O Homem do Amanhã

“É hoje!”

A resolução não podia ter tom mais determinante nesse dia.

É hoje que vai ser!”

O coração bombeava o sangue para o cérebro, inundando-o de uma invulgar vontade de realização.

É hoje! Ou vai ou racha!” bradava em silêncio marcando indelevelmente a sua consciência, como se escrevesse a giz e em palavras gordas o quadro da sua memória.

Era o dia que decidira ser o ponto de viragem na sua vida.

“Tem de ser!”. Estava assim na cama depois de o despertador cumpridor do seu dever mecânico ter arrancado, uma hora atrás. Antes que hesitasse como tantas vezes fizera, saltou da cama, ante o olhar pachorrento, mas surpreendido, do felpudo persa Rufus.

A caminho da sala, passou pelo espelho da casa-de-banho e viu um indivíduo cansado, bolsas por baixo dos olhos, barriga de bebida, ombros caídos. Decadência em pessoa. Mas hoje rejuvenescido de esperança. Sorriu foi direito à sua secretária onde se encontrava uma única folha de papel com os dizeres a vermelho berrante: “MASTER LIST”.

IMG_6753O rol de coisas que teria de fazer para o dia, a única coisa que interessava, a única que teria de captar a sua atenção nesse momento, não obstante o entulho de jornais, postais, embalagens vazias de paracetamol, canetas sem tinta, fios de iphone, moedas, foto de passe, enfim habituais inquilinos da sua secretária, que ele tratou de colocar em tudo quanto era sítio. A sua mesa tinha de estar imaculada. Só  a lista-mor teria legitimidade de pousar aí.

Dormiu bem e acordou nessa manhã cheio de ímpeto. Rapidamente, foi aí dar uma olhada, como quem inaugura um frigorífico com um livro de instruções.

  1. Fazer o depósito da renda
  2. Telefonar à Bel para combinar a tarde com os filhos
  3. Buscar os fatos à lavandaria
  4. Arrumar a estante de livros;
  5. Despejar as garrafas de cerveja;
  6. Despejar a  pilha de cartas abertas e por abrir que estão na secretária;

A lista continuava, era longa, ambiciosa. “Seja comedido. Não queira mudar o mundo num só dia!”.  Lia-se no artigo que passara a ser lei naquele dia. De facto, olhando agora para o que planeara, fora levado em demasia pelo entusiasmo. A autora do artigo, escreve muito bem, pensou. Ela já tinha publicado outro sobre os benefícios de açaí. E outro ainda sobre a meditação

“Não, pára!” gritou para si quando dera nota de que já estava a vasculhar a internet sobre a articulista. Teve no entanto uma ideia melhor: iria tomar um banho primeiro. Nada melhor que um jacto quente de água sobre o corpo ainda sonolento que o despertaria para o resto do dia.

A água que se soltou tinha a temperatura ideal, mas não como o jacto que previra. Reparou então que um fio de água jorrava por um canto da mangueira. Desenroscou-a e verificou que a anilha já gasta exigia substituição. Lembrou-se de que, para o efeito, tinha comprado umas novas, que deixara na sua caixa de ferramentas, havia dois meses.

Foi direito àquela caixa, onde rapidamente as localizou, no meio de parafusos, porcas, fios eléctricos, pilhas enferrujadas, chaveiro. Como também viu, a multifuncional faca suiça, aquela que fora prenda de anos da sua ex-namorada, adquirida em Gongbei e que se soltava com facilidade, por causa de um defeito num dos eixos. E sabia como apertar o parafuso, pois comprou a chave para o efeito.

Encolheu os ombros. “Não custa nada!” e pegou na chave e pôs-se a apertar o malfadado eixo que, não obstante, teimava em não ceder. Afinal a chave não era bem aquela que devia servir, concluiu. Mas que importava, pensou, se era a única do género para o efeito? E com isso passaram-se dez minutos. Até o persa Rufus não resistiu à curiosidade de interrogar que raio estava o seu dono a fazer, de cócoras e nu.

Não conseguira afinal apertar a porcaria do parafuso, pois decidira que isso exigiria uma chave apropriada e ele não a tinha.

“Fica para manhã!” , sentença óbvia com fundamento bastante, achou.

Sentiu os seus pés ainda húmidos e lembrou-se de que tinha deixado o seu banho matinal por começar. Levou a anilha consigo. Mas esta, embora de tamanho apropriado, apresentava um orifício mais pequeno. Não obstante, atarraxou a cabeça do chuveiro na mangueira e rodou cuidadosamente a torneira. O jacto continuou frouxo e por isso aumentou a pressão. “Ahh!”, suspirava agora de prazer com o impacto da água no seu corpo mole. “Isto sim, isto é que é…” Mas nem terminou a sua cogitação, quando a cabeça do duche rompeu com a pressão acumulada no extremo da mangueira. A água esguichava para tudo quanto era sítio, qual fonte desamparada, atingindo o que estava ao seu alcance, desde o tampo da sanita ao espelho por cima da bacia, dela nem escapando o candeeiro omnipresente do céu da casa de banho. Rufus, completamente desfigurado pelo súbito banho que não pedira, atentava agora o dono como um leão esfomeado diante de um jovem antílope.

Mais uma hora tinha passado  e a lista-mór continuava ociosa na secretária. Olhou para a casa de banho, meneou a cabeça, enquanto secava o pelo do persa. Resignadamente, não lhe ocorrera melhor ideia que um “fica para amanhã”. Mas, rematou com um veemente “A sério!” para calar a sua consciência que lhe bradava todos os impropérios.

Fazer o depósito da renda, como item prioritário da sua lista, implicaria sair de casa, pois nem ele, nem o senhorio entendiam o que era isso  de “online banking”. O mesmo seria ir à lavandaria ou jogar as garrafas vazias para o lixo. Olhou para fora da janela, o sol raiava pleno, não obstante uma nuvem preta se formava no horizonte. Decidira que a chuva era iminente. A consciência voltou a dar coices fortes, mas ele calara-a com um “não quero aquela gripe estúpida, que apanhei naquele dia só porque achei que não iria chover. Ia morrendo, lembras-te?!”

Tão convincente foi o argumento que a consciência assentira em ficar em casa nessa manhã, para dar início à odisseia do dia.

As lições da senhora do artigo, foram peremptórias: começar de imediato com a tarefa menos interessante, custe o que custar, pois será pior fazê-lo no fim do dia. Pegou assim no seu telefone. As suas mãos suavam, o coração batia, começava a antever a conversa e antecipava a percepção da voz enfadada de alto timbre da Isabel. Pressionou para ligar e nada mais o faria voltar atrás. Enquanto tocava a chamada, o “Não” da Isabel enformava no seu íntimo, mas para ele o acto era já heróico e estava  para cumprir até ao fim. Quando finalmente soou a voz mecânica do outro lado da chamada, de que o destinatário não estava disponível, teve a sensação de que acertara na lotaria. Alento para mais um sonante: “fica para amanhã!”

lettersMirou de seguida para a pilha de cartas e artigos de correio para despachar. Outra tarefa difícil. Mas iria enfrentá-la, peneirando desde já a espúria do essencial. Ao cabo de dez minutos, exalou: tudo era importante. Desta vez não queria deixar para amanhã, iria resolver isso depois do almoço. E começou por pensar onde iria comer. Italiano, Mac, ou novo tailandês ao lado da FerreiraExpress? “Não, não, já estou a perder-me. Despachar cartas já!”. Retomou a tarefa das cartas, limitando-se a transferir a pilha de um lado para outro.

No meio da papelada já poeirenta, topou um sobrescrito. Uma carta de alguns meses. Reconhecera a letra redonda de menina da Ti Aurora. Prometera tantas vezes a si próprio que iria visitá-la. Sentia pena dela, depois do falecimento do Tio Eugénio. Mas a vontade escapava-se-lhe à última da hora, sempre que decidia dar-lhe uma olhada. Abriu e retirou dele um cartão de aniversário.

“Querido A-Pi, desejo-te um dia muito feliz, neste que celebras os teus anos. Contes muitos mais e que tenhas um ano de muito sucesso.Da tua tia que tem muitas saudades tuas.”

Sorriu. Era a mesma mensagem de aniversário que se repetia durante mais de quinze anos. Ela nunca se esquecia dele. Não que o importunasse – ela até nem lhe telefonava -, mas as suas cartas anuais causavam-lhe uma nostalgia e um sentimento de culpa de que devia prestar-lhe mais atenção. Não obstante, a visita à Ti Aurora ia sendo adiada, com a ideia de que esta não se importaria. De facto, nunca lhe fora dirigido nenhum queixume, ao invés, ano após ano, lá acontecia receber um cartão de anos, com os mesmos dizeres.

Prestes a despachá-la, quando reparou que havia mais qualquer coisa dentro do envelope. Ajeitou-o e retirou daí uma folha bem fina, daquelas que se usavam para cartas. Ti Aurora guardava tudo que pudesse ser reusado, mesmo as resmas de papel que o tempo tratou de amarelar.

“Querido A-Pi,

Estou a escrever-te, enquanto me lembro de ti. Não sei se o mesmo acontecerá se algum dia me vieres visitar. Por favor, não é para te sentires mal, acredita. Sei que a tua vida tem sido confusa, nestes últimos anos. É evidente que não tens tempo. Mas prometi à tua mãe que cuidarei de ti como se fosses o filho que eu nunca pude ter e assim terei de fazer o papel de chata. Já estou a sentir a ciumeira do Eugénio, mas ele também gostava mesmo muito de ti.

Como tu estás?”

IMG_6749Fez-se um profundo silêncio na sua alma. Algo das suas entranhas irrompia à rédea solta, pela espinha acima, desenvencilhando-se das amarras que ele tão cuidadosamente montara ao longo do tempo. A carta simplesmente o surpreendera, nesse que seria o tal dia. Esvaziou-lhe o propósito e encheu-lhe de remorso. Não dava mais para amanhã, era para já ou nunca mais.

Esqueceu-se da lista-mor, de Rufus, de tudo. Vestiu-se e em dez minutos estava de saída. Mas antes de se lançar à rua, arrasta consigo o grande saco de plástico repleto de garrafas de cerveja, rumo à lixeira.

Na rua, ligara para o asilo, mas a linha estava ocupada. A meio do seu caminho, deu-se com a lavandaria. Hesitou, mas rapidamente encolheu os ombros e lá entrou. Já no autocarro, tentava equilibrar-se, com o saco dos fatos apertado na axila, prosseguiu a leitura da carta, onde a voz da Ti Aurora soava pela sua letra de miúda, mais alto que o ruído circundante.

“Fiquei muito feliz quando te casaste. Achei que tinha cumprido a promessa à Emília, que o seu pequerrucho tinha crescido bem, se fez homem e agora iria constituir família. Estava mesmo a ver o sorriso da minha mana. Como são parecidos.”

Sorriu, lembrando-se também de como estava lindo de felicidade nesse dia, pois para além da bela moça que desposara, o semblante da Ti Aurora resplandecia de felicidade. Queria que ela presenciasse essa etapa importante da sua vida. Se mãe é única para muitos, ele tinha duas. E ela-a de verdade.

Saiu do autocarro e chuviscava. Com as mãos ocupadas, outra solução não teve que se abrigar num sítio, onde houvesse toldo. Estava a dois passos do asilo e, sem notar, à porta de um banco. Chovia agora copiosamente.

Enquanto esperava pela sua vez na fila do depósito, lia as palavras da tia.

“Que alegria me deste quando vieram os teus pequenos. Eram como se netos fossem. Mas a tristeza também chegou cedo quando as coisas correram mal. A Bel mal te fala e levou os meus pequenos. Bem. ela é mãe o que se há-de fazer?”

Sorriu novamente, quando a imagem dos seus gémeos Ernesto e Júlio lhe apareceu na memória. Tão lindos eram eles, com as covinhas da mãe, branquinhos com um tom rosado nas suas bochechas, de olhos entusiásticos fixos nele, como se dissessem “pai, que giro!” .Identical twin boys

Mas a amargura não tardou a sobrepôr-se, quando no idílico quadro que se formara na sua mente apareceram cenas de discussões violentas em casa, os gémeos em pranto, Bel aos gritos e ele próprio prostrado no sofá mirando a TV refugiando-se no silêncio, com o pavor de enfrentar a realidade. O coração apertou-se quando reviu a cena dos gémeos com os olhos fixos nele, não já de entusiasmo, mas de despedida que eles não entendiam, no dia em que Bel os levou para fora da casa.

Finalmente chegou ao asilo e subiu ao segundo andar. Mas Ti Aurora já não estava no quarto. A enfermeira informou-lhe que tinham mudado todos os idosos com necessidades especiais para uma outra zona, devido ao surto de gripe a que estariam mais sensíveis. Por um segundo temeu o pior, mas suspirou de alívio. “Dona Aurora, deve estar lá em baixo a descansar”.

E lá em baixo viu a Ti Aurora, estava sentada e de costas para ele. Ele hesitou e rapidamente pensou em várias frases por onde pudesse pedir convincentemente desculpas. 956px-Elderly_Woman,_B&W_image_by_Chalmers_ButterfieldMas antes que ele pudesse balbuciar algo, uma enfermeira interrompeu. Vinha com comprimidos e um copo de água. Mas notara que Ti Aurora, não dizia nada, o seu olhar era vago, como se estivesse a navegar em sonho, sem se fixar em algo real.

“Passa-se algo com ela?”

“A condição da Dona Aurora está a  piorar. Era uma senhora tão simpática quando cá entrou e tão rapidamente ela está a desaparecer”. A enfermeira fez uma pausa. “Você … sabia que ela está com Alzheimer em estado galopante, não sabia?”

Não respondeu e lembrou-se das outras cartas empilhadas ainda por abrir, a ganhar poeira algures perto da sua secretária. A partir daí o seu mundo se reduzira àquela senhora serena de olhar vago, sentada a seu lado, que tempos já idos costumava abraçá-lo, beijar a sua testa, cortar o seu cabelo, dar-lhe ombro para choro, fazer-lhe festinhas nas costas, sussurrar-lhe lenga-lengas de nanar, a quem ele ia comunicar as boas notas em matemática, o prémio de distinção na escola, a notícia de que fora aceite na faculdade, que acabara o mestrado com distinção, que casara com a mulher mais bela do planeta. A senhora a quem chamava de mãe.

“Cheguei, Ti”. Apertou nos seus braços a serena e frágil senhora, confusa e sem noção do que se passava. “Desculpa, Ti. Desculpa.” Foi o que soube dizer, sem ter de fazer apelo à consciência, pois o coração foi mais eloquenteMas pela primeira vez, desde há muito tempo, sentiu saudades antecipadas, porque a enfermeira não tardaria a voltar e lhe pediria que voltasse noutro dia, pois a enfermidade da Ti Aurora não permitia momentos efusivos prolongados.

old eyes

Deambulou pela cidade fora, sem querer ir para casa. O vazio nunca fora tão pesado, avassalador. Olhou para outro lado da rua e um novo estabelecimento de sopa de fitas inaugurava, no meio da estrondosa alegria, com muita gente a falar e a gargalhar ao mesmo tempo. Devia ser negócio de família, pensou. E ele caminhava, lembrando-se das últimas palavras da carta.

“Ando preocupada contigo. Não preciso que te dês com ela, pois dessas coisas de marido e mulher, cada um melhor saberá. Mas preciso que estejas bem, conformado contigo próprio, que te aceites, ainda que passes o resto dos teus dias sózinho. Mas sabes, é muito triste viver só num barco sem porto à vista.”

Parou e pegou no telefone. Doutro lado tocava e desta vez foi atendida a chamada.

“Bel… “

“Que queres agora?”. Era audível o tom ríspido da sua voz.

“Apenas queria que me desses um minuto para eu dizer o que tenho aqui dentro e prometo não telefonar mais. Sei que tenho sido um lorpa, a minha vida foi um caos, um autêntico monstro, um egoísta inveterado. “

“Deste-me a esperança de ser uma pessoa melhor, deste-me dois filhos que qualquer pai se orgulharia de ter, deste-me um lar que um marido pode ter de melhor. Mas nunca soube assumir a nossa família, fui um ingrato contigo e com os filhos.”

“Inicialmente liguei para combinar o dia com eles, mas preferi utilizar este tempo que me permites para te dizer isso, sem querer que me queiras de volta, mas apenas que saibas que estou triste comigo mesmo. Nem à Ti Aurora pude ser filho como ela merece. Não quero que te esqueças da merda que fui, mas apenas me perdoes o mal que vos fiz, para eu me reencontrar e me regenerar.”

Do outro lado Isabel não disse nada, a pausa foi dolorosa e por fim ela desligou. Sabia que ela não lhe diria nada. Mais nada restava, na verdade. No entanto, sentiu-se bem, mais leve ainda que continuava a sangrar o seu coração. Sentiu um novo alento, uma nova perspectiva de vida.APC_0005-hdr

Iria estar só mas conformado consigo. Passou pelo Petshop e comprou novos biscoitos e paté para Rufus.

Duas semanas passaram. Em casa despejou as cartas fora, todas sem excepção. Contactou o canalizador e encomendou nova toca para o persa. Era noite ele saboreava um prego e um sumo ante o olhar sereno do felpudo Rufus. Via-se que estava mais reconciliado com o seu dono.

Faltava recolocar os livros na sua estante quando a campainha toca. Deve ser a mulher de limpeza do automóvel. Embora em bom rigor aquela limpeza não se justificaria, pois o carro não saíra do lugar durante o mês todo. Não obstante, empunhava o dinheiro quando abriu a porta.

Dois pares de olhos entusiásticos, miravam-no de baixo para cima, com sorrisos que vincavam mais as covinhas idênticas. Seguiu-se uma voz feminina mais serena, branda e esperançosa.

“Podemos entrar?”

Macau, 24 de Agosto de 2018, sexta feira.

© Miguel de Senna Fernandes

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