A Obra do Art

Tudo começou com ele aos berros com o seu interlocutor, numa discussão ao telefone que ocorrera  às traseiras do restaurante onde interrompera o seu almoço, num terreno ainda vago para construção. Ninguém daria importância alguma se ele não fosse Art Dung.

Nascido Artur Durão, Art passou, de um momento para outro, a ser uma das pessoas mais populares e respeitadas do burgo. Quando foi lançado o seu primeiro livro “O Furo no Pneu”, sobre a vida de um barbeiro, mal imaginava o editor que estava perante um fenómeno. “Estilo etéreo”, “assombro nas letras” e outras expressões do género foram-se ouvindo a seu respeito em tertúlias e noutros círculos intelectuais. Passou a ser convidado a opinar sobre arte, desde a música à culinária. À primeira, não se entende nada o que diz. Porém, ”ele é profundo”, dizem.

Indivíduo de metro e quarenta de altura, de calva brilhante, voz de flauta e óculos escuros mesmo à noite, invariavelmente de casaco negro luzidio de cabedal, faça sol, faça chuva, frio ou calor. Exprime-se efusivamente, qual regente de uma sinfonia de Brahms,  correspondendo a cada expressão um gesto, um trejeito, um rolar dos olhos. Não se sabe se ele faz gala disso, mas é amiúde surpreendido a pensar alto, não só falando consigo mesmo, como também com tudo que encontrava pelo caminho, incluindo cães, gatos e plantas. As pessoas sorriem com deferência perante o espectáculo que faz com gosto. De facto, pelo estatuto alcançado quem ousaria a por em causa a sua genuinidade intelectual? É o homem do momento, o mais cool de entre os seus semelhantes.

Mas, estava nesse dia visivelmente incomodado. Os seus braços curtos esticavam-se e contraíam-se, num vai-vem estonteante à medida que altercação se desenvolvia. Ao que se apurou mais tarde, foi a propósito de uma sanita que ele apelidara de  “modelo florentino” para sua casa de banho que o seu empreiteiro não conseguira encomendar. Sentira-se enganado.

IMG_5957A sua voz era tão estridente que tirou o sono ao velho Vong Kam, o qual aí se recuperava a custo de uma ressaca da noite anterior. Tinha nesse dia um transporte a fazer do entulho que aí se encontrava, uma amálgama empilhada em forma de cubo, de ferro velho, objectos de bronze, bocados de bacias, tampos de sanita e um pouco de tudo. O velho Vong resolveu então retirar-se do sítio rumo à mercearia Leng Kei. Já que não podia continuar no seu sono, ao menos saboreasse ali uma cerveja, como fazia todos os dias. A tralha podia esperar nesse sítio, que ninguém a incomodaria. E é quando aí chegou Art, no seu devaneio.

Olhava sem ver os escombros, mas do seu falsete, saíam brados como “Que bela obra!”. Depois “Isso não tem preço…quem poderá pagar por ela?!”. E claro, quando se irritava em demasia vociferava coisas como “Deus é grande!”. Soube-se depois que a outra parte, não respondera ao seu sarcasmo, mas antes o implorara que aceitasse o modelo que conseguira. Era artístico também e satisfaria qualquer deus, garantia!

E já nessa altura três ou quatro pessoas escutavam-no atentamente. Enquanto se sacudia freneticamente com as mãos, braços, pescoço, acorria mais gente ao local, num cenário que começava a ganhar ares de Cristo no Monte das Oliveiras. Sincronizadamente, as cabeças dirigiam-se, ora para o entulho cubóide do velho Vong Kam, ora para o discurso inflamado do pequenote artista. Os telemóveis seguiam a coreografia, blocos de notas começavam a aparecer e canetas a rabiscá-los.

Etoilets-piled-up por fim, num derradeiro gesto de frustração, deu um murro sobre um pedaço de bacia amontoada, sentenciou lugubremente ao que o seu fornecedor lhe teria feito: ”Isso é Arte!”. Estava cansado, era demasiada a revolta e ele sabia que não tinha coração para isso. Suspirou fundo e saiu do local.

Um silêncio sepulcral instalou-se por uns segundos. As pessoas entreolharam-se sem saber o que fazer. Até que dois jovens resolveram sentar-se junto do entulho em posição de vigília. Seguiram-se depois mais alguns da mesma idade, formando um círculo à volta da amálgama artística. Houve logo quem a apelidasse sem hesitação de arte urbana neo-cubista. Mais gente aparecia e primeiras máquinas fotográficas profissionais disparavam.

Quando o velho Vong Kam finalmente despertara do seu sono de cerveja, estava uma pronunciada multidão. Olhou  para o relógio e era tarde, precisava urgentemente de fazer o transporte quanto antes e dirigiu-se ao entulho, preparando-se para a façanha. Impediram-no de fazer fosse o que fosse. Nada valeu qualquer explicação, que os jovens entrincheiraram-se em defesa da tralha.

Perplexo com esta atitude, outra ideia não teve que chamar a polícia que na zona já rondava. Dois agentes seguiram para o local tentando demover a multidão. Os jovens resolutos em não largar mão da sua dama, barricaram-se ainda mais e responderam lançando-lhes aviões de papel.

No momento em que chegava a Televisão Pública e a Rádio, já havia microfones no ar, repórteres fazendo o seu trabalho. Nas redes sociais, comentários mais díspares ganhavam tom. Os jovens e agora também pessoas de outras idades rodearam o artístico entulho, de mãos dadas num gesto de fraternidade universal e cantavam “We Are The World”.

740e3906-136f-11e7-8424-32eaba91fe03_1280x720_050711A polícia chegou com vinte agentes e o responsável empunhou o megafone exortando à dispersão. Nessa altura a melodia “Imagine” de John Lennon já estava na boca do povo. Ninguém ligou, até que  o mesmo responsável ameaçou avançar caso não deixassem remover o lixo. E todos incorreriam em crime de desobediência, uma vez que se tratava de uma manifestação não autorizada.

Um dos jovens, protegendo-se com o tampo de uma sanita que encontrara abandonado gritou: “Lixo para o Governo, deixem-nos a Arte!”. O mote vingou e a polícia carregou. Os indignados resistiram com a mesma protecção, imitando o destemido jovem.  E nasceu assim o que mais tarde veio a ser conhecido como “O Movimento do Tampo”.

Por fim venceu a ordem e a segurança pública. Erradicaram o cubo entulhado do terreno, que aliás se tornou zona interdita. Os jovens foram levados à esquadra policial para autuação. Era visível o desgosto e a sensação de luto, estampados nos rostos de todos quantos estiveram presentes. “Foi-se a Arte, venceu a Ignorância!”

ProtestO eco produzido até acordou a Assembleia Legislativa, e antes que o deputado que usava pedir a cabeça de todos os governantes, proferisse o seu inflamado discurso, já o Secretário se prontificara a comparecer para justificar como longe estava ele de qualquer culpa.

No momento em que estas letras são redigidas, está a decorrer uma mega manifestação pró-democrata, em prole da arte urbana que segundo a organização do evento está a ser ameaçada de forma descarada e vil. Nas redes sociais, já se fala em interesses ocultos, das pontas de icebergs, dos Illuminati e das forças luciferinas. E mais uma vez se pede a demissão do Chefe do Executivo.

O velho Vong Kam, voltou à mercearia Leng Kei para a cervejada. Fizeram o transporte por ele e sobrou-lhe mais tempo para uma nova rodada.

Quando por fim localizaram Art Dung e lhe perguntaram sobre o sucedido, respondeu de forma honesta e sincera: “Só Deus sabe como tudo se passou!”. E mais não disseNinguém percebeu, mas todos concordaram que foi lapidar e profunda a sua mensagem.

Macau, 23 de Fevereiro de 2018, sexta feira

©Miguel de Senna Fernandes

7 thoughts on “A Obra do Art

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s