NOITE DE BABALÚA

Ela sabe o que pensamos, como dizem.

Já no início da nossa existência, paira no alto do céu e nos observa em silêncio, com um ostensivo brilho que sempre nos intrigou. Não tão fulgurante como o seu parente durante o dia, ela permanece discreta na noite, marcando com a sua mudez uma presença indelével. Dizem que conversa connosco também, sussurrando-nos sobre o que o destino nos reserva. Ou então, somos nós que privamos com ela, confiamos-lhe o nosso imo, como se nossa confidente fosse. A ela dirigimos as nossas preces e súplicas e com ela explicamos os estados da alma, desde a euforia de um namoro bem sucedido ao devaneio de uma perda irreparável.  Dedicamos-lhe a música, os nomes, o dia da semana e comemorações.

No entanto, o que mais fascina nela são as histórias que conta através da nossa imaginação. 

A Lua não escolhe nem o enredo, nem o desenlace do herói, mas no seu silêncio luminoso no cimo do firmamento, comove-nos e alimenta o imaginário que vai ganhando vida e sentido nas nossas mentes.

Histórias que não ocorrem ao Diabo, como esta que se diz ter passado no velho e emblemático bairro de S. Lourenço, em Macau.

Havia um tempo em que o nobre bairro de tradições seculares, albergara a fina nata da comunidade portuguesa macaense. Fora eleito para poiso dos mais altos dignitários da velha administração portuguesa, tão belo e enigmático que até os então governadores da Província de Macau relutavam em dele sair, para visitar outros locais, como  demandava o seu ofício. 

Tendo como referência central a Igreja de S. Lourenço, o bairro abarcava em toda a extensão desde a Praia Grande à Praia do Manduco, passando pelo barroco Seminário de S. José, desbravando-se pelo Lilau(2) fora até ao Templo de A-Má. 

De calçada portuguesa, as suas estreitas e sinuosas ruas desenhavam-se sobre  o desnivelado relevo da colina encimada pela Ermida da Penha. Não era fácil para quem tinha de as percorrer a pé todos os dias, num infindável subir e descer, sobretudo nos dias de chuva ou na época da densa humidade, em que ventos quentes do Mar do Sul se esbarram contra o ar ainda fresco do fim do Inverno.  

Chegava-se a ele quer pela Praia Grande, quer pela Rua Central, que outrora ligava a Igreja à Sé Catedral, mas que fora cortada a meio com a construção da Avenida de Almeida Ribeiro, no início do século XX. Mas, também se lhe acedia, subindo do bairro chinês da Praia do Manduco através da Rua Inácio Baptista, ou pelo emaranhado de ruelas da zona do Seminário.

Do casario dominante, com um máximo de três pisos, havia as portentosas mansões das grandes famílias chinesas e macaenses, ao estilo emprestado da art deco, com amplas varandas que serviam de alpendre para o piso térreo, havia também as moradias mais pequenas e modestas, habitadas pela classe média, funcionários públicos, polícias, gente mais humilde, estas porventura as mais graciosas que se desfilavam pelo bairro todo, estreitas com porta de madeira, duas janelas com veneziana.

O bairro era pacato, onde se ouviam as horas badaladas nos sinos da Igreja, os pregões que se sucediam suavemente durante o dia e noite, desde o cântico desafinado do amolador de facas e tesouras, ao chôro do velho vendedor de catupá(3). As bicicletas, motas e lambretas eram rainhas que transitavam alternadamente, ritmo que se completava com percussão do tim-tim, que chamava pelos despojos das famílias a troco de uns avos.

Havia também baldio, casas abandonadas e terrenos apenas aproveitados para entulho de obras vizinhas, onde crescia a vegetação selvagem. Escuros à noite, eram ideais para as escapadelas, namoricos não autorizados e outras coisas mais ousadas, numa altura em que o pudor, a decência e os bons costumes primavam em ser temas fervorosos da devoção católica no púlpito da Igreja. Também nestes locais, a juventude se juntava para fumar, longe da vigilância dos pais, para cantar, para fazer toda a espécie de dislate.

Esse estado de abandono ganhava outra mística, nas noites em que a Lua resolvia dar uma espreitadela. O pessoal da noite ganharia outro alento que de outro modo aturaria o lúgubre da má iluminação, ao som do repicar dos sinos.

Babalúa, babalúa (3)
Lúmi di iou-sa coraçám
Quando vos-tem na rua
Iou nádi tem pensám (4)

Eis uma possível lenga-lenga que se soltaria da boca de gente antiga de Macau, sob o lânguido olhar da majestosa Lua Cheia, nas noites do seu maior fulgor, em que destinos se mudam, vidas se transformam e opções se alteram. 

E assim foi numa das noites de babalúa no S. Lourenço, numa das histórias que passo a contar.

A noite caía depressa e não tardaria muito que a malta o viesse buscar.

No seu recanto ele se aprumava, enquanto na sala havia música, gargalhada, tilintar de copos, talheres e pratos. Era mais uma daquelas enfadonhas festas que se davam em casa, de que não tirava outro proveito que testar a sua paciência. De quando em vez, alguém entraria para pousar um casaco, uma mala. Cumprimentavam-no efusivamente. Para ele, contudo era uma constante irritação, um convite para sair daí de vez.

“Onde está a privacidade?!”- bradava em silêncio.

Durante horas de paramento, limpava o seu bigode fininho, ensaiava vezes sem conta a sua pose, esticava os seus membros, as suas costas, para se manter intacta a sua flexibilidade. Ao espelho mirava-se treinando o olhar de lince, letal numa noite de luar como essa.

Certificou-se de que a hora chegara. Sentiu-se limpo, esguio e luzidio.  O seu trabalhado olhar deu mais uma mirada ao espelho. Aproximou-se da janela ansiosamente. Estava elegante, tinha estilo, estava pronto.

Sentia o nervosinho. Iria ser a noite em que ele provaria ser gente, crivo por que passariam todos como ele. Teria que fazer algo de extraordinário que o acaso definisse, que só a heróis correspondia. Ainda sentia a dor que vinha das costas. Resquícios de uma briga ocorrida havia duas noites. Saiu-se bem, foi bravo e aguentou os golpes do adversário. O grupo até aplaudiu o feito, todavia não valia para o que se preparava. O que uma luta por mais arranhada fosse podia mostrar? Que áurea podia ganhar? Era mais uma entre muitas outras rixas que encontraria no futuro. Sem glória, nem memória. Nada valia. 

Até porque Daisy não estava presente. 

Curvou-se sobre o parapeito da janela, de queixo sobre as mãos, e concentrou a mente nessa beldade. Lembrara-se da primeira vez que a vira e começara a admirá-la. O seu coração bateu mais depressa, quando evocava imagens do seu pachorrento e sedutor andar. Ela sabia dos famigerados olhares que todos lhe lançavam, ciente do silêncio que ela causava ao passar por todos, caminhava propositadamente com mais pausa, meneando as suas ancas, rebolando o seu traseiro, as suas pernas cada uma cruzando sobre a marcha da outra. Sabia da lascívia que causava àquelas mentes famintas de amor. Por fim pousaria o seu leve corpo de deusa, ladeada de suas amigas intimas, observando todos, sorrindo com desdém. Ninguém no bairro mexera com a alma de todos e despertara tanta cobiça como aquela endiabrada. Daria tudo para chamar a sua atenção, brigaria com qualquer um para cair num segundo que seja na sua consideração. Lutar por ela faria todo o sentido. Ganhá-la seria afirmação da masculinidade. Eis a almejada áurea. 

E não havia meio de a malta chegar.

A noite avançava, mais uma hora se tinha passado. Lá fora a Lua subia altiva, lançando sobre ele o feixe luminoso, urgindo a que saísse da casa, onde nada aconteceria. Até porque não se conteve em pensar na possibilidade deles se terem esquecido dele, tal o frémito que Daisy e o seu séquito de boas amigas, causava à rapaziada.

Sorrateiramente, pressionou a alavanca da janela que de seguida se abriu o suficiente para que o seu corpo fino pudesse passar. Não a fechou para garantir o seu regresso. Deu um salto de mestre, mas os seus pés foram ter com uma lata de conserva abandonada. O ruído da queda no entanto não incomodou. Estava fora, enxergou lá para cima, havia luzes. A festa não tinha terminado e prometia prolongar-se pela noite fora.

Ainda que caísse o céu, estava já na rua. E ninguém o deteria  a venerar Daisy dos seus sonhos, que nem um doente. O luar não fazia mais nada do que criar desejos, nessa noite de babalúa em que a dona subia cheia, inspirando loucos e apaixonados. 

Seguia por caminhos  habituais e é nesses trajectos que encontrava os compinchas. Seriam tantos que a vizinhança não tardaria muito em lançar água, sapatos e outros objectos para a sua dispersão.

Porém esta noite, algo de diferente sentiu. Onde estão eles?

Nem um único indício da sua presença habitual. A rua estava deserta e ele caminhava sózinho e pela primeira vez sentiu um calafrio.

“Não me digam que já estão com a Daisy. Safados. Só podia ser!” O galante Pompim do muro do Palácio, o esfomeado Puchini do capelão italiano e o arguto Giga-Magica da loja de aluar, estes não deixariam as oportunidades passar.

“Sacanas, isto não vale, é jogo sujo”- falava para os seus pés.

À medida que pensamentos de revolta cresciam, mais impaciente ele se revelava. Mas algo estranho acontecia. Chico-Bucha, o mais pesado que preferiria estar à chuva a correr, também não estava.

“Psssssssttt” alguém interrompera os seus pensamentos. “Para aqui, já!” Era o Seco-Mirado, o solitário esquelético do bairro, com quem ninguém queria coisa alguma.

Encolheu os ombros. “Mas, o que se passa?”

“Cala-te e vem já para aqui”

“Que é dos outros?”

Seco-Mirado não vai de modas, sai do seu esconderijo e empurra-o para o abrigo. Nunca de motu proprio  fez algo semelhante, mas o instinto de salvar alguém marcou o timbre.

“Explica-me o que se está a passar!”

“Estão todos presos. Não na cadeia, mas presos nas grades. Pegaram-nos um a um e estão num grande armário metálico por trás da casa da loja do aluar.

“E o Giga?”

“O Giga coitado tentou reagir. Resistiu como um valentão. Mas a força do gigante é imensa, pegou-o pelo pescoço e quase o esganou. Meteu-o na jaula, já inconsciente.”

“E… viste a Daisy?”

Seco pausou. “Ohh… a miss…! Meteu-a numa outra jaula com as suas amiguinhas. 

“E tu? Como conseguiste safar-te?”

“Achas que alguém se dará ao trabalho de me fazer mal?”, ripostou com sarcasmo. “Mesmo assim, tive que me esconder.” 

“Por que razão haveria alguém de fazer uma coisa destas? Só a polícia pode fazer isso, não?”

“Sei lá, acho que tem a ver com o chinfrim que vocês têm feito nestes últimos tempos. Há muita gente nova a morar aqui e nem todos acham piada aos vossos urros e uivos pela noite fora. E agora que se juntam também as gajas, tás a ver a festa! Bom, portanto já sabes, é melhor pirares-te daqui.”

“Seco, leva-me até onde se encontram. Eles precisam de mim.”

Seco interrompeu a sua marcha e esboçou um sorriso cáustico.

“Jafa, aquela catrefada de brilhantes não precisa de ninguém, precisa é de ser queimada viva. Sempre se julgaram senhores do bairro, punham e dispunham de todos que não gramavam”.

Jafarel arrepiou-se com o tom recalcado que vinha daquela boca. 

“Via-te com eles e isso só me metia dó” continuou Seco. “Mais, um pateta que se junta a uma cambada de inúteis, falava disso para as minhas unhas, sempre que te via cegamente enfileirado naquela corja de gente.”

“Então porque me estás a avisar do perigo?” – retorquiu Jafarel, impaciente com a conversa que só lhe estava a roubar tempo.

“Porque apesar desse ar de camafeu que queres ter, és uma pessoa de bem. Por várias vezes evitaste que eu levasse um enxerto de porrada. Seco-Mirado não se esquece dos que lhe querem bem”. 

Ocorreu-lhe a imagem de Seco com a face enlameada e os olhos arrancados de horror ao tentar flutuar numa poça de dejecto, tragando goles de impureza, enquanto todos se gargalhavam à custa desse espectáculo deprimente de luta pela vida. Soube-se que ele ficara muito doente com intoxicação e só por sorte não virou cadáver.

“Por favor, diz-me onde eles estão. Viste a Daisy, como ela está?”

“Hi hi” contorcia-se Seco de gozo. “Ah… Já percebi. Querias lá saber deles! Pretendes é saber onde está a Daisy!… ahaha… Podias ter-me poupado este discurso todo…”

“Seco!” – sentiu que a sua voz rasgava o silêncio que era preciso manter  e ambos se retraíram. Segundos depois, certificando-se que não houve consequências de maior voltou a inquirir. “Vais me dizer?”

Seco ficou sério. Os seus olhos apontaram para a direcção onde todos foram parar.  Meneou a cabeça com pena.

“A partir daqui, dou a língua às minhas mãos e estamos quites. Não te devo mais nada.” Desapareceu num ápice.

Jafarel seguiu a direcção indicada. Cautelosamente como lince à espreita da sua presa, introduziu-se na pequena mata que havia ali formada de muita vegetação e arbusto. A Lua subia e iluminava o caminho que doutro modo seria negro como breu.

O seu passo abrandava, à medida que avançava pela ramada que se adensava. Era leve e silencioso, que até permitia ouvir o cântico dos grilos e de outros bichos que pela mesma razão eram chamados pelo luar.

Por fim deu com o ruído abafado no fundo do mesmo caminho.

“Jafa… ! Qui!”

Mesmo sem conseguir enxergar, reconheceu a voz de Puchini. A escuridão nunca lhe fora um estorvo, todavia havia algo que lhe impedia uma melhor visibilidade. Adiantou mais uns passos.

“Tá quieto, puto” advertiu Pompim. “À tua frente está uma rede armada. Se avançares mais ficas lixado como nós!”

Jafarel, manteve-se imóvel por um instante e suavemente aproximou-se da rede. Era fina mas rija e cobria uma superfície várias vezes o seu tamanho. Não admirava que qualquer incauto cairia na malha. Olhou à sua volta e reparou que a mesma estava presa em ambos os lados a arbustos, aparentemente,  frágeis. Por fim localizou a jaula colocada por cima de um plano rochoso, a uma considerável altura.

 “Estão bem?!” procurou saber, ao mesmo tempo estudando a forma de contornar a rede.

“Não podemos mexer. O Giga está ferido. Levou com o pau nas ventas e está ainda a sonhar …”

“Vamos morrer todos!” choramingou Chico Bucha.

“Pôfa, Chico, mete o teu focinho noutro lado ou ficas sem ele!” vociferou Pompim.  

“Estávamos todos à esquina dos Salesianos, à espera do Giga, quando ouvimos o seu grito. Apressámos o passo e num instante estávamos aqui. Vimo-lo inconsciente deitado ali no chão. Ficámos preocupados pois ele não se mexia. Seguidamente veio o som dum petardo e depois outro. Assustámo-nos e corremos em direcção oposta e  demo-nos com esta rede. Que cilada!”.

“Mas, faz bastante tempo que a polícia não fazia este trabalho.”

“Pois, cos’altro ci accadrà?!” Puchini meneava a cabeça de desespero.

“Pucho… pára lá com esse patuá de esparguete pode ser??” ripostou Pompim.

“Não sairemos vivos da porrada! Já levaram cinco antes e nós somos a seguir” Chico Bucha já gemia de ansiedade, qual condenado à câmara de gás.

“Temos que sair daqui!” Jafarel sabia que não convencia, mas precisava de dizer algo para pôr o seu raciocínio a funcionar a todo o vapor. “Precisamos de ajuda”.

“É só chegar ao topo desta jaula e puxar a vareta de correr. Já vi abrir coisas assim. Não conseguimos por aqui dentro, tem de ser feito por fora. Ma sei solo…! ” 

Da sombra sai a figura franzina e sombria de Seco-Mirado.

“Seco!”, entusiamou-se Jafarel.

Puchini repara nele põe as mãos à cabeça. “Jafa… Perchè?? A cosa ti serve un eunuco como lui?”

Seco engoliu a humilhação sem pestanejar, mirando impávido  para os seus patrícios no desespero da sua clausura. Era a alcunha que mantinha aberta a ferida no seu ego. Sem saber como lhe aconteceu, dum dia para outro acordou sem os testículos. Sofrera sempre muito com isso.

“Pára Pucho, não fosse ele, estaria eu longe daqui”

“Já nem sinto os meus tomates! Vou morrer sem ver a minha mãe!”, o desalento de Chico Bucha tornava-se contagiante.

“Ahhh…Eu tenho é dores de cabeça. Ai…!” Giga retomava consciência com as mãos à cabeça, “o sacana tem cá uma força! Só me lembro de ter voado contra aquela árvore. Sacrista o gajo!”

“Giga! Acordaste finalmente. Pensámos que patinaste de vez, porra!”, exclamou Pompim ao ver o seu amigo recuperar a alma. 

“E a Daisy? Onde elas estão?” Jafarel não escondia a sua aflição.

“Ahh ma ora capisco perchè… estás cá com aquele eunuco não por nossa causa!” Puchini picou com sarcasmo. “Bastardo. Eu devia tê-la mangiato!”

Antes que Jafarel pudesse responder, sussurrou Seco do alto da árvore “Jafa, por aqui!  Há uma brecha por onde podes introduzir-te, sem problema algum. 

Não leu a razão da sua mudança de ideias, mas naquele momento, Seco era no momento um auxílio irrenunciável. Seguiu as suas instruções, e rapidamente estava no topo da árvore, mesmo em cima da jaula e tinha ultrapassado a rede meticulosamente montada, a qual cairia sobre qualquer coisa que a tocasse.

Podia observar os outros em baixo, lutando com a falta de espaço. Todos olhavam-no atentos, com a esperança de serem libertados. Todavia, Jafarel queria saber de Daisy.

Seco indicou o local, que ficava uns cinco metros do sítio onde todos se encontravam.

Jafarel então moveu-se ao sítio indicado, sob protestos da malta. Não queria saber. A sede por Daisy era a prioridade a satisfazer.

“Jafa… vieste!”

A sua voz de veludo, com tons nasais pronunciados, era simplesmente irresistível. Mesmo naquela situação de aflição ela teve o condão de o entesar. 

“Daisy, estão seguras aqui e por enquanto nada de mal vos acontecerá. Mas, neste momento a malta lá em baixo precisa mais de mim. Volto já, prometo.”

Não esperava que Jafarel a relegasse para o segundo plano, mas nem por isso ficou aborrecida. Isso mostrava personalidade que curiosamente ela apreciava muito num macho.

Jafarel de volta pousou sobre o topo da jaula estudando a maneira de abrir a jaula, pelo topo. 

“Despacha-te Jafa…não tarda muito voltarem”

“Estou a pensar, estou a pensar…”

“Não penses tanto. O amor não está lá em baixo!” O sarcasmo de Seco não se fez esperar.

Jafarel, reparou que uma trava de bambu fechava a portinhola no topo da jaula, o qual por sua vez era ligeiramente convexa, o que tornava difícil deslizar o bambu, quer para diante, quer para trás. Para se soltar, era mister pressionar-se essa parte para baixo.

“Isto está impossível”.

“Estás a perder tempo!”, Seco avisava.

“Jafa não queres saber de nós?”, gritava Daisy do outro lado, acompanhada dos sussurros das amigas.

“Pompim, Chico e Pucho, preciso do vosso peso para que essa portinhola se abaixe. Temos de fazer ao mesmo tempo. Vou contar, e à terceira empoleirem-se na grade enquanto que eu salto por cima e vamos ver se conseguirei soltar a trava.”

Todos acharam estúpida a ideia, mas não lhes custava nada tentar.  Sem perder mais tempo Jafarel contou:

“Um, dois e … três!” nada. 

“Um, dois e…três!”, em vão. 

“Um dois e … três!”, grito de suspiro.

Já lá ia a décima quinta vez que Jafarel pulava sobre o local em questão, sincronizando-se com os três feitos macacos, sem que concretizar o seu desiderato. No desespero – até porque Daisy já estava a reclamar da falta de atenção – contou pela última vez…

“Um, dois, três…que sa f………” com todo o seu peso caiu sobre a jaula. Desta vez, também Seco emprestou o quanto valia de peso a sua esquelética carcaça, atirando-se também sobre ela. A violência do embate causou um balanço da jaula para a frente. Todos gritaram quando a jaula rolou para a frente e tombou. Pompim estava debaixo de Puchini que acabou de levar uma bofetada despropositada de Giga. Chico-Bucha enviesado desequilibrou de tontura indo por cima de todos. Grande gritaria.

No entanto a jaula abriu-se, para o espanto de todos. Um a um saíram, mas tiveram dificuldade em libertarem o obeso Chico, admirando de seguida como ele foi lá metido.

Num ápice desapareceram todos. Jafarel retornou ao sítio donde saltara, para depois ir ter com a Daisy. No entanto ouviu passos de alguém a chegar. Escondeu-se sem no entanto assinalar Daisy e amigas para se manterem em silêncio.

O homem foi rente à jaula onde supostamente a malta estava. Jafarel aproveitou-se para tentar o mesmo que fizera antes, derrubando a da Daisy. Não conseguiu, pois o homem descobrindo que os “bandidos”se tinham libertado voltou para verificar se a outra ainda se encontrava intacta.

Estava visivelmente furioso. Abriu a jaula e pegou em Daisy bruscamente. E ela gritava. Jafarel tremia de medo, mas não podia ficar impávido e sereno perante a situação. Tinha razões para temer. Perante um gigante havia pouca margem para mais arrojo. Daisy não parava de gritar de pânico, nem ele tinha outra solução que enfrentar o gigante. E mostrou-se.

“Com que então seu camafeu, soltaste os teus compinchas e agora voltaste para proteger a donzela, hein?”

Jafarel engoliu seco e não respondeu.

“Muito bem e que tal assistir a pequena ficar sem ar?” começou a apertar a garganta da Daisy que esperneava de pavor. “Que espectáculo, né. É esperar mais um pouco e ver como gente da vossa laia deve acabar” E virou-se para a apavorada Daisy e apertou ainda mais.

O que não esperava foi dar com a cara de Jafarel ao voltar a mirá-lo. Este esmurrou, mordeu, arranhou, fez uso de tudo ao seu dispor para salvar a donzela das garras deste gigante. Um dos golpes atingiu mesmo a cara do homem, ferindo-lhe um dos olhos. Por sorte não lhe afectou a visão mas foi o suficiente para soltar Daisy. As suas amigas aproveitando-se da situação saíram espavoridas da jaula.

Jafarel apressou Daisy para o único atalho que no momento atentou, para darem depois com uma betesga, quando o homem já recomposto voltou à carga.

“Mas  estás a brincar com quem?!”, avança com um pau enorme, pronto para desancar. 

Jafarel olha para Daisy e assegurou-lhe. “Ninguém te fará mal! Juro!” e cobre a donzela com o seu corpo esguio esperando a pancada que se seguiria.

No momento em que o homem levantava o seu braço para a paulada, Pompim, Giga e Puchini, lançaram-se sobre ele. A força dele era imensa e pegou em Puchini e lançou-o a metros de distância. Havia que se livrar dos outros dois que não o largavam. Mas os três não cessavam a sova que infligia ao monstro. Atacavam-no com uma ferocidade invulgar.

“Jafa… pisga-te agora!”, era a voz de comando Pompim, antes de voltar à carga do desgraçado.

Jafarel encheu-se de orgulho. De mero atalaia do grupo, passara a ser membro de pleno direito, merecendo a solidariedade dos outros, sem necessitar de mais provas de bravura. Demonstrara o bastante e ganhara estatuto.

Tinha de colocar a Daisy em local mais seguro. Mas, fugir não estava nos seus planos. O ímpeto da noite inspirava-lhe mais arrojo, mais determinação na afirmação da sua singularidade que todo o bravo mereceria.

“Ficas aqui. Vou ver onde estão as tuas amigas.”

Os três companheiros de luta gritavam de fúria, mas o gigante parecia invencível. Por fim conseguiu desenvencilhar-se de dois e pegou novamente em Puchini pronto para lhe virar a cabeça.

Jafarel gritou:

“Seco!! “

Nem fora necessário. O eunuco já se tinha lançado do alto da árvore sobre o gigante no momento do brado, desferindo-lhe mais golpes no pescoço. Decididamente queria também ser gente e era essa a oportunidade. O monstro, atordoado, tapou a zona afectada, libertando involuntariamente o italiano. E quando recuperou a atenção, vira dois cristalinos mirones de pupilas dilatas, de alguém que se arremessara para a sua cara, com argumentos para disputar o momento. E sucessivamente, recebe uma, duas e três naifadas executadas com precisão. Era o mesmo sujeito que teria feito o mesmo momentos atrás, mas que agora, como que tivesse detectado o seu ponto fraco, repetia a façanha com melhor destreza, mais certeira, mais letal. O gigante recuou e perdeu balanço, tocou na rede que caiu sobre ele.  

Desta vez o odor a sangue fez-se sentir nas narinas de todos. Jafarel arfava, com adrenalina à tona, estava pronto para a nova investida. E assistiu o mastodonte confuso, indo de encontro ora de uma árvore, ora de uma rocha, procurando sofregamente recuperar o seu tino e voltar para a luta.

Pompim, Puchini e Giga-Magica não escondiam o embaraço e surpresa que Seco lhes causara. Mas, a admiração pelo puto que se tornara adulto, marcou para sempre nessa noite de babalúa. Todos estavam prontos para o momento derradeiro, quando o monstro deu um urro de sofrimento, saindo do recinto com cara tapada, visivelmente derrotado.

Gritos de alegria ouviram-se no bairro, que até provocaram o latir de cães. Mas, foi por muito pouco, por deliberação dos três. 

“Temos o herói da noite. Merece o silêncio e discrição”, todos desviaram o seu olhar para um mesmo ponto e sorriram com manifesta cumplicidade.

“Obrigado malta, mas bravura temos todos, cada um no seu papel”. 

“Todos menos eu…” ouvia-se do escuro em tom mais baixo.

“Chico, pô… és um de nós!” consolava-o, Giga.

“Eu sei, mas gostaria de ter feito melhor”

“Estamos juntos, Chico”, Jafarel assegurou-lhe afagando-lhe o ombro.

“Ok turma, vamos deixar o nosso campeão jantar em paz!” –  risos de ironia.

“Jafa, aceito restos! Estou com tanta fome!”, Chico rematou, o que provocou mais risada. 

“Vamos todos … Pucho?”, interrogava Pompim.

Aspetta… ainda falta um” – todos viraram-se para Puchini, quando este chama para o escuro. “Seco?”

Não se ouviu som algum, mas sabiam que ele aí estava a observar e a escutar, como sempre fazia em todas as ocasiões da confusão.

“Estamos à tua espera, Seco … tempo di mangiare”.

 A folhagem então produziu som de movimento. Era intenso o seu olhar em Puchini. Não pestanejava porque sabia que também provara ter sido alguém nessa noite.

Graze!” 

Havia muito tempo que não sorria de coração, Seco olhou para a Lua e sussurou-lhe algo. Crê-se que, à sua maneira, agradeceu-lhe também.

Jafarel suspirava de alívio, ainda mal alcançando o real significado dessa noite para ele. Mas soube bem ter feito algo  com a malta. Soube ainda melhor ter sido o seu esforço reconhecido. Era altura de desfruir o seu momento.  

Daisy estava deitada no canto resguardado da vegetação. Sorriu quando Jafarel se aproximara.

“És o meu herói”. A cabeça dela roçou no seu pescoço. 

Lutou por esta noite, por este resultado, mas não acreditava que tinha o seu precioso troféu entre as mãos. E agora? Estremeceu de súbito ante esse pensamento. Ela aí estava toda para ele, derretida nos seus braços, à mercê da sua vontade, rendida à sua bravura. O que um herói faria de seguida? 

Hirto, Jafarel tremia por recear que qualquer movimento pudesse estragar a noite, que sabia ser dele. Deveria beijá-la já, por a mão no seu ombro? Encostar o seu nariz à sua face? Não podia ser assim, ele não fora educado para ser rude, um reles do bairro, ele era da família de gente boa, educada, com maneiras. As meninas são preciosidades que os meninos deveriam aprender a respeitar, há regras para tudo e até para o namoro. E …

“Jafa… estás à espera de quê?” ria-se dele que ainda cogitava a melhor forma de se aproximar dela. Por fim, não encontrava a solução com aquilo que aprendera. A memória não dava para tudo, e era impotente numa situação de emergência. Mas aprendera também do velho Leôncio dos lados do Seminário: “Quem está à rasca, ou vai ou racha!”

Virou-se para Daisy que ainda o mirava com olhos de pupilas dilatadas, e não foi de modas. Saltou por cima dela e antes que ela pudesse recuperar-se da surpresa, prendeu-a por baixo de si e ajeitou-se instintivamente.  Ela não mais podia mexer. Vulnerável ela exibia o seu corpo em total rendição, sem vontade alguma de se proteger. Ela queria o seu herói, que arriscou a sua vida e lutou por ela conquistou o direito de a possuir. Jafarel correspondeu. Num golpe penetrou-a. E há muito que o Lilau não ouvia tamanho uivo.

Por fim, feliz ela virou-se para ele, sorriu perante um Jafarel de olhos bem cerrados, tremelicando de espasmo. Sabia que o tinha também conquistado. O novo herói do bairro, o eleito para ser o pai da sua prole. Sentiu-o beijando-o e lambendo o seu esguio pescoço, enquanto ele se recusava a sair dela. 

“Vou-te ver de novo, amor?Sempre, a toda a hora, coladinho a mim? Não te quererei longe.”

“Mas tenho casa para voltar e…”

“Eu também, mas onde estou há lugar para ti e … para os nossos. Ai faremos tantos.”

“Daisy… falas a sério?”

“Nunca fui tão séria. Vi muito e muitos. Sem saber, andei à tua espera há muito tempo e chegaste. Não te largarei, nunca mais. Sou tua.”

Ele mirava-a seriamente. “E tu és meu!” acrescentou. Jafarel não sabia o que dizer ante a mulher do sonho de todos, que aí estava diante de si rendida à sua vontade. Porque algo arrepiante atravessou o seu esguio dorsal. Não vislumbrava o quê, mas algo inquietante o espreitava. Esta noite provou a sua valentia, já não era o moço do bairro como no dia anterior, deixara de ser o aprendiz que bebia sem fim os ensinamentos dos mais velhos. Ele virou gente com fibra e os seus pés pisavam solo próprio, sem condescendência de ninguém. Esta noite conquistara a dama do bairro que aí estava a seu belo prazer. Os tempos de limitação terminaram e agora os horizontes vão para além do que todos os dias podia pela sua janela. Janela essa que também se lhe abria agora para outras aventuras que jamais teria imaginado para si. Não podia, nem queria voltar para trás. Descobriu a sua natureza em toda a sua plenitude, um ser livre que só a morte pararia o seu ímpeto.

“Vou para a minha casa.”

“Então vou contigo”, ela espantou-se com a falta de reacção de Jafarel. “Já percebi, fui uma conquista e agora já sou passado. Porque todos são assim?!”

“Daisy” hesitava a prosseguir ante o anúncio de um pranto. “Não faço parte destes “todos”. Apenas despertei para um novo mundo onde tanto me espera ver. Eu quero vê-lo com olhos de ver, sem amarras”. 

“Não podes ver esse mundo comigo?”

“Daisy… peço que me perdoes, não nasci para ser egoísta, mas neste caminho tenho de andar e tropeçar por mim. Entendes?”

“Mas somos um do outro!”

“Tu és tua, Daisy e … eu sou meu”.

Ninguém deu conta de que entrara em casa, por onde saira.  D. Gertrudes lavava os pratos, despejava o resto de comida no caixote de lixo. O jantar foi rico e pesado como de costume, regado a vinho do melhor. Capela, mínchi, galinha chau-chau parida a rematar com um arroz-doce e baba de camelo.

– Isto vai ser uma jantarada para a malta! – Falava alto para os seus botões, ao arrumar cozinha referindo-se satisfeita de ter mais uma vez recebido bem. Era motivo de orgulho, a fartura de comida e o receber bem. Não se importava com o que se desperdiçava, o que interessava era que todos voltassem para as suas casas a lembrarem-se dos bons jantares da D. Gertrudes.

Cantarolava satisfeita que ele passou pela cozinha.

– Olha, onde andaste metido meu maroto? Agora deu-te numa de andares às escondidas? Ai… Como cresceste! – Sorriu docilmente e fez-lhe a festinha na sua cabeça, indo de seguida para a sala de estar. Passou pelo gira-discos e pôs a agulha a deslizar sobre o vinil sonoro. Sentou-se no sofá e a voz de Bobby Vinton entoou “Blue Velvet”.

Subiu ao regaço da D. Gertrudes. As suas mãos macias de mãe deslizaram suavemente no seu macio pelo castanho dourado. As suas orelhas em riste captava sons que não compreendia mas que lhe eram tão enternecedores. Até a cauda serpenteva ao som da música.

– Então o menino gosta desta música? Era a música que o Armindo adorava – sorria D. Gertrudes no conforto do seu habitual sofá. As suas mãos passaram pela sua perna e Maxi encolheu-se. 

– Que te aconteceu? Andaste às zaragatas? – brincava. – Ó Maxi!

Era a palavra a que se habituara a ouvir, quando a D. Gertrudes se lhe dirigia, calculou que fosse o nome que essa mamã lhe dera. 

– Não faz mal, mamã vai cuidar de ti.

Como ele adorava estar nesse regaço onde existia um calor inigualável que lhe aquecia a alma e lhe dava a certeza de segurança. Mas, essa noite ele deixou de ser o menino de olhos felinos da D. Gertrudes. 

A campainha tocou. Era o Boaventura, zelador da Câmara do Leal Senado, uma figura austera de cerca de dois metros de altura que, nas horas vagas e para proveito próprio, fazia biscates para os moradores do bairro. A sua arte consistia em afugentar a bicharada selvagem que pululava pela vizinhança. Cães rafeiros, gatos vadios, ratos, cobras e lagartos, nada escapava à sua mão exímia. Os seus favores eram muito apreciados, especialmente em noites de lua cheia, em que, segundo se contava, até os loucos ficavam mais silenciosos, tal a lenda que o Boaventura criara. 

– Boa noite, D. Gertrudes. Foi só para lhe dizer que vou para casa e é tudo por esta noite. Acho que não vai haver barulho, corri com eles todos.

– Muito obrigada Boaventura, você é tão trabalhador. Venha, vou-lhe oferecer uma cerveja… Olhe, quer jantar? Posso aquecer a comida. Tenho mínchi e…

– Agradeço imenso, mas estou cansado. É melhor ir para casa.

Boaventura era pessoa de poucas falas e um frio executor de tarefas que lhe eram incumbidas. D. Gertrudes reparou que ele arqueava e depois de o observar melhor, viu um arranhão enorme que lhe atravessava a face já de si rugosa e outras escoriações pelo pescoço, orelhas, no antebraço direito, vestígios inequívocos de luta séria.

– Abrenúncio, você está ferido! Nossa Senhora, deve ter lutado com um tigre!

– Era um bicho enorme com umas garras como nunca tinha visto. Safado o bicho, atirou-se a mim como se eu lhe tivesse roubado a dama!

A pintura que na mente da D. Gertrudes se formava era a de uma pantera em transformação num leão esfomeado, ante os pormenores que o arranhado zelador alimentava.

– Coitado. Espero que tenha corrido com ele – abriu a sua bolsa e retirou de lá umas notas, dinheiro da sua contribuição. 

– Dei-lhe uma sova grande, pode ter a certeza. Nem passe pela sua cabeça voltar, que logo o reconhecerei e assarei vivo!

Maxi contorcia-se, o seu pêlo eriçava-se.

– Credo, Maxi –  apertava-o com ternura.  

– Ó pequerrucho, tá quieto, não é contigo! – zombava Boaventura, enquanto sorvia o copo de água fresca.

– Você é uma jóia de pessoa, Boaventura. A sua esposa deve ser muito orgulhosa de si. 

– Sou um homem feliz ao serviço de todos!

Boaventura ria-se de orgulho, que sabia ser aparente nessa noite. Quanto mais se gabava, mais quilos ganhava a sua consciência, sobretudo, ante o olhar discreto mas penetrante do franzino Maxi ao colo da D. Gertrudes. 

O sino de S. Lourenço repicava horas, quando já na rua, contava o dinheiro que recebera nessa noite. Parou e levantou a cabeça. Quanto mais atentava para a Lua, mais esta contundia a ferida no olho. 

Lembrou-se então de Maxi. Ia jurar que já o vira algures. Mas, depois meneou a cabeça. 

– Nah, coisa mais parva, essa! 

Até porque nunca compreenderia que pudesse usar o nome Jafarel.

(1) Zona antiga dentro do bairro de S. Lourenço, onde se dizia existir uma fonte cuja água faria o seu bebedor retornar a Macau.

(2) Guloseima chinês, confeccionado com arroz glutinoso, com carne seca e ovo salmoirado, embrulhado em folha de lótus e servida por alturas da festa de Duanwu (端午節), no quinto dia do quinto mês lunar do calendário chinês.

(3) Lua cheia, em crioulo macaense.

(4) Poema do autor. “Lua cheia, lua cheia/ luz do meu coração/ sempre que estejas cá fora/ não terei mais preocupação.

Macau, 25 de Outubro de 2019, Sexta Feira.

@Miguel de Senna Fernandes