CONVERSA DA TRANÇA

As escadas de madeira rangiam, como me lembro, quando subi ao primeiro piso do restaurante Long Cheang, um dos poucos culaus que sobreviveram à fúria da modernização desenfreada da cidade, em que o desenraizamento do que já era institucional passou a ser a regra. A ganância pelos ganhos astronómicos  por um bocado de terreno, levaram velhas famílias e comerciantes a largar mão do que era o mais tradicional de Macau.

Era o terceiro e último dia de entrevista com Eduardo Malaquias, um dos antigos residentes portugueses mais bem sucedidos de Macau. Sorvia o seu Tit Kun Iam, enquanto conversava com um idoso senhor chinês, quando cheguei. Era tão natural a sua fluência em cantonense, que não parecia um estranho em terra estranha. Até me causou certa surpresa, senão inveja, vê-lo a comunicar-se com o seu interlocutor, com desembaraço, sem a barreira linguística que, secularmente, separou portugueses do resto da população essencialmente chinesa. 

Negociava com o dono do estabelecimento sobre produtos chineses a serem colocados no mercado em Portugal. O Sr. Malaquias era homem de sete ofícios, sendo um deles o de importador e exportador de vários produtos alimentícios, entre Macau e Portugal.

Tínhamos já falado sobre a sua chegada a Macau em 1973, vindo de Lisboa, e o seu ingresso nos quadros da polícia militar. Sobre o 25 de Abril e o subsequente desmantelamento da unidade, sobre a sua passagem para as Forças de Segurança Pública de Macau, onde foi tudo, desde mecânico a guarda de ronda. Fizemos uma digressão pela sua aventura no mundo empresarial, relatando ele as vezes em que estivera em apuros, a forma como disso recuperou. Na verdade, havia já matéria substancial para o meu artigo “Portugueses Globalizados”, já pronto para ser enviado a Lisboa. Não fosse uma curiosidade que me intrigou.

“Não acha que já lhe contei mais que o suficiente? “- sorria Malaquias, enquanto apreciava o chá.

“Sim é verdade. Até o artigo está completo…”

“E…?”

“Porquê nunca quis regressar a Portugal?” – fui directo.

Malaquias sorriu novamente.

“Aquilo que tem no seu artigo, não responde à sua pergunta?” – continuava ele em tom jocoso.

Meneei a cabeça. 

“Senhor Malaquias, o que me irá contar não será publicado, asseguro-lhe.”

O esboço do sorriso ainda subsistiu, mas gradualmente se desfez e era a primeira vez que Malaquias se tornava nostálgico. Nada parecido com o que mostrara nas duas vezes anteriores de entrevista. Não insisti, preferi esperar até quando decidisse falar. Então suspirou.

“Esta é uma terra de tentações e de contrariedades, meu amigo. Os passos que dei são incontáveis. Conheci gente maravilhosa, numa terra que me acolheu e me fez um dos seus.”

“Conte-me, Sr. Malaquias. Por favor?”

“O meu passado na polícia não foi belo. Fui expulso da corporação – sorria, apesar de ser já vago o seu olhar – Os meus colegas, que bem me podiam salvar da situação, deixaram-me afogar. Tudo pela mulher da minha vida. Estava apaixonado.”

“Quando conheci a Sio Yin, pensei que fosse algo passageiro. Ela trabalhava como empregada de mesa no “Ming Chu”, a boate da perdição então muito em voga na Taipa, onde a rapaziada parava para copos e mulheres. Para eles, tudo era uma alegria e peixe na rede.”

“Enquanto as outras se ocupavam em entreter a malta, a Sio Yin fazia o seu trabalho como era esperado e ia-se embora, sem qualquer outro tipo de expectativa. Era discreta, em contraste com as outras que, por ofício, tinham de sorrir, falar alto e agradar.”

“Talvez por isso, me despertou a atenção. Provavelmente ela teria sido a mais silenciosa, nesse recinto que era barulhento. Comecei assim a frequentar o “Ming Chu” noites a fio, sempre que o fim dos meus turnos permitia. Não falava chinês, mas sabendo que ela estava por perto, dava-me alento e vontade de ficar até tarde.”

“Deve ter sido muito bonita” – acrescentei.

“Não era uma estampa de beleza, para ocidentais como nós. Mas eram brandos os seus modos e o seu corpo delgado tinha um modo especial de se contorcer quando andava. Os pés eram pequenos, assim como os seus seios. Nunca vi cabelos tão lisos e escuros, e exalavam essência de champaca. E tudo isso, acompanhado do seu olhar penetrante e do seu sorriso inocente, a acusar um certo embaraço, fazia dela uma mulher tão linda. É difícil de explicar”.

“Bastou um momento de simples troca de palavras, para que me pusesse a pensar nela a qualquer momento do dia. Tal era a paz que a sua voz invocava em mim. Se elas soubessem o que realmente fazem aos homens!” – gargalhou.

“No entanto, isso causou-me um certo mal estar: estaria eu já apaixonado por ela? A minha razão recusou logo este ridículo, mas com o tempo, a consciência foi ganhando peso. A imagem do seu olhar, provocava em mim sentimentos de culpa, sobretudo quando pensava na namorada que estava à minha espera em Lisboa. Não era justo para a Mafalda. Tinha que pôr cobro a isso e me penitenciar!”

“Não iria mais ao Ming Chu, decidi, para me concentrar na minha amada em Portugal, estar em espírito com ela, lembrar-me com todo o pormenor a sua beleza, rever os momentos em que ela se me entregava de amor na casa dos seus pais em Campo Ourique. Ela seria a minha tábua de salvação!”

“Passaram-se dez dias dessa parvoeira e habituei-me de facto a não ir à boate! Passei a contar os dias em falta para voltar a Portugal, ainda que não houvesse data para o efeito. Forcei-me a ter saudades dela. A minha namorada voltou a ser o centro da minha vida. Senti-me salvo do vício, recuperado da tentação, estava feliz como se tivesse vencido o fumo. Orgulhoso, também, por conseguir recusar a acompanhar a rapaziada para a borga!”

“E nesse dia, quando fazia a última ronda pelo mercado, andei lentamente, imaginando-me no Jardim da Parada em Campo Ourique, de mãos dadas à Mafalda, a inalar aquele ar puro das plantas, flores e castanhas à mistura.”

Pausou.

“E de repente não consegui imaginar mais cantos de Lisboa. Tudo estava tão longe, não obstante o meu esforço enorme. Tudo tão irreal e inatingível. Se calhar estava cansado de tanta artificialidade. Por mais voltas que podia dar na minha imaginação, voltava às ruas de Macau, ao seu cheiro, aos seus ruídos. Foi quando me cruzei com Sio Yin. Estampava-se a satisfação naqueles olhos, como se me perguntassem porque nunca mais fui à boate.”

“Não dei mais conta da hora. Soube que passei o resto do dia com ela, acompanhei-a nas compras que tinha de fazer para a casa. Depois do meu jantar fui acompanhá-la à boate. E aí fiquei até ela terminar o seu serviço, para depois tomar uma canja com ela. O meu vocabulário tão parco em cantonense e o seu português que mal ia para além de um “bom dia, obrigado”, não permitiam grandes desenvolvimentos, mas os seus olhos liam-me e entendiam o que a minha alma lhe queria dizer. À nossa maneira, dissemos muito.”

“Nessa noite quando voltei ao quartel, senti um aperto no coração. O meu mundo decididamente mudou e roguei para que a Mafalda fosse muito feliz. E me perdoasse. Deixou de ser uma questão de justiça, como nunca foi, para ser uma decisão de vida, que cada um de nós sabe, quando ela chega.”

“Nos seguintes meses foram intensos em emoções. Esmerava-me em aprender tudo que fosse chinês, não obstante ela não atinar com o português, uma língua dificílima para o seu conceito. Amávamo-nos quase todos os dias e a nossa relação aprofundou-se, tanto que começou a ser comentada entre a rapaziada, muitas vezes em tom de chacota, sabendo todos do que acontecera à namorada em Lisboa. Isso pouco me importava, pois a minha presença nesta terra ganhou uma nova razão de ser.”

“Nisto, veio o dia que traçou o meu destino. Um dos oficiais de patente superior estava na boate bastante bebido e resolveu abordar Sio Yin, tocando no seu braço. Ante a resistência desta, apertou-a contra si, abusando da sua fragilidade, tentando dar-lhe um beijo. Claro que o desiderato não se cumpriu, porque o meu murro lhe partiu o nariz e duas costelas suas foram à vida com um pontapé que lhe dei em cheio. Senti braços a imobilizar-me, quando dei conta de mim, enquanto o superior continuava prostrado no chão, com sangue jorrando pelo nariz.”

“A versão que ficou assente no processo disciplinar que se seguiu, foi que eu teria bebido imenso a ponto de violar os limites de decoro, em flagrante insubordinação, acrescido de agressão a superior hierárquico, num recinto de diversão nocturna envolvendo indivíduos de sexo feminino de vida promíscua, pondo em causa o prestígio da Corporação, sendo indigno dela. Acto contínuo, foi-me apresentada a guia de marcha para a minha viagem de retorno a Portugal. Fui expulso.”

Malaquias pausou. Custava-lhe prosseguir com a mesma desenvoltura com que usara para me narrar esta fase da sua vida. Todavia, sorveu um pouco mais de chá,  tinha mais para me contar.

“Mas você preferiu … ficar em Macau.”  

“Encontrei-me de seguida com Sio Yin. Tinha que lhe explicar como as coisas se complicaram. Que deixei de ser alguém porque tinha acabado de perder o emprego, que seria desonroso para ela se continuássemos juntos. Que me marcaram a minha volta a Portugal.”

“Ela escutou em silêncio tudo o que tinha para lhe contar e então disse-me que soube da gravidade da situação, pois o caso na boate foi muito badalado. Mas eu não podia voltar a Portugal assim, pois quem sai da sua terra, regressa a ela triunfante. A perda de face seria insustentável e, para os chineses, seria até motivo de suicídio. Disse-me que também deixou o emprego, e iria trabalhar numa fábrica de panchões, longe de todos. Não ganharia muito, mas era preferível viver com pouco a morrer sem dignidade. E olhou fixamente para mim quando disse, que o seu homem merecia ser protegido, pois ele a defendeu à custa da sua própria honra. Ela estaria aí comigo para o que viesse. Era a primeira vez que a ouvi falar de uma vida a dois.”

“Passámos a viver nos primeiros meses em casa dos seus pais, onde o conforto era algo inexistente para um ngau sok como eu, mas não me queixei. Não foi fácil ser aceite e grandes discussões ocorreram entre ela e seu pai, que encarava a situação como um opróbrio insustentável. E ela defendia-me com unhas e garras, eu era o homem que ela escolhera e assim seria para sempre. Passei a comer com pauzinhos, devorando tigelas de arroz borrifado com molho de soja e banha de porco, acompanhado de peixe salgado e hortaliça salmourada. Comecei a frequentar mercados de peixe e de carne. Transportei sacos de arroz, boiões de vinho chinês. Fui marceneiro, canalizador, mecânico de automóveis, enfim o “conserta tudo” no bairro San Kiu. No espaço de um ano já falava cantonense, o suficiente para regatear nas compras que fazia, de aconselhar quem tinha problemas com as autoridades. No mesmo espaço de tempo, deixei de ser aquele português de Portugal, para passar a fazer parte da terra. O ser-se ocidental a falar cantonense, trouxe-me muita simpatia entre os mais simples. Para eles, eu era o ngau sok que queria fazer parte da terra. Você não calcula a face que isso representa. Passaram a chamar-me de Ma Lok Kei.”

“Casei-me segundo os ritos chineses, houve festa no bairro e muito panchão da fábrica onde Sio Yin trabalhava. Se no início, a vizinhança desprezava a Sio Yin, por namorar com um forasteiro, o casório veio a transformar tudo em algo honroso para a minha mulher. Os pais dela reconciliaram-se connosco. Eu era afinal um chi-kei-ian!

“E os portugueses?”- fiquei curioso.

Pausou de novo. Pareceu-me ter querido vasculhar algo já perdido na memória.

“Durante algum tempo não tive mais contacto com ninguém vindo da Metrópole. Fui muito injusto, admito. Mas estava ainda profundamente ressentido com o desfecho do caso da boate e o vexame a que me sujeitaram. Havia certamente gente boa, não nego, mas não quis mais nada com a malta e cortei com todos”.

“Até que um dia Sio Yin anunciara a vinda da nossa filha. Não me teria importado se ficasse com um nome chinês, mas a minha mulher já tinha decidido quanto a isso, com a ajuda das suas antigas amigas da boate. A filha levaria o apelido do pai e seria um nome português. Por mais razão que eu tivesse no meu alheamento aos meus compatrícios, não deveria renegar as minhas origens. E com esse nome iria estudar português. Iria chamar-se Mafalda Chan Malaquias. Não foi mera coincidência, mas não quis perguntar-lhe a razão do nome escolhido. O seu bom senso e o sek chou foram o suficiente para me deixarem sem fala.”

“Volvidos quatro anos, no átrio do Colégio de Santa Rosa de Lima enquanto esperava pela Mafaldinha, fui abordado por um português, pai de uma outra criança. Vim a saber que se chamava Nicolau Boaventura e era também de Lisboa. Tinha ouvido falar de mim, como o “portuga que conhece as trocas-baldrocas da terra” e precisava de uma ajuda minha na instalação de um negócio de importação e exportação de produtos variados. Precisava de uma pessoa de confiança que estivesse no terreno. Haveria melhor que um conterrâneo que falasse chinês?”.

“A minha entrada na empresa foi uma reviravolta na minha vida. O dinheiro começou a entrar e em pouco tempo conseguimos sinalizar a compra de uma casa. Pude finalmente levar a Sio Yin a Hong Kong para comprar os vestidos mais belos que até aí apenas sonhara ter. Tornei-me num homem sucedido, não por ter ficado rico, mas por ter conseguido cruzar dois mundos tão díspares, com resultados fabulosos, na companhia da minha mulher. “

“A mulher do seu sucesso!” – comentei.

“A mulher de todas as surpresas!” – riu-se.

“Numa noite suada de amor, interrogou-me porque o nosso Deus era tão complicado de se entender. Porquê a Trindade, se Deus era único? Não tinha resposta para isso, mas fiquei curioso pela pergunta que me fez. Ela estava a frequentar a catequese, disse-me então. Dei um salto de completa surpresa, até porque já estávamos casados. Então explicou-me que queria casar comigo na minha igreja. Se ela seguir o seu homem, deveria comungar também da sua fé. E se um dia ela morrer, quererá estar num sítio para onde o seu homem certamente irá.”

“A “Nicolau & Amigos, Limitada” passou a ser uma das principais agências de importação e exportação, ao lado das tradicionais “F Rodrigues” e “Nolasco”. A vida melhorou consideravelmente e, com o bom senso e insistência da Sio Yin, investi em propriedades em Macau e, vinte e cinco anos depois, punha os pés em Portugal, com ela e Mafaldinha, quando resolvemos comprar um terreno em Sintra.”

“Reconciliou-se com Portugal, então?”

“O País não tem culpa dos desaires de cada um. Mas custou-me a regressar, confesso. Ele foi o meu berço, mas a minha terra está na China. É Macau que me prendeu e me fez o que sou. É tão difícil explicar o que isto é, que todos julgam saber. Tanto paleio disparatado se ouve e se lê sobre este mundo, mas ninguém entende, ou não quer entender, porque as coisas são como são aqui.”

“E … a Sio Yin. Que foi feito dela?”

Suspirou.

“A minha Sio Yin morreu um ano depois de nos termos casado na Igreja de S. Lourenço. Foi sempre uma pessoa franzina e acusava constantemente um mal estar de que nunca se curara propriamente. Não quis que eu soubesse do seu tumor no útero, que piorava dia após dia. Estava deslumbrante com o vestido de noiva, tão branco e a preceito. Recordo-me bem dos seus lábios finos, traçando um sorriso suave. Não se pintava muito, nem precisava disso. Seus olhos meigos, os mesmos de há muitos anos que me diziam tudo, sem ela precisar de falar. Eles me mostraram como estava feliz, porque se cumpria o desejo último dela, como ela tinha planeado. Ela sorria porque, no seu entender, poderia já morrer em paz.”

“Lamento muito. É triste.”

“A saudade é imensa e a solidão é uma tortura. Mas não há tristeza. Um dia hei-de estar novamente com ela, tal como ela previu. Estar ela na minha vida já me alegra e assim será até ao meu último dia.”

“A sua história fez-me lembrar de um romance local com o título “A Trança Feiticeira”, conhece?”

“Não li todo o livro, mas conheço o autor”- sorriu. “De certa forma, conta a vida dele, da minha e a de tantos outros, como eu, que ficaram em Macau, pelo amor à mulher e à terra que a criou.”

“Mas há tranças ainda?” – gracejei.

“O que há, e sempre houve, é aquela mulher que nos surpreende e nos comove com a sua simplicidade, que está à nossa altura quando decide estar, que luta incondicionalmente por nós, contra tudo e todos, seja a que custo for, e que perdoa as idiotices que a nossa dita inteligência tantas vezes nos leva a fazer. Isso é belo, porque nos dá uma oportunidade de nos renovarmos. Não sei dos outros, mas foi assim que a Sio Yin me prendeu. Sabe-se lá se não era isso que a tal trança queria afinal significar? – voltou a sorrir.

“Julgo que sim. Quem sabe?” – saiu-se-me, espontaneamente.

Então, mirou-me atentamente com aqueles olhos por que muita vida passou.

“Respondi a tudo quanto precisava de saber, não?” – tive o pressentimento de que me lia a alma.

“Você até me contou mais do que esperava…”

“Sim. A sua curiosidade fez-me sentir que algo na sua vida dependia do que lhe iria contar” – brindou-me com a chávena de chá.

De súbito, ouço um sussurro suave sobre o meu ombro que me  interrompe e me desperta da minha memória sobre essa conversa com Malaquias, havida dois meses antes.

“É tão tarde, Beto, vem para a cama. Saímos cedo para Gongbei, como sabes.”

“Claro amor, vou já”.

Ainda não me tinha habituado à decisão de iniciar uma vida com Maggie e, para mais, a de conhecer os seus pais em Shanghai. Lembrei-me da Sandra, das suas lágrimas pela injustiça que lhe fiz, da sua raiva silenciosa no dia em que parti de vez para Macau, selando uma relação de sete anos de casamento adiado. Ainda estive a pensar se devia ter remorsos, mas para que eles serviriam, se nada salvaria o que há muito tinha chegado a seu termo?

E Maggie? Qual … a sua trança? É difícil dizê-lo. O certo é que já estou com ela e nela me quero prender.

Fui para a cama, senti o calor do seu desnudado corpo que me pedia ternura e apertei-a contra mim. Sem dar por isso, agradeci a Malaquias, por me ter compreendido. 

“Disseste alguma coisa, querido?”

“Nada amor, dorme bem. Amanhã temos uma vida pela frente.”

FIM

_____________________

Notas:

Culau (高樓) – Estabelecimento tradicional chinês de comidas. Cou Lau, significa literalmente “piso alto”, pela circunstância de este tipo de estabelecimentos possuir ou se situar normalmente no piso superior dos imóveis onde se instalavam.

Tit Kun Iam (鐵觀音) – Ou Tieguanyin, é um tipo de chá da família de chás Oolong, com propriedades medicinais vários, muito popular e apreciado entre chineses.

Panchão – do cantonense Pau Cheong (炮仗 ), petardo muito utilizado para a celebração de grandes acontecimentos e efemérides, com a crença de poder afastar os maus espíritos.

Ngau sok (牛縮) – Lit. “odor bovino”, designação inicialmente depreciativa que os chineses de Macau davam aos militares portugueses, provavelmente, pelos seus odores corporais intensos, diferentes do comum dos locais. A expressão ganhou popularidade e passou a ser usada para a generalidade de todos oriundos de Portugal, sem a carga pejorativa.

Chi kei Ian (自己人) – Lit. “dos nossos”.

Sek Chou (識做) – Lit. “saber fazer”, expressão cantonense que exprime o mesmo que “savoir faire”.

Metrópole – Lisboa (ou Portugal). Expressão oriunda do vocabulário do Estado Novo, muito usada nas antigas colónias portuguesas, perdurada no léxico de toda a geração nascida antes do 25 de Abril.

Macau, 28 de Janeiro de 2022, Sexta-Feira

Miguel de Senna Fernandes

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