O CORRESPONDENTE SECRETO

Olá Ilda

A Professora Lúcia disse a todos que hoje seria o dia do correspondente secreto e eu deveria escrever a alguém da nossa escola, sem assinar o meu nome. E explicar porque te escolhi.Penso que não tenho razões porque escolher outra pessoa. Espero que tenhas a paciência de leres isto, pois sou “bafo-comprido”. Quando não olham para mim, claro.

Pois bem.

Quando te vi pela primeira vez no começo das aulas, achei que não devia falar contigo, porque não terias tempo para mim. As tuas amigas estão sempre contigo e tens sempre muito que fazer. Riem-se de tudo quanto veêm. Nunca olharam para mim. Sorte minha, pois não saberia onde me esconder. Por isso sei que não dás por mim. 

Notei que tens uns lindos olhos. Quando fugazmente eles se viram para mim, vejo quão claros e intensos eles são, que me fazem amolecer. Parecem que me dizem algo, mas também imagino muita coisa. 

Mas, confesso, tenho fraquezas e fico com a cara vermelha se me olharem muito tempo. Detesto isso!

Quando sei que estás por aí, fico feliz e imagino-te bem perto de mim, a conversar comigo, a olhar-me nos olhos, a responder milhares de perguntas que teria para te fazer, a ouvir música. Não a dançar, porque não tenho jeito para isso e não gosto imaginar-te a rires-te de mim. 

Não posso esquecer do dia do nosso passeio escolar a Hong Kong. Fiquei surpreendido ao ver-te de sapatilhas, ganga e camisola vermelha, algo tão invulgar em ti. Estavas tão bem. De certeza que todos tinham os olhos em cima de ti. Os meus estavam também, embora não gostaria que reparasses que tinhas toda a minha atenção. Cansa muito olhar assim, mas não tinha outro modo. Vi um lugar vago a teu lado,  não tive é coragem de ocupá-lo. As tuas amigas não me perdoariam. Não sobreviveria à zombaria daquela “fantocheira” Patrícia. No entanto, escolhi o assento mais próximo possível de ti, ainda que remoesse de pena, pois a cadeira a teu lado permaneceu vaga. No Museu da Ciência, por um momento, estavas perto quando o Professor Germano passou pela secção dos esqueletos dos animais. Enchi-me de coragem e pus-me a falar sobre isso aos meus colegas da turma. Talvez assim pudesses também aproximar-te. Tive a certeza de que não tinha falado alto de mais, mas mesmo assim arrependi-me. Foi ridículo isso de me destacar, quando nem se quer disso deste conta.

Gostaria tanto que soubesses o que vem na minha cabeça

Nunca experimentei isso que se chama de ciúmes. Achei sempre que isso seria coisa ridícula de menina, até o momento em que senti o aperto do coração, quando vi o Afonso Vaz a dançar contigo, no baile do Natal. É indescritível como é essa sensação de perda e de revolta. Mas, o mais grave é que não sou ninguém, para sentir fosse o que fosse, não tenho estatuto no teu coração.

A carta não logrou sequer sê-la porque não chegou ao seu destino, parou antes num caixote de lixo junto à entrada da turma 9B, à semelhança de tantos outros papéis, embrulhos, pacotes e objectos sem importância, que aí se lançam ao abandono, por razões que ninguém se daria ao trabalho de saber.

Tal como aí se encontrava também um sobrescrito côr-de-rosa, dirigida a um “Rafael Augusto”, nele se incluía uma folha onde se lia qualquer coisa como: 

 Bom dia,

Estás bom, Rafa? Espero que não leves a mal que te trate assim, tal como os teus amigos o fazem.

Estou a escrever-te porque a Professora Mónica da minha turma, disse a todos que enviassem uma carta à pessoa da livre escolha de cada um. Hoje é dia do correspondente secreto, acho que a tua professora também vos disse para fazer o mesmo. Não poderia revelar o meu nome, referiu, mas teria de explicar porque te escolhi.

Julgo que não tenho razões para escolher outra pessoa. Espero que tenhas a paciência de leres até o fim. Não sou boa a sintetizar ideias e se calhar serei chata. É que, não sei se terei coragem de te dizer à tua frente o que sairá agora da minha esferográfica. Estou tão nervosa, acredita.

Quando te vi pela primeira vez no começo das aulas, achei que eras diferente dos outros colegas. Estes apenas queriam chamar atenção e faziam disparates sem graça alguma, mas tu estavas num outro mundo. Tinhas outras coisas na tua cabeça, com certeza, não parecias ter paciência para ninguém. Eu tinha que olhar muito para ti para ao menos saber se olhavas para mim. As minhas amigas são umas parvas, riem-se de tudo, pois tal como os rapazes, também querem chamar atenção. Mas, não tenho jeito para estas coisas e por isso, sei que não reparas em mim.

Contudo, quando consigo que me olhes, vejo naqueles olhos castanhos uma pessoa dócil, pronto para me ouvir. Tens um olhar tão intenso.

Fico feliz quando estás no recreio, no entanto nunca quis dar-te a impressão de andar a perseguir-te. Assim, permaneci sempre longe de ti. Mas, imagino-me perto de ti, a ouvir-te, a responder às perguntas que terias de me fazer, se é que existiriam. Dançarias comigo, embora saiba que os rapazes não gostam de dançar. Dançaria contigo de qualquer modo.

Gostaria tanto que sentisses um fraquinho por mim, nem sei como tive a coragem de admitir isso.

Lembro-me tão bem do nosso passeio a Hong Kong. No Museu da Ciência, pude escutar-te a explicar sobre o esqueleto dos animais aos colegas. Estava como sempre afastada, mas a tua voz soava bem ao longe. Nunca pensei que soubesses tanto e que falasses, pois sempre te achei distante a pensar noutras coisas. Nesse dia, chateei-me com as minhas  amigas. Tínhamos combinado ir de macacão azul, sapatilhas, meias brancas, eu de camisola vermelha, elas de outras cores. Achei uma ideia boa, pois podia usar outro tipo de roupa diferente do usual e, quem sabe, talvez pudesse chamar a tua atenção. Qual não foi o meu choque e embaraço, fui a única que assim apareceu no cais. Senti-me atraiçoada, pois detesto ser o foco de tudo. E proibi que se sentassem ao meu lado. No fundo, confesso, alimentava também esperança de que pudesses sentar-te nessa cadeira vazia. Não faz mal, ficaste umas cadeiras mais perto, dei-me por satisfeita. Ainda bem que elas estavam longe de ti, pois algo me diz que a mais espalhafatosa de todas gosta de ti.

Não penses mal de mim, com esta carta tão atrevida. Precisava de desabafar e o que melhor do que escolher alguém que tem a ver com isso tudo, sem que ele saiba quem seja eu? 

Precisava que soubesses, ainda que em vão, que no baile do Natal, não queria dançar com ninguém. Antes, ter uma oportunidade para conversar contigo e dizer-te tudo o que vinha na alma. Nunca bebi nada de alcoólico, mas precisei dele para ganhar coragem. Um deles conseguiu trazer vodka e bebi. Andei a olhar para todos os cantos à tua procura. E o Afonso não parava de por mais bebida no meu copo. Se calhar já sabes, essas bebidas ora põem-te triste ou então bem alegre, e eu não resisti. Dancei com o Afonso e senti que ele se agarrava a mim. A minha cabeça dava voltas e vi muitas coisas. Não tive a certeza mas fiquei  com a impressão de que olhavas para mim, e era triste o teu olhar. E de repente acordei e parei de dançar. Mas já não estavas. 

Se calhar nunca estiveste.  Queria tanto que soubesses.

Nunca o mesmo caixote experimentara tamanha revolução, como nesse fim da tarde. Na verdade, para quê vasculhá-lo, e recuperar o quê? O que passou ao abandono, nunca retrocederia à sua condição anterior. Mas, vira Rafa a confusão de papéis à volta do receptáculo, como se fora obra de alguém que, tal qual ele, quisesse à força reaver o que lá pusera. E para ele era uma questão vida ou morte, morte de vergonha, uma espécie de calvário que se adivinharia enfrentar, se por um infortúnio, a sua missiva caísse em mãos dúbias. Ainda que anónima, eles adivinhariam quem teria sido o autor, a chacota de que seria alvo e a depressão que se lhe seguiria. Que ousadia, foi aquela? 

As suas mãos remexeram, escarafuncharam a seu mando. Mesmo sem ver o que continha o caixote, ao menos tactear os objectos com a esperança de apalpar o sobrescrito, cuja textura já conhecera, depois de tantas noites a decidir se o deveria enviar. Ao cabo de quinze minutos de frenético resgate, suspirou fundo. Encontrou-o. O alívio sabia bem melhor que uma positiva a Matemática. Puxou-o para si, desinteressando-se do resto que a sua mão ia tocando no seu trajecto para fora.

E o sobrescrito não era o dele. Era de côr-de-rosa, com a letra que não era dele. Corou e sentiu o ardor nas orelhas ao ler o seu nome. Mas sentiu que não estava só no corredor naquele fim da tarde. Não se atreveu logo a ver quem era, mas já sentia uns olhos castanhos e redondos fitando-o intensamente. Nas mãos, a menina segurava a carta que ele andava à procura. 

Ilda sorriu-lhe.

 

9 de Agosto de 2019, sexta feira 

© Miguel de Senna Fernandes

21 thoughts on “O CORRESPONDENTE SECRETO

  1. Que linda história, Miguel. Descreves na perfeição a pureza e doçura típicas dos amores da idade da inocência. Parabéns ! A continuar sff. Um abraço, Omar

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  2. Que doçura de texto! Transporta-nos a um tempo em que a timidez e a insegurança ganhavam sempre. Principalmente se somos diferentes da maioria e nem percebemos que essa diferença é uma vantagem. Obrigada por me ter levado até ao passado. Fico a a aguardar a próxima. Parabéns.

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  3. Obrigado pelo “meu” retrato, duma situação que se repetia em cada abertura de ano escolar. Sim, eu cambiava 🙂 . Pena nunca ter ido a Hong Kong. Abraço.

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  4. Levei uns dias para o ler na íntegra. Queria um tempo para o ler tranquilamente, sem distracções.
    Parabéns! Gostei muito, Miguel! Retratas na perfeição as paixonetas adolescentes que, ouso dizer!, todos nós tivémos!
    Sente-se a pureza e a inocência destes momentos que podem só durar um período escolar, ou mesmo só um ano lectivo. Mas acontecem e dão chiste ao dia-a-dia do estudante.
    Aprecio o efeito alcançado pela tua escrita leve. A meu ver, mais difícil de se alcançar do que uma mais rebuscada ou apoiada num qualquer dicionário de sinónimos.
    Espero receber mais artigos, crónicas, apontamentos!
    Beijinhos da Majão

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  5. Miguel, que história deliciosa, fresca, um conto para sorrir enquanto nos preparamos para relaxar.
    Todos nós vivemos de certa forma um pouco desta história.
    Obrigada por mais um momento excelente de leitura.
    Estas crónicas mereciam uma colectânea punlicada em livro.
    Os escritores são grandes amigos, na medida em que não guardam para si o que sabem, o que veem, partilham com todos. Que felicidade!
    Um abraço

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