puchini do capelão italiano e o arguto Giga-Magica da loja de aluar, estes não deixariam as oportunidades passar.

“Sacanas, isto não vale, é jogo sujo”- falava para os seus pés.

À medida que pensamentos de revolta cresciam, mais impaciente ele se revelava. Mas algo estranho acontecia. Chico-Bucha, o mais pesado que preferiria estar à chuva a correr, também não estava.

“Psssssssttt” alguém interrompera os seus pensamentos. “Para aqui, já!” Era o Seco-Mirado, o solitário esquelético do bairro, com quem ninguém queria coisa alguma.

Encolheu os ombros. “Mas, o que se passa?”

“Cala-te e vem já para aqui”

“Que é dos outros?”

Seco-Mirado não vai de modas, sai do seu esconderijo e empurra-o para o abrigo. Nunca de motu proprio  fez algo semelhante, mas o instinto de salvar alguém marcou o timbre.

“Explica-me o que se está a passar!”

“Estão todos presos. Não na cadeia, mas presos nas grades. Pegaram-nos um a um e estão num grande armário metálico por trás da casa da loja do aluar.

“E o Giga?”

“O Giga coitado tentou reagir. Resistiu como um valentão. Mas a força do gigante é imensa, pegou-o pelo pescoço e quase o esganou. Meteu-o na jaula, já inconsciente.”

“E… viste a Daisy?”

Seco pausou. “Ohh… a miss…! Meteu-a numa outra jaula com as suas amiguinhas. 

“E tu? Como conseguiste safar-te?”

“Achas que alguém se dará ao trabalho de me fazer mal?”, ripostou com sarcasmo. “Mesmo assim, tive que me esconder.” 

“Por que razão haveria alguém de fazer uma coisa destas? Só a polícia pode fazer isso, não?”

“Sei lá, acho que tem a ver com o chinfrim que vocês têm feito nestes últimos tempos. Há muita gente nova a morar aqui e nem todos acham piada aos vossos urros e uivos pela noite fora. E agora que se juntam também as gajas, tás a ver a festa! Bom, portanto já sabes, é melhor pirares-te daqui.”

“Seco, leva-me até onde se encontram. Eles precisam de mim.”

Seco interrompeu a sua marcha e esboçou um sorriso cáustico.

“Jafa, aquela catrefada de brilhantes não precisa de ninguém, precisa é de ser queimada viva. Sempre se julgaram senhores do bairro, punham e dispunham de todos que não gramavam”.

Jafarel arrepiou-se com o tom recalcado que vinha daquela boca. 

“Via-te com eles e isso só me metia dó” continuou Seco. “Mais, um pateta que se junta a uma cambada de inúteis, falava disso para as minhas unhas, sempre que te via cegamente enfileirado naquela corja de gente.”

“Então porque me estás a avisar do perigo?” – retorquiu Jafarel, impaciente com a conversa que só lhe estava a roubar tempo.

“Porque apesar desse ar de camafeu que queres ter, és uma pessoa de bem. Por várias vezes evitaste que eu levasse um enxerto de porrada. Seco-Mirado não se esquece dos que lhe querem bem”. 

Ocorreu-lhe a imagem de Seco com a face enlameada e os olhos arrancados de horror ao tentar flutuar numa poça de dejecto, tragando goles de impureza, enquanto todos se gargalhavam à custa desse espectáculo deprimente de luta pela vida. Soube-se que ele ficara muito doente com intoxicação e só por sorte não virou cadáver.

“Por favor, diz-me onde eles estão. Viste a Daisy, como ela está?”

“Hi hi” contorcia-se Seco de gozo. “Ah… Já percebi. Querias lá saber deles! Pretendes é saber onde está a Daisy!… ahaha… Podias ter-me poupado este discurso todo…”

“Seco!” – sentiu que a sua voz rasgava o silêncio que era preciso manter  e ambos se retraíram. Segundos depois, certificando-se que não houve consequências de maior voltou a inquirir. “Vais me dizer?”

Seco ficou sério. Os seus olhos apontaram para a direcção onde todos foram parar.  Meneou a cabeça com pena.

“A partir daqui, dou a língua às minhas mãos e estamos quites. Não te devo mais nada.” Desapareceu num ápice.

Jafarel seguiu a direcção indicada. Cautelosamente como lince à espreita da sua presa, introduziu-se na pequena mata que havia ali formada de muita vegetação e arbusto. A Lua subia e iluminava o caminho que doutro modo seria negro como breu.

O seu passo abrandava, à medida que avançava pela ramada que se adensava. Era leve e silencioso, que até permitia ouvir o cântico dos grilos e de outros bichos que pela mesma razão eram chamados pelo luar.

Por fim deu com o ruído abafado no fundo do mesmo caminho.

“Jafa… ! Qui!”

Mesmo sem conseguir enxergar, reconheceu a voz de Puchini. A escuridão nunca lhe fora um estorvo, todavia havia algo que lhe impedia uma melhor visibilidade. Adiantou mais uns passos.

“Tá quieto, puto” advertiu Pompim. “À tua frente está uma rede armada. Se avançares mais ficas lixado como nós!”

Jafarel, manteve-se imóvel por um instante e suavemente aproximou-se da rede. Era fina mas rija e cobria uma superfície várias vezes o seu tamanho. Não admirava que qualquer incauto cairia na malha. Olhou à sua volta e reparou que a mesma estava presa em ambos os lados a arbustos, aparentemente,  frágeis. Por fim localizou a jaula colocada por cima de um plano rochoso, a uma considerável altura.

 “Estão bem?!” procurou saber, ao mesmo tempo estudando a forma de contornar a rede.

“Não podemos mexer. O Giga está ferido. Levou com o pau nas ventas e está ainda a sonhar …”

“Vamos morrer todos!” choramingou Chico Bucha.

“Pôfa, Chico, mete o teu focinho noutro lado ou ficas sem ele!” vociferou Pompim.  

“Estávamos todos à esquina dos Salesianos, à espera do Giga, quando ouvimos o seu grito. Apressámos o passo e num instante estávamos aqui. Vimo-lo inconsciente deitado ali no chão. Ficámos preocupados pois ele não se mexia. Seguidamente veio o som dum petardo e depois outro. Assustámo-nos e corremos em direcção oposta e  demo-nos com esta rede. Que cilada!”.

“Mas, faz bastante tempo que a polícia não fazia este trabalho.”

“Pois, cos’altro ci accadrà?!” Puchini meneava a cabeça de desespero.

“Pucho… pára lá com esse patuá de esparguete pode ser??” ripostou Pompim.

“Não sairemos vivos da porrada! Já levaram cinco antes e nós somos a seguir” Chico Bucha já gemia de ansiedade, qual condenado à câmara de gás.

“Temos que sair daqui!” Jafarel sabia que não convencia, mas precisava de dizer algo para pôr o seu raciocínio a funcionar a todo o vapor. “Precisamos de ajuda”.

“É só chegar ao topo desta jaula e puxar a vareta de correr. Já vi abrir coisas assim. Não conseguimos por aqui dentro, tem de ser feito por fora. Ma sei solo…! ” 

Da sombra sai a figura franzina e sombria de Seco-Mirado.

“Seco!”, entusiamou-se Jafarel.

Puchini repara nele põe as mãos à cabeça. “Jafa… Perchè?? A cosa ti serve un eunuco como lui?”

Seco engoliu a humilhação sem pestanejar, mirando impávido  para os seus patrícios no desespero da sua clausura. Era a alcunha que mantinha aberta a ferida no seu ego. Sem saber como lhe aconteceu, dum dia para outro acordou sem os testículos. Sofrera sempre muito com isso.

“Pára Pucho, não fosse ele, estaria eu longe daqui”

“Já nem sinto os meus tomates! Vou morrer sem ver a minha mãe!”, o desalento de Chico Bucha tornava-se contagiante.

“Ahhh…Eu tenho é dores de cabeça. Ai…!” Giga retomava consciência com as mãos à cabeça, “o sacana tem cá uma força! Só me lembro de ter voado contra aquela árvore. Sacrista o gajo!”

“Giga! Acordaste finalmente. Pensámos que patinaste de vez, porra!”, exclamou Pompim ao ver o seu amigo recuperar a alma. 

“E a Daisy? Onde elas estão?” Jafarel não escondia a sua aflição.

“Ahh ma ora capisco perchè… estás cá com aquele eunuco não por nossa causa!” Puchini picou com sarcasmo. “Bastardo. Eu devia tê-la mangiato!”

Antes que Jafarel pudesse responder, sussurrou Seco do alto da árvore “Jafa, por aqui!  Há uma brecha por onde podes introduzir-te, sem problema algum. 

Não leu a razão da sua mudança de ideias, mas naquele momento, Seco era no momento um auxílio irrenunciável. Seguiu as suas instruções, e rapidamente estava no topo da árvore, mesmo em cima da jaula e tinha ultrapassado a rede meticulosamente montada, a qual cairia sobre qualquer coisa que a tocasse.

Podia observar os outros em baixo, lutando com a falta de espaço. Todos olhavam-no atentos, com a esperança de serem libertados. Todavia, Jafarel queria saber de Daisy.

Seco indicou o local, que ficava uns cinco metros do sítio onde todos se encontravam.

Jafarel então moveu-se ao sítio indicado, sob protestos da malta. Não queria saber. A sede por Daisy era a prioridade a satisfazer.

“Jafa… vieste!”

A sua voz de veludo, com tons nasais pronunciados, era simplesmente irresistível. Mesmo naquela situação de aflição ela teve o condão de o entesar. 

“Daisy, estão seguras aqui e por enquanto nada de mal vos acontecerá. Mas, neste momento a malta lá em baixo precisa mais de mim. Volto já, prometo.”

Não esperava que Jafarel a relegasse para o segundo plano, mas nem por isso ficou aborrecida. Isso mostrava personalidade que curiosamente ela apreciava muito num macho.

Jafarel de volta pousou sobre o topo da jaula estudando a maneira de abrir a jaula, pelo topo. 

“Despacha-te Jafa…não tarda muito voltarem”

“Estou a pensar, estou a pensar…”

“Não penses tanto. O amor não está lá em baixo!” O sarcasmo de Seco não se fez esperar.

Jafarel, reparou que uma trava de bambu fechava a portinhola no topo da jaula, o qual por sua vez era ligeiramente convexa, o que tornava difícil deslizar o bambu, quer para diante, quer para trás. Para se soltar, era mister pressionar-se essa parte para baixo.

“Isto está impossível”.

“Estás a perder tempo!”, Seco avisava.

“Jafa não queres saber de nós?”, gritava Daisy do outro lado, acompanhada dos sussurros das amigas.

“Pompim, Chico e Pucho, preciso do vosso peso para que essa portinhola se abaixe. Temos de fazer ao mesmo tempo. Vou contar, e à terceira empoleirem-se na grade enquanto que eu salto por cima e vamos ver se conseguirei soltar a trava.”

Todos acharam estúpida a ideia, mas não lhes custava nada tentar.  Sem perder mais tempo Jafarel contou:

“Um, dois e … três!” nada. 

“Um, dois e…três!”, em vão. 

“Um dois e … três!”, grito de suspiro.

Já lá ia a décima quinta vez que Jafarel pulava sobre o local em questão, sincronizando-se com os três feitos macacos, sem que concretizar o seu desiderato. No desespero – até porque Daisy já estava a reclamar da falta de atenção – contou pela última vez…

“Um, dois, três…que sa f………” com todo o seu peso caiu sobre a jaula. Desta vez, também Seco emprestou o quanto valia de peso a sua esquelética carcaça, atirando-se também sobre ela. A violência do embate causou um balanço da jaula para a frente. Todos gritaram quando a jaula rolou para a frente e tombou. Pompim estava debaixo de Puchini que acabou de levar uma bofetada despropositada de Giga. Chico-Bucha enviesado desequilibrou de tontura indo por cima de todos. Grande gritaria.

No entanto a jaula abriu-se, para o espanto de todos. Um a um saíram, mas tiveram dificuldade em libertarem o obeso Chico, admirando de seguida como ele foi lá metido.

Num ápice desapareceram todos. Jafarel retornou ao sítio donde saltara, para depois ir ter com a Daisy. No entanto ouviu passos de alguém a chegar. Escondeu-se sem no entanto assinalar Daisy e amigas para se manterem em silêncio.

O homem foi rente à jaula onde supostamente a malta estava. Jafarel aproveitou-se para tentar o mesmo que fizera antes, derrubando a da Daisy. Não conseguiu, pois o homem descobrindo que os “bandidos”se tinham libertado voltou para verificar se a outra ainda se encontrava intacta.

Estava visivelmente furioso. Abriu a jaula e pegou em Daisy bruscamente. E ela gritava. Jafarel tremia de medo, mas não podia ficar impávido e sereno perante a situação. Tinha razões para temer. Perante um gigante havia pouca margem para mais arrojo. Daisy não parava de gritar de pânico, nem ele tinha outra solução que enfrentar o gigante. E mostrou-se.

“Com que então seu camafeu, soltaste os teus compinchas e agora voltaste para proteger a donzela, hein?”

Jafarel engoliu seco e não respondeu.

“Muito bem e que tal assistir a pequena ficar sem ar?” começou a apertar a garganta da Daisy que esperneava de pavor. “Que espectáculo, né. É esperar mais um pouco e ver como gente da vossa laia deve acabar” E virou-se para a apavorada Daisy e apertou ainda mais.

O que não esperava foi dar com a cara de Jafarel ao voltar a mirá-lo. Este esmurrou, mordeu, arranhou, fez uso de tudo ao seu dispor para salvar a donzela das garras deste gigante. Um dos golpes atingiu mesmo a cara do homem, ferindo-lhe um dos olhos. Por sorte não lhe afectou a visão mas foi o suficiente para soltar Daisy. As suas amigas aproveitando-se da situação saíram espavoridas da jaula.

Jafarel apressou Daisy para o único atalho que no momento atentou, para darem depois com uma betesga, quando o homem já recomposto voltou à carga.

“Mas  estás a brincar com quem?!”, avança com um pau enorme, pronto para desancar. 

Jafarel olha para Daisy e assegurou-lhe. “Ninguém te fará mal! Juro!” e cobre a donzela com o seu corpo esguio esperando a pancada que se seguiria.

No momento em que o homem levantava o seu braço para a paulada, Pompim, Giga e Puchini, lançaram-se sobre ele. A força dele era imensa e pegou em Puchini e lançou-o a metros de distância. Havia que se livrar dos outros dois que não o largavam. Mas os três não cessavam a sova que infligia ao monstro. Atacavam-no com uma ferocidade invulgar.

“Jafa… pisga-te agora!”, era a voz de comando Pompim, antes de voltar à carga do desgraçado.

Jafarel encheu-se de orgulho. De mero atalaia do grupo, passara a ser membro de pleno direito, merecendo a solidariedade dos outros, sem necessitar de mais provas de bravura. Demonstrara o bastante e ganhara estatuto.

Tinha de colocar a Daisy em local mais seguro. Mas, fugir não estava nos seus planos. O ímpeto da noite inspirava-lhe mais arrojo, mais determinação na afirmação da sua singularidade que todo o bravo mereceria.

“Ficas aqui. Vou ver onde estão as tuas amigas.”

Os três companheiros de luta gritavam de fúria, mas o gigante parecia invencível. Por fim conseguiu desenvencilhar-se de dois e pegou novamente em Puchini pronto para lhe virar a cabeça.

Jafarel gritou:

“Seco!! “

Nem fora necessário. O eunuco já se tinha lançado do alto da árvore sobre o gigante no momento do brado, desferindo-lhe mais golpes no pescoço. Decididamente queria também ser gente e era essa a oportunidade. O monstro, atordoado, tapou a zona afectada, libertando involuntariamente o italiano. E quando recuperou a atenção, vira dois cristalinos mirones de pupilas dilatas, de alguém que se arremessara para a sua cara, com argumentos para disputar o momento. E sucessivamente, recebe uma, duas e três naifadas executadas com precisão. Era o mesmo sujeito que teria feito o mesmo momentos atrás, mas que agora, como que tivesse detectado o seu ponto fraco, repetia a façanha com melhor destreza, mais certeira, mais letal. O gigante recuou e perdeu balanço, tocou na rede que caiu sobre ele.  

Desta vez o odor a sangue fez-se sentir nas narinas de todos. Jafarel arfava, com adrenalina à tona, estava pronto para a nova investida. E assistiu o mastodonte confuso, indo de encontro ora de uma árvore, ora de uma rocha, procurando sofregamente recuperar o seu tino e voltar para a luta.

Pompim, Puchini e Giga-Magica não escondiam o embaraço e surpresa que Seco lhes causara. Mas, a admiração pelo puto que se tornara adulto, marcou para sempre nessa noite de babalúa. Todos estavam prontos para o momento derradeiro, quando o monstro deu um urro de sofrimento, saindo do recinto com cara tapada, visivelmente derrotado.

Gritos de alegria ouviram-se no bairro, que até provocaram o latir de cães. Mas, foi por muito pouco, por deliberação dos três. 

“Temos o herói da noite. Merece o silêncio e discrição”, todos desviaram o seu olhar para um mesmo ponto e sorriram com manifesta cumplicidade.

“Obrigado malta, mas bravura temos todos, cada um no seu papel”. 

“Todos menos eu…” ouvia-se do escuro em tom mais baixo.

“Chico, pô… és um de nós!” consolava-o, Giga.

“Eu sei, mas gostaria de ter feito melhor”

“Estamos juntos, Chico”, Jafarel assegurou-lhe afagando-lhe o ombro.

“Ok turma, vamos deixar o nosso campeão jantar em paz!” –  risos de ironia.

“Jafa, aceito restos! Estou com tanta fome!”, Chico rematou, o que provocou mais risada. 

“Vamos todos … Pucho?”, interrogava Pompim.

Aspetta… ainda falta um” – todos viraram-se para Puchini, quando este chama para o escuro. “Seco?”

Não se ouviu som algum, mas sabiam que ele aí estava a observar e a escutar, como sempre fazia em todas as ocasiões da confusão.

“Estamos à tua espera, Seco … tempo di mangiare”.

 A folhagem então produziu som de movimento. Era intenso o seu olhar em Puchini. Não pestanejava porque sabia que também provara ter sido alguém nessa noite.

Graze!” 

Havia muito tempo que não sorria de coração, Seco olhou para a Lua e sussurou-lhe algo. Crê-se que, à sua maneira, agradeceu-lhe também.

Jafarel suspirava de alívio, ainda mal alcançando o real significado dessa noite para ele. Mas soube bem ter feito algo  com a malta. Soube ainda melhor ter sido o seu esforço reconhecido. Era altura de desfruir o seu momento.  

Daisy estava deitada no canto resguardado da vegetação. Sorriu quando Jafarel se aproximara.

“És o meu herói”. A cabeça dela roçou no seu pescoço. 

Lutou por esta noite, por este resultado, mas não acreditava que tinha o seu precioso troféu entre as mãos. E agora? Estremeceu de súbito ante esse pensamento. Ela aí estava toda para ele, derretida nos seus braços, à mercê da sua vontade, rendida à sua bravura. O que um herói faria de seguida? 

Hirto, Jafarel tremia por recear que qualquer movimento pudesse estragar a noite, que sabia ser dele. Deveria beijá-la já, por a mão no seu ombro? Encostar o seu nariz à sua face? Não podia ser assim, ele não fora educado para ser rude, um reles do bairro, ele era da família de gente boa, educada, com maneiras. As meninas são preciosidades que os meninos deveriam aprender a respeitar, há regras para tudo e até para o namoro. E …

“Jafa… estás à espera de quê?” ria-se dele que ainda cogitava a melhor forma de se aproximar dela. Por fim, não encontrava a solução com aquilo que aprendera. A memória não dava para tudo, e era impotente numa situação de emergência. Mas aprendera também do velho Leôncio dos lados do Seminário: “Quem está à rasca, ou vai ou racha!”

Virou-se para Daisy que ainda o mirava com olhos de pupilas dilatadas, e não foi de modas. Saltou por cima dela e antes que ela pudesse recuperar-se da surpresa, prendeu-a por baixo de si e ajeitou-se instintivamente.  Ela não mais podia mexer. Vulnerável ela exibia o seu corpo em total rendição, sem vontade alguma de se proteger. Ela queria o seu herói, que arriscou a sua vida e lutou por ela conquistou o direito de a possuir. Jafarel correspondeu. Num golpe penetrou-a. E há muito que o Lilau não ouvia tamanho uivo.

Por fim, feliz ela virou-se para ele, sorriu perante um Jafarel de olhos bem cerrados, tremelicando de espasmo. Sabia que o tinha também conquistado. O novo herói do bairro, o eleito para ser o pai da sua prole. Sentiu-o beijando-o e lambendo o seu esguio pescoço, enquanto ele se recusava a sair dela. 

“Vou-te ver de novo, amor?Sempre, a toda a hora, coladinho a mim? Não te quererei longe.”

“Mas tenho casa para voltar e…”

“Eu também, mas onde estou há lugar para ti e … para os nossos. Ai faremos tantos.”

“Daisy… falas a sério?”

“Nunca fui tão séria. Vi muito e muitos. Sem saber, andei à tua espera há muito tempo e chegaste. Não te largarei, nunca mais. Sou tua.”

Ele mirava-a seriamente. “E tu és meu!” acrescentou. Jafarel não sabia o que dizer ante a mulher do sonho de todos, que aí estava diante de si rendida à sua vontade. Porque algo arrepiante atravessou o seu esguio dorsal. Não vislumbrava o quê, mas algo inquietante o espreitava. Esta noite provou a sua valentia, já não era o moço do bairro como no dia anterior, deixara de ser o aprendiz que bebia sem fim os ensinamentos dos mais velhos. Ele virou gente com fibra e os seus pés pisavam solo próprio, sem condescendência de ninguém. Esta noite conquistara a dama do bairro que aí estava a seu belo prazer. Os tempos de limitação terminaram e agora os horizontes vão para além do que todos os dias podia pela sua janela. Janela essa que também se lhe abria agora para outras aventuras que jamais teria imaginado para si. Não podia, nem queria voltar para trás. Descobriu a sua natureza em toda a sua plenitude, um ser livre que só a morte pararia o seu ímpeto.

“Vou para a minha casa.”

“Então vou contigo”, ela espantou-se com a falta de reacção de Jafarel. “Já percebi, fui uma conquista e agora já sou passado. Porque todos são assim?!”

“Daisy” hesitava a prosseguir ante o anúncio de um pranto. “Não faço parte destes “todos”. Apenas despertei para um novo mundo onde tanto me espera ver. Eu quero vê-lo com olhos de ver, sem amarras”. 

“Não podes ver esse mundo comigo?”

“Daisy… peço que me perdoes, não nasci para ser egoísta, mas neste caminho tenho de andar e tropeçar por mim. Entendes?”

“Mas somos um do outro!”

“Tu és tua, Daisy e … eu sou meu”.

Ninguém deu conta de que entrara em casa, por onde saira.  D. Gertrudes lavava os pratos, despejava o resto de comida no caixote de lixo. O jantar foi rico e pesado como de costume, regado a vinho do melhor. Capela, mínchi, galinha chau-chau parida a rematar com um arroz-doce e baba de camelo.

– Isto vai ser uma jantarada para a malta! – Falava alto para os seus botões, ao arrumar cozinha referindo-se satisfeita de ter mais uma vez recebido bem. Era motivo de orgulho, a fartura de comida e o receber bem. Não se importava com o que se desperdiçava, o que interessava era que todos voltassem para as suas casas a lembrarem-se dos bons jantares da D. Gertrudes.

Cantarolava satisfeita que ele passou pela cozinha.

– Olha, onde andaste metido meu maroto? Agora deu-te numa de andares às escondidas? Ai… Como cresceste! – Sorriu docilmente e fez-lhe a festinha na sua cabeça, indo de seguida para a sala de estar. Passou pelo gira-discos e pôs a agulha a deslizar sobre o vinil sonoro. Sentou-se no sofá e a voz de Bobby Vinton entoou “Blue Velvet”.

Subiu ao regaço da D. Gertrudes. As suas mãos macias de mãe deslizaram suavemente no seu macio pelo castanho dourado. As suas orelhas em riste captava sons que não compreendia mas que lhe eram tão enternecedores. Até a cauda serpenteva ao som da música.

– Então o menino gosta desta música? Era a música que o Armindo adorava – sorria D. Gertrudes no conforto do seu habitual sofá. As suas mãos passaram pela sua perna e Maxi encolheu-se. 

– Que te aconteceu? Andaste às zaragatas? – brincava. – Ó Maxi!

Era a palavra a que se habituara a ouvir, quando a D. Gertrudes se lhe dirigia, calculou que fosse o nome que essa mamã lhe dera. 

– Não faz mal, mamã vai cuidar de ti.

Como ele adorava estar nesse regaço onde existia um calor inigualável que lhe aquecia a alma e lhe dava a certeza de segurança. Mas, essa noite ele deixou de ser o menino de olhos felinos da D. Gertrudes. 

A campainha tocou. Era o Boaventura, zelador da Câmara do Leal Senado, uma figura austera de cerca de dois metros de altura que, nas horas vagas e para proveito próprio, fazia biscates para os moradores do bairro. A sua arte consistia em afugentar a bicharada selvagem que pululava pela vizinhança. Cães rafeiros, gatos vadios, ratos, cobras e lagartos, nada escapava à sua mão exímia. Os seus favores eram muito apreciados, especialmente em noites de lua cheia, em que, segundo se contava, até os loucos ficavam mais silenciosos, tal a lenda que o Boaventura criara. 

– Boa noite, D. Gertrudes. Foi só para lhe dizer que vou para casa e é tudo por esta noite. Acho que não vai haver barulho, corri com eles todos.

– Muito obrigada Boaventura, você é tão trabalhador. Venha, vou-lhe oferecer uma cerveja… Olhe, quer jantar? Posso aquecer a comida. Tenho mínchi e…

– Agradeço imenso, mas estou cansado. É melhor ir para casa.

Boaventura era pessoa de poucas falas e um frio executor de tarefas que lhe eram incumbidas. D. Gertrudes reparou que ele arqueava e depois de o observar melhor, viu um arranhão enorme que lhe atravessava a face já de si rugosa e outras escoriações pelo pescoço, orelhas, no antebraço direito, vestígios inequívocos de luta séria.

– Abrenúncio, você está ferido! Nossa Senhora, deve ter lutado com um tigre!

– Era um bicho enorme com umas garras como nunca tinha visto. Safado o bicho, atirou-se a mim como se eu lhe tivesse roubado a dama!

A pintura que na mente da D. Gertrudes se formava era a de uma pantera em transformação num leão esfomeado, ante os pormenores que o arranhado zelador alimentava.

– Coitado. Espero que tenha corrido com ele – abriu a sua bolsa e retirou de lá umas notas, dinheiro da sua contribuição. 

– Dei-lhe uma sova grande, pode ter a certeza. Nem passe pela sua cabeça voltar, que logo o reconhecerei e assarei vivo!

Maxi contorcia-se, o seu pêlo eriçava-se.

– Credo, Maxi –  apertava-o com ternura.  

– Ó pequerrucho, tá quieto, não é contigo! – zombava Boaventura, enquanto sorvia o copo de água fresca.

– Você é uma jóia de pessoa, Boaventura. A sua esposa deve ser muito orgulhosa de si. 

– Sou um homem feliz ao serviço de todos!

Boaventura ria-se de orgulho, que sabia ser aparente nessa noite. Quanto mais se gabava, mais quilos ganhava a sua consciência, sobretudo, ante o olhar discreto mas penetrante do franzino Maxi ao colo da D. Gertrudes. 

O sino de S. Lourenço repicava horas, quando já na rua, contava o dinheiro que recebera nessa noite. Parou e levantou a cabeça. Quanto mais atentava para a Lua, mais esta contundia a ferida no olho. 

Lembrou-se então de Maxi. Ia jurar que já o vira algures. Mas, depois meneou a cabeça. 

– Nah, coisa mais parva, essa! 

Até porque nunca compreenderia que pudesse usar o nome Jafarel.

(1) Zona antiga dentro do bairro de S. Lourenço, onde se dizia existir uma fonte cuja água faria o seu bebedor retornar a Macau.

(2) Guloseima chinês, confeccionado com arroz glutinoso, com carne seca e ovo salmoirado, embrulhado em folha de lótus e servida por alturas da festa de Duanwu (端午節), no quinto dia do quinto mês lunar do calendário chinês.

(3) Lua cheia, em crioulo macaense.

(4) Poema do autor. “Lua cheia, lua cheia/ luz do meu coração/ sempre que estejas cá fora/ não terei mais preocupação.

Macau, 25 de Outubro de 2019, Sexta Feira.

@Miguel de Senna Fernandes

UM CONTO DE CAPA VERMELHA

A BRISA descia suavemente pelo vale trazendo a fragrância do pinhal e da flora conífera, naquela manhã de Outono. O odor a terra e do folhado ainda por secar do orvalho da noite passada, bem presente nessa manhã de tempo fresco e seco. Em casa, Alba preparava-se para a caminhada.

Já não fazia isso havia três anos, por se ter decidido ser melhor para os cuidados de que necessitava. Não é fácil para quem tenha nascido com pigmentação cutânea praticamente inexistente, com as deficiências conexas. As alergias, o estrabismo, as câimbras abdominais carecem de cuidados constantes, que uma vida isolada no campo ou floresta não proporciona.  Mal grado, se a cidade potencialmente tem tudo, falta-lhe o natural, que os jardins públicos, os canteiros e floreiras das varandas não substituem.

albina5Deu-se mal.

Até porque era diferente de outras crianças, que ao menos … tinham cor. Uma vez perguntara a mãe porque ela se chamava Alba. Fazendo festinhas na sua testa, respondeu-lhe “porque caíste numa tina de leite e te transformaste na menina branquinha de caracóis louros mais linda deste mundo que amo tanto”. Sempre achou pateta essa explicação, mas vinha de sua mãe que lhe derretia o coração, que imaginava gélido como a sua pele sugeria. Foram, não obstante, três anos depressivos e não havia outro modo que apanhar o comboio rumando à casa. As alergias do campo, passaram a ser um problema secundário. Preferia tê-las a estar no burgo, onde domina o artificial. Fez treze anos e decidiu que tinha de voltar. Ao seu verdadeiro lar.

Precisava de ar fresco, de correr pelo vale, rolar-se pela grama do jardim natural, mesmo à porta da sua casa. Precisava de encher os seus pulmões, absorvendo tudo o que a natureza lhe pudesse proporcionar cada vez que inalava o perfume que a aragem outonal lhe trazia.

Retomaria nesse dia o hábito de visitar a sua avó, que morava no lado oeste da sua casa e que se recusava terminantemente a deixar a sua vida solitária, numa altura em que já levava sobre os ombros setenta e tantos anos. Para Alba, ainda bem que fosse assim. As suas visitas não eram mais do que um pretexto para percorrer a floresta. Preparou com esmero tudo o que era necessário levar. Cantil, saco para os primeiros socorros, cremes para alergias, repelente e alguns artigos de caça, como a sua fisga e seixos.

A temperatura ameaçava baixar. A mãe aconselhou-a a agasalhar-se, não fosse o vento piorar a tosse, que já trazia da cidade.

– Que é da minha capa? – Perguntou à mãe que de início não entendia – Aquela cinzento-esverdeada.

– Ah, despachei-a há dias. Estava muito gasta e cresceste. Mas, comprei-te outra, vais adorar!

Alba ficou chocada quando a viu. Era de vermelho vivo.

– Ó mãe, o que foste fazer! – Protestou.

– Mas, esta cor é lindíssima!

– O que vou fazer feita uma arara numa floresta como a nossa?!

Não havia escolha, porém. Ou envergaria a capa ou seria indefinidamente adiada a caminhada. Num gesto brusco de revolta, enfiou a repugnante vestimenta, seguindo-se a mochila, zarpou da casa sem qualquer despedida.

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Conhecia a folhagem, o perfume da caruma, a gradação dos verdes, dos castanhos que se alaranjavam primeiro nessa altura do ano. Escutava o murmurejar da floresta ao sabor dos ventos, maravilhava-se com a miríade de cores que a luz do sol criava ao penetrar por entre as árvores. Conhecia a toca dos pequenos esquilos e de outros roedores que saltitavam pelos troncos e ramos, os coelhos do bosque e as lebres, reconhecia as nuances do caminho pelo coaxar dos sapos, o grasnar das aves do rio, chegaria perto do daquele troço com água corrente com o crocitar dos corvos. Sabia dos caracóis, dos lagartos e centopeias. Dos melros e rouxinóis que mudariam de melodia consoante o temperamento do céu. Céu este ostentando-se azul, palco do majestoso vôo das águias, falcões e outras aves de rapina.

No temporal, ela transformar-se-ia numa gigante caixa percussão, com a batida das gotas de chuva, fazendo-se acompanhar do ribombo da trovoada, e de mais outros sons dos animais saudando a água que lhes é benta.

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A noite era para outros inquilinos, que se manifestavam sob a forma de pios, arrulhos, zumbidos, sibilos, ora prolongados, ora ritmados, e de outros sons que a escuridão tornava mais audíveis, melopeia que acompanharia o cricrilar dos grilos e a dança dos pirilampos, sob os auspícios das estrelas ou da Lua, que regularmente prendava com uma visita casamenteira.

A floresta viu-a crescer. Sorriu-lhe desde o dia do seu primeiro piquenique com a mãe junto ao rio, quando deu os primeiros passos, despertando a curiosidade dos pequenos peluches. Nesse dia o canto da passarada ouviu-se como uma sinfonia, donde se surpreendiam camadas de chilreio, cada uma com o seu motivo e ritmo, mas todas fazendo parte de um todo harmónico, talvez pelo vislumbre por aquela criatura humana tão frágil, tão à mercê de tudo à sua volta, tão branquinha a que a floresta se iria habituar.

Não poucas vezes, as árvores escutaram os seus lamentos, pensamentos em alto, os seus desejos, conversaram com ela nos seus sonhos. A sua condição de ser diferente do próximo aproximou-a do seu meio. Aí todos os animais eram diferentes e ninguém se importaria com a diversidade que a natureza para cada um determinou.

Todos pareciam entendê-la, pela linguagem que ela emanava, ao passar suavemente por eles. Criava nomes para alguns que encontrava, inspirados das fábulas e contos mágicos que devorava avidamente. Havia então a aranha Myriam, a gazela Mahalia, o cágado Kapo, os irmãos texugos Saxo e Phonix, e tantos outros que lhe eram especiais. Visitava-os constantemente no seu meio, falava-lhes. Desde novinha sabia que deitada no chão eles se aproximariam, talvez porque assim a considerariam à sua altura. Eles eram o seu próximo, algo que sentido algum faria na vida da cidade.

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A floresta foi a sua escola, onde aprendeu a subir pelas árvores, proteger-se das intempéries do tempo, a fabricar utensílios de defesa, lançar dardos, fazer uso das rochas para fins mais diversos. Compreendeu tão simplesmente que a vida era para se manter até o último reduto das nossas forças. Quem isso menosprezasse não contaria jamais para  a Natureza. Deixaria pura e simplesmente de existir.

Contudo algo mudou, não viu mais ninguém conhecido. Não ficou triste, todos eles têm o seu tempo de vida, é natural, pensou. Mas, havia sons diferentes. Eram de tensão, de desespero, gritos de fuga. Ouviam-se também os estampidos que vinham do outro lado rio, mas ecoavam pela floresta adentro, algo pouco frequente nos outros tempos. O quê teria causado estes estouros repetidos? Reflectia a menina alva de capa vermelha pelo mundo verde à sua volta.

Por entre a ramagem densa do bosque, duas pupilas amarelo-esverdeadas fixavam-na, estudando a sua compleição física, a sua agilidade e conhecimento do terreno, registando todos os seus movimentos, seguindo o seu trajecto. Alba tinha razões para se irritar com o escarlate da sua capa. Wolf-Stare

Kika não arfava, pelo contrário reduziu a intensidade da sua respiração, retesou os seus músculos, prontificando-se, ora para dar o salto sobre o seu alvo, ora para se escapulir em caso de necessidade extrema. Calculava a energia para um ataque bem sucedido. Não seria fácil estando só, longe da sua alcateia. Ademais, estava ferida, consequências de uma derrota na disputa por uma carcaça de um pequeno javali.

Não comia havia cinco dias e uma das suas quatro crias morreu e levado por um milhafre para alimentar os seus. A caça popular e desenfreada a certos animais do outro lado de vale, provocou uma procissão de atiradores e a subsequente a maciça imigração dos lobos, os quais já começavam a ameaçar a zona outrora pacífica para onde se dirigia Alba.

Kika seguia a menina com a mestria que a natureza lhe dera, os seus passos eram pausados, por entre os arbustos, pousando as patas com a instintiva certeza de que não estorvaria o silêncio. A certa altura pausou. Observava atentamente Alba, a qual também pausou para tirar algo da sua mochila. Podia ter atacado nesse momento, mas hesitou. Queria saber que mais a menina tinha para lhe surpreender.

Da mochila saía uma rede de arremesso ladeada de pesos, que ela tinha criado anos atrás para caçar perdizes e codornizes. Ainda se lembrava da técnica que certos pescadores do rio lhe tinham ensinado e que consistia em lançá-la por forma a que os pesos se dispersassem em direcções diferentes, abrindo-a sobre a presa.

E estava uma perdiz ao alcance, debicando os grãos de milho que previamente ela tinha lançado. Posicionou-se com a rede e esperava que a galinácea desse mais uns passos para a frente. Sem saber, fazia o mesmo a que Kika se preparava em relação a si. Sem saber ainda que as pupilas amarelo-esverdeadas focavam no seu pálido pescoço, vulnerável agora que ela se agachara à espera do assalto à perdiz, no perfeito ângulo de assalto.Wolf-Stare02

A adrenalina disparou, enquanto os músculos peludos alimentavam-se de sangue, Kika salivava sem se conter. Bastaria derrubar a menina com todo o seu peso e num golpe maxilar os caninos perfurariam a traqueia. Contraiu os seus membros traseiros que lhe dariam a força para se lançar à menina de vermelho. Respirou fundo e o desfecho viria no segundo seguinte. Foi quando Alba arremessou a rede.

Deu urros de felicidade quando viu a confusa ave a querer, em vão, desenvencilhar-se da rede. Conseguira a prenda para a avó, seria um lindo guisado que prepararia. Segurou na ave, agradeceu-lhe e pediu-lhe perdão. Por fim, para que não sofresse mais, torceu-lhe o pescoço. Enquanto contemplava a sua presa, sentiu então o calafrio. A sua visão lateral abarcava o vulto de um ser possante e algo lhe disse para não reagir já.

Os gritos de sucesso de Alba, soaram a raiva de frustração a Kika. Rangia agora os dentes, tornando-os bem visíveis, as pupilas pareciam assumir o tom alaranjado. Era o tudo ou nada. Ela tinha que investir, apesar da dor que ferida se fazia sentir.

Alba olhou-a de frente, franziu as sobrancelhas de espanto.

– Kika?

A loba pôde ver os seus estrábicos olhos azuis de cristal, a sua pele alva, o loiro encaracolado da menina do bosque, a mesma que tempos já idos a acariciara e a levara de novo para a toca de onde se perdera. Sem ela se aperceber, ganhara o seu nome, porque a menina nomearia tudo por que se apaixonava. Rosnava, não obstante, de dor, de fome, de desespero de uma mãe com petizes para alimentar e ao mesmo tempo em contradição com a memória sobre alguém do passado que dela cuidara. Não obstante, de modo algum sairia do sítio sem algo nos dentes.

– És tu … Kika? Estás com fome?

Instintivamente Alba sabia o que devia fazer. Retirou da rede a perdiz inanimada e colocou-a entre elas duas, e recuou mais um metro. Kika mirava Alba que baixou os olhos, como se tentasse a reconstituir tanto quanto possível essa memória da menina. A suculenta perdiz, porém, foi mais eloquente. Assim, sem perder tempo, avançou e abocanhou a ave, retornando-se à sua posição inicial. No entanto, não saiu do lugar como se esperava. As suas orelhas deixaram de estar em riste e começou a arfar.

Alba fez um movimento de aproximação e Kika manteve-se imóvel.

– És mesmo tu, amiga. Estás tão grande e … estou a ver que já tens filhotes – sorriu.

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Então reparou na ferida. Tirou a capa, arregaçou a manga, desnudando assim o seu braço e, lentamente, estendeu-lhe a sua mão nua. Era um gesto de paz que aprendera a usar. No momento certo acariciou a cabeça peluda da loba, começando por dedilhar o pêlo farto do seu crânio, passando pela orelha. Por fim pousou a sua palma sobre a nuca ao mesmo tempo que Kika baixava completamente as orelhas. A loba ganiu de amuo, mas de afecto também.

– Vai doer um pouco, mas ficarás bem.

Esganiçou quando sentiu o desinfectante a derramar-se sobre a ferida. Rangia os dentes, mas não reagiu contra menina. Sabia que ela estava aí mais uma vez por ela e que mais uma vez ela se curaria. Alba tirou gaze da sua bolsa de socorros e enrolou-a à volta da sua perna traseira magoada. E afagou-lhe a cabeça e o focinho quando deu por fim o curativo.

– O que vieste cá fazer? – Aproximou-se do nariz da loba e deu-lhe uma lambidela, ao que esta retribuiu do mesmo jeito.

Ao longe ouviu-se mais um estampido de caçadeira, seguindo-se o uivo longo e melancólico. Desviou o seu olhar, levantou-se e tentou, em vão, localizar a sua proveniência. Quando retomou a atenção, Kika tinha já desaparecido.

Alba ficou feliz por este reencontro fortuito e pensou no que teria sido de Zorka, um lobo macho que também encontrara quando pequeno.

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No outro lado do vale, eram mais de duzentos, num tempo em que gerações de lobos se estabeleceram e procriaram. A fauna era abundante que daria a todos um espaço para a sua vida, num micro-clima onde as condições eram favoráveis a um modo relativamente sedentário de se estar, não obstante à migração sazonal das espécies. Era o local onde ninguém iria, uma espécie de santuário destes cães de uma inteligência especial, altamente organizados, letais quando o instinto obriga.

Tudo mudou quando se deu a conhecer que aquela parte do vale, o clima produziu animais com características naturais especiais, cuja carne seria bem mais benéfica para a saúde do homem do que qualquer coisa adquirida nos supermercados ou nos talhos da vila. Rumores ou meros golpes publicitários, o certo é que se gerou uma curiosidade doentia que passou a enriquecer lojas de venda de artigos de caça. Toda a gente passou a arvorar-se em ter estado nessa parte do vale. Fotografias da caçada passaram a exibir-se nas redes sociais, alimentando ainda mais o apetite, já aguçado pela inveja que se causava em uns e outros.

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Começaram a escassear coelhos, lebres, animais de maior porte como gamos, javalis, cujas cabeças acabaram embalsamados, para abrilhantarem paredes de muitas casas como troféus. Nalgumas lojas da vila começou-se a comercializar peles de linces, que diziam ser do vale, numa afirmação de orgulho pelos produtos naturais da localidade.

A procura do alimento causou rivalidades na alcateia. Vários machos emergiram com potencialidade de liderarem e luta pela liderança, instalou-se a disputa e ela tornou-se sangrenta. A fome não simpatizava nenhuma das facções, antes arrasou tudo e o vale registou mortandade entre os lobos. A fome empurrou vários para o fratricídio e canibalismo.

Zorka viu o seu semelhante dilacerado por outros lobos e a sua despedaçada carcaça ser também motivo  de outras lutas. Viu fêmeas e crias a serem o manjar de alguns. Brigou com outros por causa de uma pata de um companheiro de caça.

Mas nada parecido com o que vira de outros animais que andavam empinados. Estes empunhavam algo, do qual saía um som aterrador e que provocava fogo. Foi numa altura em que os lobos resolveram atacar as povoações isoladas, contíguas ao seu território. O corpo desfeito de uma criança foi encontrado numa gruta com marcas evidentes do seu autor. A guerra homo-lupina não tardou a estalar.hunting03

E foi assim que o chefe do seu grupo morreu. Não por luta, pois não envolvia dentes, nem táctica. Não havia contacto físico. O seu chefe vencê-las-ia todas. Porém, desta vez  a sua glória terminou na rede que o tramou na fuga que o grupo um dia fez destes macacos pelados. Instalou-se o cerco, o chefe avançou sobre um dos caçadores, atraindo a atenção dos restantes. Zorka conseguiu, porém, desviar-se e levou o resto do grupo para um local mais seguro. E de longe observou como o chefe gania quando levou com o balázio de várias armas. Não fez barulho nenhum. Os seus olhos irradiavam a frieza de um sobrevivente que fazia questão em se manter vivo. Mirou os seus companheiros e todos entenderam que ninguém faria nada sem um sinal do novo chefe.

Fez-se noite e então Zorka ululou, incitando outros a fazer o mesmo. Era o uivo de luto, mas de desafio também. Os pelados estes sabiam como caçá-los, por isso para sobreviverem teriam que ser mais rápidos que eles, mais fortes e organizados. Mais mortíferos. wolf-pack02

Nessa mesma fuga sete lobos seguiram-no e ao longo de meses atacaram casas, levaram cães de guarda, galinhas, coelhos, cabras e mais animais de criação. No dia em que deu pela casa da idosa Adelaide, só lhe restaram dois companheiros, tendo uns sido mortos a tiro, outros capturados nas armadilhas metálicas espalhadas pela floresta.

Zorka e outros dois rondaram a casa por fora, certificando-se de que ninguém estava presente. Um deles subiu ao alpendre, dirigiu-se à porta de madeira. A sua pata pressionou e ela abriu-se, com o silêncio a que se habituara a usar, entrou. Mas não estava só.

– D. Adelaide, não pode viver assim. Perdoe-me a indelicadeza, mas a sua idade requer um cuidado pessoal. Esta casa está isolada e já não é segura.

– Bert, agradeço a tua atenção. Sempre cuidaste de mim depois do meu Lou ter partido. Mas estou bem, graças a  Deus. O vale foi me sempre bom e deu-me tudo o que preciso para viver – sorriu ternamente.

– Andámos a correr com os lobos e não há meio de os dizimar. Eles têm sido bastante aguerridos e arrasam tudo que mexa sobre patas.

Adelaide encolheu os ombros.

– Faríamos o mesmo se nos tirassem o pão, não achas? forest02

– Seja como for, D. Adelaide – suspirou – todo o cuidado é pouco. Eles atacam na calada e estão cada vez mais inteligentes. Lembram-se de muita coisa, o que é espantoso.

– Que mais podem querer com uma velhota como eu? – gargalhou.

– Não brinque. Você é uma das pessoas mais queridas aqui do vale! – Ripostou com um sorriso condescendente – em todo o caso já montei um sistema de alarme. Em caso de necessidade é só carregar no botão e estaremos prontamente aqui.

– Muito bem, Bert. Obrigada pela visita. Descansa que cumprirei à risca o que me recomendou.

– Não é uma recomendação, D. Adelaide. É uma ordem! – O lenhador deu-lhe um beijo na testa e saiu.

Adelaide acompanhou-o à saída e ficou no alpendre até a carrinha desaparecer da sua vista. Porém, antes de regressar para o interior sentiu um calafrio.

wolf-teeth-1Dois lobos estavam atentos, um deles especialmente robusto e pardo, orelhas em riste. Num ápice fecha a porta da sua cozinha e inicia a trancar as janelas, quando o rugido que vinha dentro da sua casa a paralisou. Instintivamente segurou numa faca e virou a sua cara em direcção à origem do som. Não teve tempo para se horrorizar, o animal lançou-se sobre ela e ferrou-lhe no braço com os seus dentes pontiagudos. A dor teria sido lancinante, mas no momento a luta pela sobrevivência falava mais alto, sobretudo quando o predador estava em cima dela, os caninos rasgando a carne do seu membro.

Nunca imaginara que pudesse ver o último momento da sua vida sob uma besta que a devoraria de seguida. O lobo libertou então o seu braço sangrado, abriu a sua boca preparando-se para o golpe final. Adelaide nunca vira dentes tão aguçados e horrendos, nem nunca cheirara o bafo gutural de um animal. Mas decidiu que não seria carne para ninguém, muito menos para lobos. E no momento da última investida do esfomeado animal, Adelaide usou toda a força que tinha e golpeou o pescoço do atacante, repetiu outro na cara do animal que se soltou do corpo da idosa. A adrenalina que lhe restava ainda foi suficiente para desferir um derradeiro golpe que atingira na articulação do seu membro dianteiro, perfurando o coração. O lobo soltou o uivo pela vida que se esvaía naquele instante.

blood knifeAdelaide com custo conseguiu dar uns passos em direcção ao alarme e ouviu o estrondo de quem se tinha introduzido na sua casa. Preferiu esconder-se na despensa, fechando a porta o mais levemente possível. Sentia o coração a bater como que esguichando o sangue pela ferida que se abrira. Contudo, não podia fazer barulho, sobretudo quando escutou passos dentro da sua casa. Fechou os olhos e rezou.

Alba estranhou o silêncio quando entrou em casa da avó, estando as janelas abertas. Caminhou de surdina, para não surpreender fosse o que fosse. Não viu nada de anormal quando passou pelas salas de estar e de jantar, que se mantiveram arrumadas com todos os adornos no sítio, tal era a meticulosidade da D. Adelaide. O mesmo aconteceu no quarto de dormir. Dirigiu-se então para a cozinha e aí viu a porta traseira aberta, uma janela por fechar. Começou por reparar uma desarrumação fora de normal. Havia pratos e talheres no chão, a toalha de mesa fora da mesa, uma cadeira às avessas.

E por fim, sangue. Dedadas a vermelho nas bordas da mesa, no soalho, resquícios de luta, marcas de garra. E num canto, estava um animal peludo prostrado sem vida expelindo uma poça sangue.

– Avó! – Bradou aflita. Avó estás aí??

A porta da despensa abriu-se e Adelaide apressou-se a avisar a neta do perigo. A sua mão sangrava ante o olhar horrorizado da menina. Dirigiram-se imediatamente à porta traseira, mas deram com os dois lobos barrando a saída, mostrando os dentes prontos para se usarem. O odor a sangue atiçou ainda mais a ferocidade dos dois que as cercaram. Adelaide, não obstante o desgaste físico a que se obrigara momentos antes, apertava o cabo do facalhão com mais força, protegendo Alba, enquanto esta sacava do seu bolso a sua fisga. blackwolf

O olhar de Zorka era frio, no entanto lia-se nele a determinação de matar. Guardando a porta, fez sinal. O outro não se fez de rogado e rangeu os dentes, retesou os músculos e avançou. Não compreendeu o que a menina fazia com a fisga direccionada a si. Por isso, não viu, nem pôde ter esperado que um seixo fosse disparado e em menos de um segundo lhe perfurasse um dos olhos. O lobo pulou desorientado pela dor e pela visão ofuscada. Ainda assim não desistiu, os seus maxilares abriram-se em toda a sua extensão, prontos para abocanhar, projectando-se às duas, com um rugido hediondo, quando mais um seixo era catapultado, desta vez directamente para a sua garganta. Desequilibrou indo de encontro com as duas, mas sem as morder. A ferida tornou-lhe impossivel fazer uso da boca  como a Natureza previra para ele. Não uivou, produziu antes um som abafado de agonia, tossindo sofregamente sangue, antes de tombar no chão.

Aproveitou-se do hiato em que Alba se ajoelhou, tentando recuperar a fisga, caída no chão depois do embate anterior, e aproximou-se. Mas, não de frente. Quis ele dar-lhe a conhecer o seu porte, num gesto de intimidação. Moveu-se ante as duas num vai-vem sereno. Em modo frugal mirou os dois companheiros, surpreendentemente arredados da luta, mas sem dar mostras de alguma preocupação. Exibia o seu pêlo farto, escuro, orelhas em riste, peito robusto, a cauda virada para cima. Andava como se risse da situação de desespero das duas peladas que certamente tombarão a seus pés. Andava como um chefe que daria luta até o fim.

Alba sacudia-se de medo, mal imaginando ter tido a coragem de fazer uso da sua arma. Não obstante, estar desarmada pôs-se à dianteira apesar do protesto da avó e olhou frontalmente o lobo pardo.

Este então sentiu que era altura para terminar com tudo, quando cruzaram o olhar. Porém, para surpesa da menina, não agiu logo. albina-eyes

Os seus olhos gélidos fixaram-se nos cristalinos de Alba, como se estivesse a lê-los. A ponta das orelhas tremelicava em contraste com o seu olhar imóvel e Alba teve a sensação de ter ouvido um curto amuo quase inaudível. E imagens começaram a inundar a cabeça do predador. Numa delas aparecia um animal de pele alva, olhos sem pupilas, de cabeça com cor doirada, que lhe dava festinhas no focinho, lhe lambia o nariz. Animal descolorado que brincava com ele e que num dia de temporal o  socorrera quando a chuva fez desabar terra sobre a sua toca.

– Zorka … – balbuciou Alba, sem ter a certeza do que estava a dizer.

Adelaide quase a desfalecer, levantou o braço com o cutelo na sua palma, interrompendo o breve momento de devaneio do lobo, encarrilando-o de novo no seu propósito assassino. Zorka baixou a cabeça ao mesmo nível do seu musculado dorso, apoiado nos seus robustos membros, arqueia as suas patas traseiras. Os músculos faciais contrairam-se, as gengivas visíveis e os caninos brilharam. Como ele salivava.

Alba entendeu, fechou os olhos e esperou pelo rugido final.

O que lhe soou, porém foi um uivo agoniante. Abriu os olhos e deparou com Zorka na acesa luta com outro animal que cravara os seus dentes no glúteo esquerdo e impedia a investida. O lobo pardo rodopiou, servindo-se do comprimento do seu corpo para alcançar o seu adversário. Mas este não era menos ágil e conseguiu evitar ser mordido. Alba aproveitou-se desse instante para soar o alarme e apanhar a sua fisga. Olhou para o intruso e reconheceu.

Kika manifestamente menor em tamanho, travava um duelo fratricida com o seu oponente, que a todo o custo queria livrar-se da dentada na sua carne. Sabendo da voracidade do lobo macho, ela meteu-se no encalço da menina e veio para a proteger. Para Alba, foi a única explicação plausível desse ataque.

Zorka não suportou mais a dor e num momento de frouxidão dos maxilares, afastou a loba com uma patada. Sabia que a loba não daria gratuitamente por findo o duelo, teria que a imobilizar. Seguiu Kika para fora.wolf fight03

Ouviram-se ruídos de contacto físico, correrias, roncos ferozes, bramidos, ora claros, ora ofuscados, próprios dos momentos de luta com boca e dentes. Por fim um lamento longo de suplício, de quem fora atingido mortalmente. Seguiu-se um momento de calmia.

Alba tentou saber o que teria acontecido a Kika, mas Adelaide afastou essa possibilidade e ordenou que saíssem da cozinha por outro lado da casa. Era o que Zorka tinha também previsto. Esperou-as no fundo do corredor que daria acesso à sala de estar. Desta vez não hesitou e avançou com toda a pujança sobre elas. Poupou a avó que seguia à frente e foi rente à menina. Saltou e num ápice estava em cima de Alba, aprisionando-a com todo o seu peso. Alba inalou o forte hálito que vinha das suas entranhas, os dentes pontiagudos com resquícios de sangue, provavelmente da luta com Kika. Sabia o que lhe iria acontecer, um momento que vinha sendo adiado sucessivamente.

O lobo fixou novamente nos olhos vidrados de Alba. Escondeu as gengivas.

– Zorka … lembras-te de mim? – Sussurrou. O lobo não se mexeu, mas contemplava atentamente na menina. Alba não sentiu a agressividade esperada, porém não podia estar certa disso. Emitiu um som gutural agudo, a imitar um ganido. Fazia isto a cães, fez isso nos jogos que anos atrás teve com os dois lobos, rebolando-se pela grama. As pupilas do lobo ganharam cor.

Alba então arriscou. Fitando-o, fez um esforço e levantou a cabeça, ficando a centímetros do seu nariz. E antes que Zorka reagisse a essa acção, lambeu-lhe o focinho. E repetiu o acto, emitindo o mesmo ganido.

O lobo de repente levantou-se libertando Alba do seu peso. Manteve a sua cabeça junto à cara da menina, as orelhas baixaram, a cauda abanava-se lentamente. E lambeu o nariz incolor, a sua lingua subindo para as bochechas, permitiu que Alba afagasse a sua cara, a sua cabeça, sentisse a fartura do pêlo.

– Meu amigo. Lembras-te mesmo de mim, das nossas corridas, escondidas?

wolf kissZorka arfava agora, como um cão ao reencontrar um amigo. Correspondeu com um ganido uivante longo. E repetiu-o como se cantasse um hino de saudade, por alguém que o entendia e que pertencia ao seu mundo. E soltou mais um. E outro.

E ao iniciar o seguinte, ouviu-se um estrondo de caçadeira. Zorka baixou as suas patas traseiras como se sentasse.  Alba confusa, contemplava o lobo sem entender o que lhe teria acontecido. O lobo ganiu pela última vez.

– Não!

Seguiu-se mais um estrépito e bala atingindo-lhe um dos maxilares, perfurando o seu crânio.

– Zorka!! – bradou Alba, manchada de sangue do animal que acabara de a reconhecer. O lobo não teve tempo de fechar os olhos, mas Alba teve a certeza que ele a reteve na sua memória que agora acabava de se apagar.

– Por pouco! – exclamou Bert.

Certificou-se que um lobo estava morto, engatou a sua arma e deu dois tiros na cabeça do segundo que ainda vivia sofregamente.

– Que sorte nossa. Ainda bem que o alarme funcionou. Tu és um anjo, Bert! – Adelaide felicitou o lenhador, dando-lhe um abraço.

– Como lhe disse todo o cuidado é pouco. Este vale já não é o que foi. Agora vamos levá-la para o centro médico, vai ter de ser vacinada contra a raiva.

Aproximou-se de Alba que ainda estava agarrada ao inanimado monstro.

– Menina estás bem? Terás que ir connosco também, para ver se estás em ordem. Tudo acabou, estão ambas livres do lobo mau.

Alba ignorou o lenhador e desatou-se a correr para fora de casa. Queria saber da Kika.

Encontrou-a deitada por trás de uma vegetação circundante. Era visível o rasgo do músculo da sua perna dianteira.

– Oh, amiga. Olha o trabalho que tiveste. Voltaste por mim – as lágrimas corriam-lhe copiosamente. Kika não respondia, apenas a enxergava impavidamente.

– Menina afaste-se, está a escurecer e vamos ter de acabar o trabalho – interrompeu Bert.

O lenhador enfia dois cartuchos na sua caçadeira e prepara-se para dar o golpe final a Kika já prostrada.

0822-wolf-howl.jpgAlba travou a sua marcha, deu uma passo à frente e barrou-lhe o caminho.

– Não, por favor, ela não! Ela tentou salvar-nos. Rogo-te que a poupes!

– Ó menina, ela é apenas um animal. E é perigosa!

– Não estaria a falar consigo se não fosse ela!

– Animais são animais! Quando têm fome atacam. Nesta zona, os lobos não entram, é o sinal que darei. As pessoas têm o direito de viver em paz na sua casa, na sua terra!

Alba não ripostou. Mas era visível a ira nos seus olhos cristalinos.

– Isto tudo era terra deles! – bramiu – Para onde eles irão? Para uma reserva como os índios?!

O lenhador emudeceu. Não havia, na verdade, mais nada a dizer, apenas cumprir o que supostamente lhe era destinado a fazer. Encolheu os ombros e suspirou.

Fitou a menina seriamente e desengatou a arma.

– Que não volte a aparecer-me pela frente! – pousou a caçadeira sobre os ombros e afastou-se em direcção à sua carrinha arrastando consigo Zorka, o orgulhoso lobo pardo, outrora o terror do outro lado do vale e agora reduzido a um monte de carne, a ser posteriormente incinerado.

Quando Alba voltou, Kika tinha desaparecido.

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Nessa noite de céu límpido, a lua crescia fulgurante. A secura do tempo tornava mais visível a sua textura de crateras, ranhuras e manchas. Seria naturalmente brindada com o mesmo coro de sons e ruídos, cânticos nocturnos de animais e insectos com zumbidos e silvos, rastejos e cricrilos. Foi assim sempre, desde o início dos tempos.

Alba interrogou-se a saber como tudo isso foi possível. Pensou em Kika e Zorka e no que teriam os seus olhos visto, no que lhe diriam se pudessem falar. Se teriam mesmo se lembrado dela e se realmente lhe pouparam de um fim crudelíssimo para o ser humano, mas de todo normal para eles. Não haverá maneira de responder, por muito que se labutasse nisso. Subsistiria apenas a crença de que nem Kika, nem Zorka queria que ela acabasse como um lobo ditaria, porque no momento da verdade viram nela como um dos seus. Era isso que preferiria.

Mas sabia que não era uma história de fadas, onde vencem os justos, os bons e perecem todos os que lhes sejam maus. No estado da natureza, não há céu, nem inferno e não se purga coisa alguma. Não há razão, nem dever-ser. Há apenas uma ordem imanente de se estar vivo, independentemente das mutações e do fortuito que ela comporte.

De longe ouvia-se um uivo longo. Desejou que fosse Kika a ecoar-lhe um adeus.

Fechou o livro de “Bambi” e desligou a luz.

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Macau, 6 de Setembro de 2019, sexta feira

© Miguel de Senna Fernandes

O CORRESPONDENTE SECRETO

Olá Ilda

A Professora Lúcia disse a todos que hoje seria o dia do correspondente secreto e eu deveria escrever a alguém da nossa escola, sem assinar o meu nome. E explicar porque te escolhi.Penso que não tenho razões porque escolher outra pessoa. Espero que tenhas a paciência de leres isto, pois sou “bafo-comprido”. Quando não olham para mim, claro.

Pois bem.

Quando te vi pela primeira vez no começo das aulas, achei que não devia falar contigo, porque não terias tempo para mim. As tuas amigas estão sempre contigo e tens sempre muito que fazer. Riem-se de tudo quanto veêm. Nunca olharam para mim. Sorte minha, pois não saberia onde me esconder. Por isso sei que não dás por mim. 

Notei que tens uns lindos olhos. Quando fugazmente eles se viram para mim, vejo quão claros e intensos eles são, que me fazem amolecer. Parecem que me dizem algo, mas também imagino muita coisa. 

Mas, confesso, tenho fraquezas e fico com a cara vermelha se me olharem muito tempo. Detesto isso!

Quando sei que estás por aí, fico feliz e imagino-te bem perto de mim, a conversar comigo, a olhar-me nos olhos, a responder milhares de perguntas que teria para te fazer, a ouvir música. Não a dançar, porque não tenho jeito para isso e não gosto imaginar-te a rires-te de mim. 

Não posso esquecer do dia do nosso passeio escolar a Hong Kong. Fiquei surpreendido ao ver-te de sapatilhas, ganga e camisola vermelha, algo tão invulgar em ti. Estavas tão bem. De certeza que todos tinham os olhos em cima de ti. Os meus estavam também, embora não gostaria que reparasses que tinhas toda a minha atenção. Cansa muito olhar assim, mas não tinha outro modo. Vi um lugar vago a teu lado,  não tive é coragem de ocupá-lo. As tuas amigas não me perdoariam. Não sobreviveria à zombaria daquela “fantocheira” Patrícia. No entanto, escolhi o assento mais próximo possível de ti, ainda que remoesse de pena, pois a cadeira a teu lado permaneceu vaga. No Museu da Ciência, por um momento, estavas perto quando o Professor Germano passou pela secção dos esqueletos dos animais. Enchi-me de coragem e pus-me a falar sobre isso aos meus colegas da turma. Talvez assim pudesses também aproximar-te. Tive a certeza de que não tinha falado alto de mais, mas mesmo assim arrependi-me. Foi ridículo isso de me destacar, quando nem se quer disso deste conta.

Gostaria tanto que soubesses o que vem na minha cabeça

Nunca experimentei isso que se chama de ciúmes. Achei sempre que isso seria coisa ridícula de menina, até o momento em que senti o aperto do coração, quando vi o Afonso Vaz a dançar contigo, no baile do Natal. É indescritível como é essa sensação de perda e de revolta. Mas, o mais grave é que não sou ninguém, para sentir fosse o que fosse, não tenho estatuto no teu coração.

A carta não logrou sequer sê-la porque não chegou ao seu destino, parou antes num caixote de lixo junto à entrada da turma 9B, à semelhança de tantos outros papéis, embrulhos, pacotes e objectos sem importância, que aí se lançam ao abandono, por razões que ninguém se daria ao trabalho de saber.

Tal como aí se encontrava também um sobrescrito côr-de-rosa, dirigida a um “Rafael Augusto”, nele se incluía uma folha onde se lia qualquer coisa como: 

 Bom dia,

Estás bom, Rafa? Espero que não leves a mal que te trate assim, tal como os teus amigos o fazem.

Estou a escrever-te porque a Professora Mónica da minha turma, disse a todos que enviassem uma carta à pessoa da livre escolha de cada um. Hoje é dia do correspondente secreto, acho que a tua professora também vos disse para fazer o mesmo. Não poderia revelar o meu nome, referiu, mas teria de explicar porque te escolhi.

Julgo que não tenho razões para escolher outra pessoa. Espero que tenhas a paciência de leres até o fim. Não sou boa a sintetizar ideias e se calhar serei chata. É que, não sei se terei coragem de te dizer à tua frente o que sairá agora da minha esferográfica. Estou tão nervosa, acredita.

Quando te vi pela primeira vez no começo das aulas, achei que eras diferente dos outros colegas. Estes apenas queriam chamar atenção e faziam disparates sem graça alguma, mas tu estavas num outro mundo. Tinhas outras coisas na tua cabeça, com certeza, não parecias ter paciência para ninguém. Eu tinha que olhar muito para ti para ao menos saber se olhavas para mim. As minhas amigas são umas parvas, riem-se de tudo, pois tal como os rapazes, também querem chamar atenção. Mas, não tenho jeito para estas coisas e por isso, sei que não reparas em mim.

Contudo, quando consigo que me olhes, vejo naqueles olhos castanhos uma pessoa dócil, pronto para me ouvir. Tens um olhar tão intenso.

Fico feliz quando estás no recreio, no entanto nunca quis dar-te a impressão de andar a perseguir-te. Assim, permaneci sempre longe de ti. Mas, imagino-me perto de ti, a ouvir-te, a responder às perguntas que terias de me fazer, se é que existiriam. Dançarias comigo, embora saiba que os rapazes não gostam de dançar. Dançaria contigo de qualquer modo.

Gostaria tanto que sentisses um fraquinho por mim, nem sei como tive a coragem de admitir isso.

Lembro-me tão bem do nosso passeio a Hong Kong. No Museu da Ciência, pude escutar-te a explicar sobre o esqueleto dos animais aos colegas. Estava como sempre afastada, mas a tua voz soava bem ao longe. Nunca pensei que soubesses tanto e que falasses, pois sempre te achei distante a pensar noutras coisas. Nesse dia, chateei-me com as minhas  amigas. Tínhamos combinado ir de macacão azul, sapatilhas, meias brancas, eu de camisola vermelha, elas de outras cores. Achei uma ideia boa, pois podia usar outro tipo de roupa diferente do usual e, quem sabe, talvez pudesse chamar a tua atenção. Qual não foi o meu choque e embaraço, fui a única que assim apareceu no cais. Senti-me atraiçoada, pois detesto ser o foco de tudo. E proibi que se sentassem ao meu lado. No fundo, confesso, alimentava também esperança de que pudesses sentar-te nessa cadeira vazia. Não faz mal, ficaste umas cadeiras mais perto, dei-me por satisfeita. Ainda bem que elas estavam longe de ti, pois algo me diz que a mais espalhafatosa de todas gosta de ti.

Não penses mal de mim, com esta carta tão atrevida. Precisava de desabafar e o que melhor do que escolher alguém que tem a ver com isso tudo, sem que ele saiba quem seja eu? 

Precisava que soubesses, ainda que em vão, que no baile do Natal, não queria dançar com ninguém. Antes, ter uma oportunidade para conversar contigo e dizer-te tudo o que vinha na alma. Nunca bebi nada de alcoólico, mas precisei dele para ganhar coragem. Um deles conseguiu trazer vodka e bebi. Andei a olhar para todos os cantos à tua procura. E o Afonso não parava de por mais bebida no meu copo. Se calhar já sabes, essas bebidas ora põem-te triste ou então bem alegre, e eu não resisti. Dancei com o Afonso e senti que ele se agarrava a mim. A minha cabeça dava voltas e vi muitas coisas. Não tive a certeza mas fiquei  com a impressão de que olhavas para mim, e era triste o teu olhar. E de repente acordei e parei de dançar. Mas já não estavas. 

Se calhar nunca estiveste.  Queria tanto que soubesses.

Nunca o mesmo caixote experimentara tamanha revolução, como nesse fim da tarde. Na verdade, para quê vasculhá-lo, e recuperar o quê? O que passou ao abandono, nunca retrocederia à sua condição anterior. Mas, vira Rafa a confusão de papéis à volta do receptáculo, como se fora obra de alguém que, tal qual ele, quisesse à força reaver o que lá pusera. E para ele era uma questão vida ou morte, morte de vergonha, uma espécie de calvário que se adivinharia enfrentar, se por um infortúnio, a sua missiva caísse em mãos dúbias. Ainda que anónima, eles adivinhariam quem teria sido o autor, a chacota de que seria alvo e a depressão que se lhe seguiria. Que ousadia, foi aquela? 

As suas mãos remexeram, escarafuncharam a seu mando. Mesmo sem ver o que continha o caixote, ao menos tactear os objectos com a esperança de apalpar o sobrescrito, cuja textura já conhecera, depois de tantas noites a decidir se o deveria enviar. Ao cabo de quinze minutos de frenético resgate, suspirou fundo. Encontrou-o. O alívio sabia bem melhor que uma positiva a Matemática. Puxou-o para si, desinteressando-se do resto que a sua mão ia tocando no seu trajecto para fora.

E o sobrescrito não era o dele. Era de côr-de-rosa, com a letra que não era dele. Corou e sentiu o ardor nas orelhas ao ler o seu nome. Mas sentiu que não estava só no corredor naquele fim da tarde. Não se atreveu logo a ver quem era, mas já sentia uns olhos castanhos e redondos fitando-o intensamente. Nas mãos, a menina segurava a carta que ele andava à procura. 

Ilda sorriu-lhe.

 

9 de Agosto de 2019, sexta feira 

© Miguel de Senna Fernandes

NÃO MORRAS

Morri.

Tenho agora a certeza disso. Há um tempo que ando assim, sem substância, nem peso, numa inexorável leveza que me leva a pairar pela minha casa, olhando tudo à volta e de cima, numa existência volátil. Tudo é turvo, até o som das vozes é abafado. No início não ouvia a minha voz, a minha respiração, não me sentia.

Mas existo.

E sei disso porque vi um corpo inerte e dele me aproximei: tinha a cara que via todas as manhãs ao espelho. Nunca me vi de olhos fechados, mas vejo o que provavelmente o faz a Sara todas as manhãs quando acordava e me mirava com os seus olhos graciosos. Sim, tudo é turvo, pois é com esforço e determinação que me aproximo da minha mulher que já não me sente.

Já passei a fase de desespero, de desnorte, sem perceber porque não consigo reentrar nesse corpo inerte que eu sei ser meu e de me despertar nele como todas as manhãs, tomar o banho, fazer a barba, vestir-me, sair do quarto e ter o pequeno almoço à minha espera.6F630EB2-0939-4B43-B0D0-61AE1958CCD7-1798-000001C7631D7935

Porém, graças a um truque – chamemo-lhe de imaginação -, já consigo “ver-me” e assim, fazer de conta de que tenho membros, mãos, cabelo, etc. E sou do sexo masculino! Sim, porque uma vez ultrapassando a fase de aceitação da nossa condição etérea, as coisas tornam-se mais simples, vemo-nos e sentimo-nos com mais acuidade. Abstraímo-nos depois da nossa real situação e construimos um mundo e um físico à nossa volta! É assim aqui, julgo.

Não é fácil e já dei por outros como eu, que circulam por aí como presenças perdidas, uns tão confusos como eu no início, outros mais inteirados do seu estado e por sinal, mais resignados. Mas todos tristes neste purgatório, onde não se sabe se é céu, se já é inferno, nessa existência intermédia entre a vida mortal e a badalada eternidade, num vaguear errático sem fim, em busca de uma resposta à nossa condição de mero ente. À procura de quem nos possa ouvir. Estamos tão sós.

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Como eu queria falar com a Sara.

As horas não passam se é que se pode falar delas. Não consigo precisar a sequência dos eventos, o que veio primeiro ou o que passou a depois. A ausência de referências temporais torna difícil lembrar das coisas.

Numa das ocorrências, por exemplo, vejo muita gente a aparecer. Ora sós, ora acompanhados, fazendo vénias e salpicando a fotografia com água. Caras conhecidas mas tudo muito nublado. Sei quem são, e estão aí por causa da pessoa retratada. E mais uma vez me reconheço nessa fotografia. Lembro-me então que isso é funeral. O meu.

Mas o que me interessa é Sara. E ponho-me ao lado dela, sempre que a localizo, olhando todos os seus movimentos, seguindo-a de perto sem querer perdê-la de vista. Já desisti de chamar por ela, pois sei que não me ouve. Mas ao menos ter a esperança de que ela dê conta duma presença a seu lado, que o ar crie uma brisa com a minha passagem, para banhar a sua beleza.

O normal seria as pessoas ignorarem-me, ademais, nem dão por mim. Todavia, há uns que me enxergam, com aquele olhar que não deixa dúvidas de que existimos para eles, como aliás aconteceu, nessas que foram as minhas exéquias. No entanto, não consigo chegar-lhes a fala, não sou uma borboleta, nem bicho raro que sobrevoa o recinto nessas ocasiões. Não consigo pedir-lhes nada. Nada para os ouvidos da minha Sara.

Ghost-Hand-Hero-1500Estou a tentar lembrar-me do que aconteceu. Foi uma dor intensa no meu peito, julgo. Tenho a impressão de que estava em casa e li uma coisa qualquer, sem poder precisar, neste momento, que relevância isso tem.

Mas não consigo concentrar-me por ora, pois a Sara não pára de andar de um lado para o outro. Não quero perder-lhe o rasto.

Vejo-a sentada na cama. Deve estar cansada, pois o dia foi demasiado pesado, calculo. É obra ter de aturar tanta gente e suportar os abraços, beijos, palavras de conforto e de solidariedade, flores, tudo para resgatá-la do desgosto que, afinal, só ela compreende em toda a sua extensão. Suponho que tenha chorado, mas não tenho a certeza. A névoa não me permitiu presenciar isso, se calhar ainda bem. Mas aí está ela, sentada na borda da cama, cismando. Não sabia quando ela começou a fumar. Quando começou a beber. Os cigarros sucedem-se assim como os goles dessa bebida amarelo-bronzeada, que me lembro se chamar uísque.

whiskey-tasting-1-700x461 (1)Levanta-se e verte mais um pouco desse néctar no seu copo, servindo-se de um gole, enquanto despe o negro do seu corpo. Leva a bebida – e a garrafa, suponho – e entra na casa de banho, onde a água já jorra sobre a tina.

Nua, Sara sente-se na borda da tina com o copo renovado de bebida. Com a outra mão tapa a cara, enquanto franze a testa. Sei que soluça. Sorve-o uísque num trago e de seguida introduz-se na água, que calculo ser morna. Ela não se mexe, de quando em vez os seus dedos tacteiam os seus seios, o seu joelho, em gestos lentos e suaves, enquanto a água jorra sobre o dorso dos seus leves pés. E mais um gole atravessa a sua garganta, visível quando estica o seu esguio pescoço ao pousar a sua nuca sobre a borda da banheira.

Que saudades tenho desse corpo que me invoca tantas imagens, dos dias em que tinha mais tempo para ela, em que eu era um ninguém, sem os títulos executivos, sem as viagens prolongadas que tinha de fazer pelo mundo fora, em troco da fortuna imensa que fui fazendo. Dias de chau min com coca-cola, van tan min no velho Vai Kei, beijocada, marmelada e tanta cumplicidade marota ao escuro do CineTeatro.

Saudades da nossa cama, das unhas compridas a arranharem desenhos do imaginário no meu peito, das pupilas dilatadas desses seus olhos nos meus, quando por cima dela e encharcado de suor a possuía loucamente, desses dedos de pé que me faziam festinhas nas têmporas, enquanto se reafirmavam com ardor as nossas juras de amor.

sleeping bath2Mais um gole. E ela repõe o copo vazio com mais bebida. O seu olhar é cada vez mais vago, inerte, sem destino. De solidão, de derrota. De desintegração. Gostaria de penetrar na sua cabeça para saber o que sente, ao menos para aplacar o que pesa dentro dela. Ao menos para lhe dizer que sei o que é estar só.

Enche o copo mais uma vez. Mas desta vez acaba por não beber nada, porque deixa a bebida entornar-se no seu peito. Seus olhos semicerram e resta pouco para fecharem completamente. Pressinto que algo de mau está prestes a acontecer.

O seu corpo cede e começa a deslizar-se para dentro da água, sem que ela tenha noção disso. Ou será que tem?

Imagens do regresso da minha longa ida ao Brasil aparecem. E lembro-me da minha promessa – mais uma – de que a viagem seria a última do género e me dedicaria de futuro só a ela. Fiquei aí mais uma semana do que o previsto, por causa de uma reunião executiva de alto nível, marcada à última hora, “a que não podia faltar”. Vejo-me a entrar em casa e a estranhar o silêncio, enquanto pouso a bagagem. Dirijo-me ao quarto, impecavelmente arrumado. Solto a minha gravata e quando a coloco no armário deparo com a ausência do seu vestuário.

Sara agora não desperta, a sua cabeça imersa na água que não pára de encher a tina.

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Visões assaltam-me agora com mais persistência. Em casa deixa-se de haver rasto da minha mulher. Ligo para os telefones que conheço, mas nenhum dá sinal. Procuro a informação que me leve ao menos a calcular o seu paradeiro. Em vão.

E aparece-me um bilhete sobre a cabeceira, sobre o qual pousa o seu anel de casamento.

“Fernando,

Quando leres isto, estarei longe de ti. De vez. Perdoa-me a fraqueza, mas não aguento mais. Não posso viver assim. Custa-me a escrever isso, faltam-me palavras. Não vou desenvolver mais, pois não quero que me falte a coragem de dar este passo.

Encontrei outra pessoa.

Até sempre Fernando. Cuida-te.

Sara”

Bolhas saem do nariz da Sara que entra num estado de dormência debaixo da água a atingir a borda. Ela não tosse e não acorda.

Vejo-me andar de um lado para o outro em busca de uma explicação. Não podia, então, crer que a minha mulher me deixasse, quando acabei de voltar de  uma viagem coroada de sucesso, aquela que seria o ponto de viragem para as nossas vidas. Que ela saberia do quanto me custou subir na empresa? Todo o seu conforto na casa tem sangue e suor meu. Todas as viagens em primeira classe para as cidades mais conhecidas do mundo, são pagas com o quê?! E ela traiu-me enquanto lá fora me escravizava por uma vida melhor!

sleeping bathEstava furibundo, revoltado contra a crueldade da minha mulher, contra a sua leviandade e leveza do seu espírito. Contra a indecência da sua condição de mulher casada. Recorri-me a todos os pensamentos mais odiosos contra ela. Não podia admitir que ela gemesse com outro homem. O meu coração bombeava intensamente e carburava mais ódio. Mais ainda, quando enchi os pulmões e gritei-lhe todos os nomes mais horripilantes que o meu extenso vocabulário me permitia, atirando de seguida o meu anel contra a parede.

Tinha esgotado o meu arsenal de argumentos justificativos da minha ira. Arfava de nojo por ela. Olhei para o nosso quarto largo e todas as comodidades existentes, caprichos de um homem de sucesso e me interroguei, se essa imensa cama continuava a fazer sentido. O silêncio era absoluto, neste meu apartamento do quadragésimo quinto andar forrado de vidros duplos.

Porém, dei-me de súbito por me sentir mal, tal qual quando a consciência duvida da seriedade da nossa animosidade. Náuseas por um sentimento forte mas artificioso de que fazemos uso, quando nos falta a ousadia para enfrentar as nossas fraquezas. Mormente a verdade sobre a podridão que nos vai corroendo, à medida que nos vamos esquecendo da pureza dos primeiros anos do nosso ímpeto. Quanto a mim, um sentimento de cobardia, para encobrir um egoísmo atroz que afinal minara o que havia de bom e de belo entre nós dois.

originalSerá que cheguei tarde? Terei mais uma vez decidido unilateralmente o que era melhor para nós dois? E os filhos que andámos por planear? E a viagem de cruzeiro no  Mar Egeu que ficou na prateleira? E as tardes a fazer nada mais que encostados um ao outro a saborear o sol? E as noites a fazer amor para o deleite da Lua e as estrelas que a acompanham? E outras tantas promessas, possíveis e impossíveis de uma vida a dois, só para dois?

Apanhei o anel, repú-lo no meu dedo e deitei-me na cama.

Cheguei mesmo tarde. Fiz merda, não fiz?! O meu coração respondia à martelada.

Sara agora não respira. O meu desespero é incontável. Impotente em fazer fosse o que fosse e assistir o fim da minha amada. Não consigo tirá-la da água, pelo menos ainda não encontrei truques para o fazer. Ao mesmo tempo, revivo as imagens que voltam a tomar conta de mim. A respiração  a escassear e o meu corpo a transpirar, enquanto prostrado na cama abraçado à última carta da Sara. Indolência com formigueiro percorria em toda a extensão do meu braço.

Sara!”, brado alto, junto à superfície da água, que se mantém lisa, por mais esforço que faça para a agitar.

Ressinto a picada forte no meu coração, que me levou a arquear  as costas e levantar o peito. Faltou-me a respiração, a minha cabeça pressionou forte sobre o colchão, a minha mão machucava a carta, meus músculos faciais retesavam-se.

De súbito a dor pausou e recuperei a respiração. Estava encharcado de suor.

Mergulho na água, mas não senti densidade nenhuma, era como se ela não existisse. Olho para a Sara que não mexe mais, o corpo não reage, não leio sinais de animação.

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“Acorda, Sara, por favor….acorda! Tu não, não mereces isto. Não mereces fazer isto…por mim. Sara, suplico-te! Acor…”

Não termino a frase, porque a dor retorna e transporta-me de novo para cama, agarrado à carta. Revivo intensamente este momento como que duas vivências temporais se encontram acopladas numa só. O golpe desta vez foi mais forte, como uma lança a trespassar-me o peito, numa violência lancinante. O meu braço esquerdo, como que electrizado não movia.

“Saraaaaa!”

Mais uma investida no coração e não consegui enxergar mais.

Escuro. Mortalmente escuro.

Porém, lentamente a claridade foi aparecendo. Comecei a ver, olhando para todo o lado, sem norte. Sem cima, nem baixo. E tudo turvo.

Assisti o meu fim, como um filme que se revê.

sleeping bath

AAAHHHHH!” O suspiro não é meu. É finalmente da Sara.

“Estás?”

“Consegues ver-me?” Estou incrédulo.

Sara assente.

Nada é turvo agora. Vejo-a nitidamente, como se usasse óculos com graduação correcta, num dia límpido e solarengo. Todos os sinais da sua face, a pele fina do seu pescoço, os seus cabelos escuros com madeixas loiras, olhos castanho-claros. Em todo esse tempo, é a primeira vez que sorrio.

Mas depressa também me arrepio.

Os seus olhos não pestanejam, antes denunciando lágrimas e querem seguir todos os meus movimentos. Ela consegue ver e ouvir-me. Como o choro faz dela uma mulher tão adorável.

Abraço-a como há muito não fazia. Aperto-a com toda a força que conhecia.

“Desculpa, Fernando”. Balbucia.

“Não meu amor, não digas isto”.

“Deste-me a oportunidade de o dizer. E estiveste ao meu lado, depois que eu te deixei.”

“Quis ficar para te dizer que estou bem e que não te preocupes comigo. E mais …  perdoa-me por estes anos de abandono. Não tens culpa de nada. No teu lugar faria o mesmo”.

“Basta, Fernando. Estamos juntos é o que interessa.” 1_ShMcGMaSz-ZtQR_0ZWmpJQ

“Estamos, amor. Mas, isto não é lugar para ti, nem para mim. Não é para mim, pois aqui solidão é cruel e injusta. Não é para ti, porque não é assim que deves vir. Volta para trás enquanto puderes, que viverás mais feliz. Acredita, que estou bem e é isso que te peço, pelo amor que tenho por ti.”

Os cristalinos olhos da Sara tremem húmidos, num misto de compreensão e de gratidão. Mas de pena também, porque no fundo, querendo estar comigo, sabe que eu tenho razão.

Fernando…”. Tapei-lhe a boca.

Não morras, meu amor.”

Beijo longo, como teriam sido muitos outros no Mar Egeu, sob os auspícios da Lua e do seu séquito de estrelas. Os nossos olhos não fecham, para contarem tudo um ao outro, o que para tanto palavras não existem, nesta derradeira oportunidade. Até que a névoa volta a aparecer, turvando a minha visão da Sara, minha linda Sara.

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Desta vez encontro-me a sorrir de gratidão a quem deverá recebê-la.

Oiço o som abafado de quem está a tossir, a fazer lembrar dos tempos de miúdo das minhas aulas de natação, lutando para estar à tona e expelindo água que a inexperiência me fazia engolir.

Por fim, o mesmo suspiro prolongado.

Não me fui embora. Quis ter a certeza de que tudo esteja bem. Olho para a Sara e observo um semblante sereno. Dorme profundamente como consigo constatar pela sua respiração pausada. Noto uma leve curvatura para cima em cada canto dos seus lábios finos, como quem inicia um sorriso.

Não há nada mais fascinante que apreciar a nossa amada a dormir. A sua face é aquela que nada tem a esconder, sem defesas, sem pantomima, face que tão-só faz transluzir um estado de alguém completamente entregue às cores do seu imo. E se é bela, ela o é ainda mais, quando mergulhada na paz do seu sono. A minha Sara é isso.

Suspiro de saudade antecipada. Não há melancolia, porém. Apenas a certeza de que a amo. Eternamente.

E abre-se luz no meu caminho. Não estou só e agora sei para onde vou.

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É altura de partir.

 

19 de Outubro de 2018, sexta feira.

© Miguel de Senna Fernandes