
1.
Sorvia um chá com limão fresco, na esplanada junto aos Lagos Nam Van. Todas as tardes aí parava para se deliciar com a sua bebida, servida meticulosamente com duas rodelas de limão, chá vermelho inglês, mesclado com uma pequena dose de jasmim, quatro cubos de gelo e um pouco de xarope de açúcar, o suficiente para amenizar a adstringência do limão. O pessoal do café já se habituara à sua presença e já lhe reservara o lugar onde, sem excepção, se sentava.
– Boa tarde, Sr. Jorge, mais uma tarde linda. – Até conheciam o seu nome “estrangeiro”.
– Obrigado, Ah-Chio. – sorriu folheando o seu jornal.
– Este é o meu último dia aqui no café.
– A sério? Para onde vais?
– O novo casino abriu e está à procura de gente para trabalhar, coloquei os papéis e aceitaram-me.
– Mas quantos anos tens?
– Tenho vinte dois. Imagina, vou ganhar dezassete mil patacas! – exclamou com um tom de orgulho pela sorte que sentiu calhar-lhe.
– Mas os teus pais….
O rapaz sorriu.
– Eles refilam sempre, claro que estão contra. Desde quando, um tipo da minha idade ganha dezassete mil, para começar? Nunca os meus velhotes alguma vez sonharam ganhar tanto na sua vida. Deviam é ficar calados e orgulhosos de mim! Este 2008 é o meu ano! – rematou, rindo-se orgulhosamente.
Jorge nem comentou, apenas esboçou um sorriso a desejar ao noviço o melhor agoiro nessa nova vida prestes a iniciar. A ele e a tantos da sua geração, deslumbrados com a miragem de carros de luxo e iates de imperador. Embora não lhe tenha nada agradado a ingratidão imbecil desse desbocado a precisar de dois tabefes, quem era ele para julgar fosse quem fosse? O seu próprio percurso não o levou a um terraço? Chega de juízos, pensou, até porque os perdeu todos.
Ao cabo de anos de cumprimento da pena agravada de prisão, por burla e falsificação de documentos que, entretanto, lhe fora aplicada, perdeu tudo o que ganhara. Nos cerca de seis anos de cárcere não teve visitas, nem de amigos, para já não falar da sua mulher e dos filhos. Enquanto cumpria a sua pena, tratava do seu divórcio e da custódia destes. Estoicamente aceitou todos os termos que se lhe impuseram e assinou tudo antes que pudesse arrepender-se. A solidão desconstruiu a sua existência, desintegrando-a em bocados, por onde pôde ver do que afinal era feito.
O dia em que saíra não foi dia especial. Deambulou por Macau fora como todo aquele que reencontra a liberdade depois da clausura, despido de posses, de honra e consideração, aquela liberdade cruel que se traduz tão-só na ausência de grades e de trancamento. De saber apenas que está só, sem relação, nem satisfação para com ninguém. No seu caso, não se recuperaria nada, mas iniciar-se-ia tudo, numa outra vida que só a ele caberia traçar.
E esta não poderia ter sido melhor do que imaginara: sem compromissos, nem grandes planos de reconquista. A vida tornou-se mais simples e sem mais preocupações inúteis nos três anos seguintes. O que acontecera não voltaria mais – ou pelo menos não nos mesmos termos em que vivera. Restara-lhe apenas uma única memória de que teimara em conservar. Mais nada. Que mais poderia perder, só Deus o diria. Todavia, também isso pouco lhe importava.
Até porque enterrou o Jorge de nascença que morreu naquele dia no terraço.
2.
Era o dia.
Cinzento e húmido como todos os dias dos ventos do sul, em meados de Fevereiro, na transição do Inverno para a Primavera, onde o bafo do ar cria uma sensação de calor, num tempo que ainda faz frio, cheirando a pano velho à espera de sol. Os soalhos lisos, luzidios, com marcas de sapato, pneu, ou outra coisa que se arrastasse sobre eles, como se tivessem sido enxaguados com lambazes gastos e sujos. Respirava-se ar saturado com as gotículas de água a avolumarem as nuvens, sombreando a luz do dia, sem, no entanto, resultar em chuva.
Ali no alto do terraço via-se nesse dia como o céu carregava sobre cidade que, por sua vez, se sucumbia por baixo dos edifícios, cada um com mais andares, cada qual mais esquisito que outro, porém, todos eles com a característica comum de alojarem celas pequenas gradeadas com armações metálicas, numa clausura que só se via de fora. Daí se divisava como a cidade se tornou mais fechada sobre si, em contraste com a generosidade com que a vizinhança se brindava, no tempo em que havia menos gente, menos dinheiro e ninguém perdia nada, abrindo as portas e janelas para o mundo.
Não obstante a colmeia que se constatava, no alto do terraço não se ouvia zumbido algum. Não era audível o som dos automóveis, da buzina impaciente, do martelar de obras, nem o das melodias electrónicas de telemóveis, a não ser um ocasional chilreio do pardal transeunte ou o som errático e longínquo do cutelo sobre a tábua redonda de carne de alguma cozinha caseira, na preparação do almoço. Macau tem dessas coisas, de haver silêncio no meio do alvoroço da cidade. Talvez porque houvesse um propósito misterioso por trás de tudo que fizesse esse dia o mais calmo possível.
Talvez porque esse fosse o dia, pensou, e o silêncio apenas o prenunciava.
Era dia para morrer.
Os seus sapatos pretos, de formato delgado, de brilho lustroso e de tacão fino não eram os mais apropriados para ele estar sobre o parapeito desse velho edifício. Ademais, de fato cinzento escuro, de calça, colete e casaco de fazenda cara, elegância essa que não jogava bem com o sítio onde se encontrava.
Estava nessa posição havia mais de uma hora, com os pés praticamente a deslizarem-se para o salto. O suor corria-lhe pela testa, a gola da sua camisa já se encharcara. Jorge não via outra coisa. Os seus olhos concentravam-se no piso térreo da rua lá em baixo a cinquenta e mais metros. Mas vacilava. Queria ter a certeza de que o seu salto não iria atingir ninguém de passagem fortuita. Já parecia estar na iminência de lançar um saco lixo sobre a via publica sem querer acertar em alguém com menos fortuna.
Era a terceira vez nessa semana que aí se propusera a lançar-se. Perguntava, contudo, como seria o impacto do seu corpo ao atingir o solo. Cairia de cabeça, de joelhos, de traseiro? Talvez fosse melhor ir de cabeça, pois assim não restaria qualquer hipótese de sobrevivência. Já ouvira várias vezes de que “se é para morrer, que seja imediato!”. Imaginava o seu crânio a abrir-se em pedaços como uma melancia ao atingir o duro chão de cimento da rua. Ou então os ossos a perfurarem as suas entranhas após o impacto produzido em velocidade de queda livre. Não assistiria ao espectáculo, porque não teria olhos para ver a sua viagem vertiginosa.
Tinha tentado realizar o seu desiderato com uma corda ao pescoço, mas a ideia de não poder respirar fez-lhe lembrar de um incidente de infância, ocorrido na água do mar, onde quase se afogara. Por essa razão, nem passou pela sua cabeça um fim por inalação de fumos, gases ou outras substâncias, por mais inodoros pudessem ser.
Queria dar o passo, mas a perna pesava agora toneladas. Tivera ele a audácia de fazer tanta asneira em desafio à vida e agora pôr-lhe fim custava-lhe tanto. Um corpo vivo foi criado para estar vivo e a vida tem mecanismos naturais para se proteger. Não é fácil morrer naturalmente. Era a voz da sua racionalidade, para a sua própria irritação, numa altura em que já lhe faltava força nas pernas que o apoiavam sobre o parapeito. É que antes de voltar ao terraço, saciara-se de álcool, numa vã tentativa de minimizar o torturante espectro de pôr termo a si, que em nada abonava o seu equilíbrio. Não obstante, cedeu ao último pensamento. Será que haveria uma alternativa, ainda uma razão última para não morrer?
Num ápice, atravessaram a sua mente imagens dos passeios a Hong Kong com o seu filho Manuel e a sua mulher Sandra, então grávida da Claudinha, gritos de alegria mesmo em dia de chuva no Ocean Park, para o qual amealhara o suficiente para levar todos, da sua casa antiga e velha, em que com eles onde morara com o seu sogro, que o abraçava sempre que voltava à casa no fim do dia. Lembrava-se da alegria com que todos o recebiam, quando trazia um bolo-mármore comprado no café do átrio do hospital público.
Mas tudo desvanecera quando pensou na sua traição, na ignomínia cometida a todos os mais queridos. O espectro da desilusão estampada no rosto do sogro e da mulher era-lhe simplesmente insuperável. E como enfrentar o seu filho? A Claudinha que já contava seis anos? O sentido de honra desmoronava-se naquele momento sobre o parapeito do terraço. Ele sabia que não tinha outra saída. Por várias vezes que se interrogara e todas as vezes que vinha para aquele terraço, dele saía frustrado pela cobardia em não se atirar.
E voltou ao silêncio do momento. Pareceu-lhe que tudo à sua volta tinha parado à espera da realização do seu desiderato. O dia mais sereno que o habitual, mais respirável do que o comum dos dias húmidos.
Era decididamente dia para morrer.
O seu pé direito moveu-se para a frente, fazendo com que detritos de cimento se soltassem do velho e frágil parapeito. Olhou para o céu, não para se despedir, mas para dizer a Deus que não se importasse com o pecado que iria cometer, pois era-lhe justo dar o passo seguinte. Fechou os olhos e accionou a dinâmica do salto.
Porém, o som de um pranto atalhou o seu intento.
Quase se desequilibrara e escorregara pelo prédio abaixo, contudo teve habilidade suficiente para se manter em pé, à custa do movimento brusco dos seus largos braços. Procurou logo de seguida averiguar donde vinha o som do choro. Caminhou para outro lado do terraço, e viu como havia a escolher muitos pontos “propícios” para um salto mortal. Não era por acaso que o velho e abandonado edifício se apelidava de “prédio do lançamento”.
Por fim divisou a silhueta de uma figura delgada de uma menina.
Não era muito nítida a sua imagem, nesse dia nublado, mas podia afirmar que se tratava de uma menina de cabelos muito escuros, cobrindo o seu pescoço até aos seus ombros. Ainda não conseguia ver a sua cara, mas adivinhou pelo tremelico do seu pequeno e frágil corpo, que chorava profusamente. Esfregou os olhos para ver melhor e julgou que a menina estava de bata de camisa branca, de saia azul-escuro, meias brancas e sapato preto.
Ela estava também em posição de se lançar, meia sola dos seus sapatos já se encontrava fora do parapeito. O seu franzino corpo convulsionava-se com o pranto, a ponto de comprometer o seu próprio equilíbrio. Pela posição da sua cabeça, calculou que a menina tinha os olhos fixos no possível local de embate, as pernas tremiam em sinal de evidente pânico.
Jorge aproximava-se lentamente, sem querer perturbar e muito menos apanhá-la em sobressalto. Havia uma razão silenciosa de evitar que a menina fizesse algo impensado, e decidiu que nesse dia ela não morreria.
Aproximou-se por trás, tão lentamente quanto possível, mas os sapatos de tacão fino traíram-no e não conseguiram silenciar o ruído do esmagamento dos grãos de areia que ia pisando à medida que se aproximava. Estava a três passos da menina.
Esta de repente ficou hirta, mas sem olhar para trás, num movimento tão brusco que quase lhe causou um berro de susto.
– Não te aproximes!
– Menina… tem calma. Aqui é muito perigoso. Estás muito perto de um grande acidente.
– Quero saltar! – O franzino corpo convulsionava-se todo.
– Sim claro … muito bem, mas fica isso para depois. Ouve o que tenho para te dizer.
– Não quero ouvir nada, pois ouvindo só me faz mudar de ideias. Deixa-me em paz – a menina voltou a avançar com metade do seu sapato fora do parapeito.
– Espera, espera… menina, tens muito que viver. Tens tempo para … não saltes.
– E o que fazes aqui neste prédio, senão a mesma coisa?
Jorge engoliu a seco, sem poder retorquir como gostaria.
– Sim, está bem. Esquece a razão que me traz aqui… és tão jovem, o que te pode levar a cometer uma maluqueira destas?
– Isto não é maluqueira!! – Era audível a ira que saía das entranhas do seu frágil corpo, momento em que deixou visível uma parte do seu semblante, mantendo-se ainda que de costas para ele.
Pareceu a Jorge ter-lhe captado um olhar vago e sem mira que denunciava algo triste e depressivo, numa face que em condições diversas seria de uma criança saudável e alegre. Especulou que a menina possuía covinhas.
– Não te irrites… Fica aí mesmo, não te mexas, por favor.
– Porquê me queres ajudar? Não te conheço.
– Não posso imaginar uma menina de tua idade a cometer uma malu… a fazer uma coisa terrível. Diz-me qual a razão…
– Não tenho esperança, a minha vida é negra.
– Vê só… tu não queres saltar! Caso contrário já o terias feito, certo? Há qualquer coisa dentro de ti que não te deixa fazer esta malu… esta coisa triste.
A menina não respondeu. O seu olhar continuava vago e sem destino. Mas Jorge pôde apreciar os finos traços do seu perfil asiático, e sentiu a tristeza pelo motivo, fosse qual ele fosse, dessa resolução forte de pôr fim à sua ténue vida.
– Como te chamas, menina?
Não respondeu logo, mas por fim cedeu.
– Ma Wai Han. Chamam-me em casa de San-San.
– San-San?
– Sempre gostei de sítios altos e sonhei sempre subir uma montanha. É o nome que a minha mãe me deu.
– Muito bem, San-San, este sítio é alto, mas não é uma montanha. É um lugar mesmo muito perigoso. – Ao dizer estas palavras, Jorge sentia calafrios e com vontade de vomitar. – Vamos conversar, pode ser?
– Não vale a pena…
– Prometo-te. Conversamos agora primeiro e se persistires em querer saltar, não…não te impedirei. Juro! – nem soube como pôde dizer aquelas palavras.
San-San nada disse, mas concordou e saiu da zona de perigo, para o suspiro de Jorge que transpirava de alívio. Persistiu, contudo, em estar de costas.
– Explica-me o que se passa. Sabes que os teus pais devem estar muito preocupados contigo.
San-San esperou um pouco para responder.
– Não querem saber de mim. Sou estúpida, inútil, como o meu pai diz.
– Não, menina, se calhar não era isso que ele queria dizer. Deve estar é preocupado contigo e um homem preocupado não mede as palavras e diz o que lhe apetece…
– Diz que por mais que estude, só consigo oitenta por cento.
Ele nunca fora para além do mediano na escola, pensou Jorge.
– A minha mãe concorda com o meu pai. O que ele diz, ela não se atreve a dizer não. Senão o meu pai fica muito zangado, que nem o meu cãozinho escapa à sova.
Jorge emudeceu, com a imagem de violência que a menina lhe dava do seu lar.
– Tens irmãos?
– O meu irmão mais novo Ah-Hong. Mas ele não é uma criança como outras. Ele não fala com ninguém, mas fica contente quando eu lhe canto uma canção. Meu pai diz que ele será assim para sempre e por isso tenho que estudar para um dia o Governo me poder pagar os estudos e salvar a família da desgraça. Sou a última esperança, mesmo sendo filha, diz ele.
– Mas és uma brilhante aluna.
– Mas só tenho oitenta por cento! – gritou – E isto não chega! Meu pai diz que os meus colegas fazem melhor que eu. Sou uma vergonha para ele.
– San San, és uma menina inteligente, acredita. Eu nunca tive mais que sessenta. E é um grande desperdício uma menina como tu querer … lançar-se para baixo.
– Não é verdade! Porquê os outros conseguem notas mais altas e eu não? Porque me falta qualquer coisa. Falta-me a vontade, a inteligência e dedicação.
Isso só podia ter vindo vir do pai, pensou Jorge. E de repente ela voltou a galgar sobre o parapeito.
– San-San, ouve-me com atenção. Tens uma vida à tua frente, em que poderás escolher, bem ou mal, tens tempo para errar e recomeçar e … voltar a errar … até encontrares o caminho certo, entendes? Ao saltares deixas de ter isso tudo.
– Se a vida é tão boa, por que estás aqui?!
Jorge ficou sem fala. Perante uma pergunta tão simples, para a qual não tinha resposta que convencesse nem a si próprio, preferiu ficar calado, olhando para o céu que se adensava e tornava mais turva toda a imagem envolvente.
– Porque o meu tempo terminou – disse por fim.
Contou-lhe, essencialmente, que foi uma pessoa de emoções fortes. Fez muito dinheiro, porque a sorte lhe deu coragem de assumir riscos com acções da bolsa que davam como certo a sua perda. A família dele confiava nele, muito embora a mulher de vez em quando lhe expressasse preocupação nas decisões que tomava, quando muito dinheiro estava envolvido. Os seus filhos precisariam um dia de ir para a universidade e isso custaria muito dinheiro e não podiam dar-se ao luxo de desperdiçar nada que não tivesse minimamente perspectivas de ganho. O tempo de experiência nas suas apostas na bolsa, deu-lhe conhecimento do mercado, como ele reagia, que truques a aplicar a situações diferentes. Em cinco anos, de um simples contabilista que auferia doze mil patacas, passou a usufruir de uma fortuna de cinquenta milhões. Todavia, nessas coisas da bolsa há altos e baixos e quando o momento é baixo, havia que saber como se portar, sem ser comido pelas emoções. E ele era uma das tais pessoas que tinha a frieza de “poker” e aguentava-se bem nos preços mais baixos dos títulos da bolsa.
E um dia chegou em que se viu no outro lado da álea. Nesse dia foi toda a sua fortuna, incluindo as poupanças do sogro, ao qual assegurou que elas trariam o triplo de valor como retorno.
– Não podia enfrentá-los mais – sorriu combalido – não terei mais tempo para me recuperar da vergonha. Só havia uma coisa a enfrentar, a decisão de dar o salto pelo prédio abaixo.
– Mas então que diferença tem a tua situação da minha? – retorquiu a menina.
– É que enquanto tens tempo para viver e recuperar desta situação, a minha vida, a minha família, tudo acabou para mim, não vejo outra saída com sentido.
San San manteve-se serena e nada disse, como que o deixasse a soltar ideias que vinham fechadas na sua cabeça. Escutou imóvel a longa história de Jorge, não o interrompeu uma única vez. Para este, foi uma oportunidade de desabafar sem qualquer rodeios, de desopilar o que do mais profundo vinha da sua alma até onde o seu vocabulário lhe era acessível. Talvez porque a idade tenra da menina o permitiu abrir-se sem qualquer receio de ser julgado. O que iria entender a menina de doze anos que o ouvia passivamente como um beato cego diante de um sacerdote? Ficou, porém, com a sensação de que não estava de todo a falar para o boneco, pois o olho visível da menina embora fixo no vazio distante, reagia a todo o passo da história que ele lhe relatava, como alguém que estivesse ao corrente da sua situação, acompanhando de perto os seus pensamentos.
– Quando fazemos algo mal e afectamos outras pessoas, temos responsabilidades e… temos que enfrentá-las. Ou temos a coragem de as olhar nos seus olhos ou sentimos vergonha. E quando são pessoas queridas que acreditaram cegamente em ti e tu as trais, a vergonha torna-se tão pesada que não há outra forma de nos libertarmos dela, senão… entendes? – suspirou.
Pausou e estiveram mudos durante algum tempo, nesse dia de humidade carregada, banhados pelo bafo do céu, mas serenos, cada um a seu modo.

– Sabes como o corpo acaba quando chega lá em baixo? – San San quebrou o silêncio, na sua voz infantil, mas grave.
Jorge tomou-a de leve. Depois de um momento de confissão da alma, com o peso da culpa acarretado, nada mais importava. Muito embora não lhe fosse alheia a curiosidade mórbida que a pergunta lhe despertara, interessava-lhe apenas convencer uma menina desmiolada a desviar-se da realização de uma vontade não menos patética.
– Vais primeiro sentir o vazio da queda como numa montanha-russa. Não te vai doer, nem saberás que chegaste ao fim. O teu corpo não reagirá ainda no momento em que sentir o duro do chão.
Já ouvira várias histórias sobre saltos falhados, de pessoas que continuaram no mesmo lado quando tudo os levava-os a crer que transitariam de existência. E mirou intensamente na menina que continuava na mesma postura, olhando para o distante.
– Há depois um momento em que não vês nada, como se de repente faltasse a luz – continuou. – Mas quando depois acordas, estás no ar, e não voltarás a cair mais. Vais andar ou flutuar ao redor, sem te aperceberes o que se está a passar contigo. Tudo é turvo. Vês pessoas ao teu redor, que falam sem darem conta de ti, num tom de voz distante, como se estivessem a falar do outro lado de uma parede.
Jorge continua incrédulo, mas a sua atenção aumenta. Não quis interromper o pensamento que a menina lhe queria transmitir, o qual discorria numa sequência de imagens que não se coadunava com o conhecimento comum das crianças da sua idade.
– Mas depois reconheces a rua, quando as imagens começam a fazer sentido para ti. E hás-de ver gente horrorizada nesta rua, que é tão calma e silenciosa, pois também não sabem o que se passou, ante um corpo, dobrado conforme a queda, sobre o solo manchado de vermelho vivo de sangue. Lembras-te então da pancada, mas não sabes se foi violenta, pois não sentiste a dor. E só sabes de uma coisa, passaste para um lado que não é o do comum das pessoas. Nada mais há a fazer.
Ele queria comentar, mas faltaram-lhe naquele instante as palavras. San San prosseguiu.
– Chegas à conclusão de que aquele corpo é o teu.
A cara de Jorge de mera incredulidade se transformou numa de pânico, sobretudo quando a voz infantil de San San ganhava mais serenidade, a um ritmo cada vez mais estável, denunciando uma experiência e conhecimento de causa, enquanto o dia escurecia carregado de um manto de humidade.
– Estás a brincar comigo, menina, não estás? A meter coisas na minha cabeça… não nasci ontem. Já vi o suficiente para saber que partidas me largam, já vi pessoas …
San San não quis deixá-lo terminar, lentamente virou a sua cabeça em direcção a Jorge, que pela primeira vez teve acesso a outra metade da sua cara.
O pequeno crânio da pequena, dividia-se em duas partes e aquela que agora Jorge podia ver era algo como uma massa disforme de carne esmagada, de cor vermelho-acastanhada, sem contornos próprios de uma face, coberta de uma pele descaída, ostentando um glóbulo ocular sem vida. Metade do nariz acompanhava a deformidade, sem uma narina, ou então estava já misturada naquela massa indiscernível de miolo e veias degradadas. Por mais que ele pudesse desafiar a realidade perante os seus olhos, não haveria máscara alguma que pudesse simular com perfeição aquela metade hedionda de face destruída.
– Não! – Jorge correu para o portão do terraço e tentou escapar do horror. Lembrou-se então de que tinha enfiado uma peça metálica no orifício da chave, impedindo que o portão pudesse abrir-se com facilidade. E este teimava em não ceder. De tanto chutar no portão, de martelar na fechadura, feito um idiota, este abriu-se suavemente, para o seu alívio. E antes que pudesse descer as escadas deparou-se com a mesma figura de menina de costas voltadas para o receber.
Jorge voltou para o terraço e por todo o lado que percorria, a menina de costas aí se encontrava.
– Afasta-te de mim!
– Não tenhas medo, não te vou fazer mal.
– És…és… – Jorge de pé em terror querendo afastar-se de San San.
– Para quê tanto medo, se vais ser o que sou, logo a seguir à queda?!
Não sabia que mais podia dizer, nesse estado de choque e de terror.
– O que queres de mim? Para quê essa conversa que houve entre nós, se …se tu já…
– Preciso de ti para me levares a falar com certas pessoas. Eles não me ouvem, não me vêem. Preciso que me leves para casa. Achei que tinhas a bondade suficiente para o fazer.
– Que bondade?? Estou desesperado só quero é morrer e falas-me de bondade?
– Não, não queres, ou não estaríamos a conversar. És um homem bom, só um homem bom não quer que uma criança como eu possa saltar. Fizeste tudo para me convencer a não me atirar. Não podia arranjar outra pessoa para me ajudar. Nestes dois anos só apareceu neste terraço gente imbecil e egoísta. Foste a única pessoa decente.
– Enganaste-me!
– Peço perdão, mas precisava de te conhecer. Não tivesses sensibilidade alguma, já não estarias aqui para me aturar.
Jorge sentou-se no chão e levou as mãos à cabeça, ele que tinha todos os argumentos para pôr termo a si, ele que ouvia a razão de uma existência imaginária, que lhe chocalhara a consciência. Chorou de raiva pela sua incapacidade de dar um passo decisivo.
– Sou uma vergonha para a minha família, para a minha Claudinha! Como posso não morrer?
O espectro sentou-se mais perto dele. Já não ocultava a parte horrenda da sua face e olhava-o fixamente, com os seus olhos desalinhados. Neles lia-se compaixão, mas também de aflição pelo pedido que lhe fizera.
– Ela saberá do pai que tem, um homem bom que quer o melhor para a sua filha. Mas ela não compreenderá porquê, se ele desaparecesse para sempre da sua vida.
– Compreenderá sim, quando souber de tudo do que o seu pai foi. Terá vergonha de mim, este bandido que estás a ver. Não precisará de mim para nada!
San San não respondeu logo.
– Preciso mesmo de ti, preciso que me leves para casa. Tenho de ver o meu irmão.
– Mas para quê se …se já não estás entre nós?
– Estava como tu, queria acabar tudo dentro de mim. Quando senti o vazio, até julguei que iria ser rápido, mas…
– Mas?
– Pensei no meu irmão, não me tinha despedido dele. Arrependi-me tanto e já era tarde – pausou – Estou presa nesta coisa que se repete, sempre que o dia está húmido, quente e carregado de nuvens. Sempre quando alguém aparece aqui. Não consigo ir a sítio nenhum. Até este momento não houve quem me pudesse ver. Aqueles que o conseguem, fingem não dar por mim. Mas estou a conversar contigo. Nunca falei tanto com ninguém desde aquele dia. Tens que me levar – ajoelhou-se – Farei tudo para te ajudar – continuou – mas por favor preciso de ti, será que entendes? É mesmo simples, acompanha-me até minha casa, só preciso de falar com o meu irmão.
– É só isto?
– Só… e depois voltarei aqui contigo. E se precisares serei eu a empurrar-te.
Jorge nada disse. Olhou para o céu e indagou se tudo isso não teria sido uma partida que o Divino lhe estava a pregar, na véspera de um pecado!
3.
Havia muito que não caminhava pelas ruas da cidade. O dinheiro que fizera dispensou o esforço dos pés, agora envoltos em calçado caro, mas não impediu que o suor manchasse a sua camisa de marca. Mas quem anda a pé redescobre aquela parte da cidade, relegada para o segundo ou terceiro plano, habitada pelo cidadão desconhecido. Agora observava como nada se alterara no San Kio. Continuou a haver ruas estreitas enxameadas de motocicletas em movimento, ante a impaciência de automóveis. Manteve-se como um bairro antigo, agora vestido de alguma modernidade trazida pela tecnologia do fim do século.
Jorge caminhava a passo estável, sem pressa alguma. As pessoas que encontrava pelo caminho, contemplavam-no com curiosidade, pelo facto de estar a fazer a figura de um homem em apuros, de fato cinzento escuro com nódoas visíveis, camisa branca já amarelada, com gravata solta ao pescoço. O mais invulgar nisso era que se tratava de um homem de feições ocidentais.
A seu lado seguia San San, mas não se lhe notava o passo. A impressão que dava era que flutuava, até porque uma das pernas estava destorcida, o que desde logo dificultaria qualquer caminhada. Com ela nada era normal, não obstante, seguia suavemente a seu lado, calada, de olho fixo nele, com expectativa. O comum das pessoas que encontrava não a viam, porém, havia algumas que a encaravam com mais conhecimento de causa, mirando de seguida para Jorge, como se quisessem avisá-lo de que mau agoiro o perseguia. Quantas vezes não deslizara por essas ruas, à procura de quem a pudesse acudir. Mas tal não era já preciso, pois agora Jorge seria a pessoa para a realização do seu desiderato. É cruel deambular na solidão, na realidade turva de um outro mundo.
A porta do elevador abriu-se e estava logo à vista o corredor longo daquele sétimo andar do edifício social, num desleixo concertado de objectos inutilizados, cadeiras, electrodomésticos abandonados e toda uma série de itens votados ao abandono dos seus antigos donos. O dia húmido e nublado acentuava a decrepitude do andar, a precisar urgentemente de obras, as quais nunca mais chegariam. Jorge andou calmamente segurando no corrimão do parapeito, donde se divisava um pátio interior do edifício, no piso térreo. Devia ter sido algo bem pensado no projecto, para beneficiar os inquilinos que poderiam ter desfrutado de um espaço de lazer, sem ter de se deslocarem à rua, agora reduzido a um amplo espaço onde se despeja tudo, desde folhas de papelão, móveis usados, peças de metal enferrujado e depósitos de lixo a aguardarem recolha.
San San seguia serenamente atrás e Jorge tentando localizar o apartamento. Por fim deu pela falta da companheira e olhou para trás. A imagem translúcida da menina deformada parara junto ao portão de ferro da casa onde esta morara. Jorge recuou e mirou para a menina que pela primeira vez baixou a cabeça sem se mostrar. Para ela era um momento de tensão, de quem esperava por aquele momento havia muito tempo, depois de repetidas tentativas goradas. Jorge respirou fundo e o seu dedo foi à campainha.
– Quem é você? – exclamou uma voz calma e idosa, de alguém que por aí passara – É raro alguém vir fazer visitas a esta casa! – Jorge reagiu em sobressalto e notou que San San se escondia por trás dele. Teria sido por mero instinto, pois quem a poderia ver?
– Uma desgraça se abateu sobre eles. – A senhora idosa prosseguia virando a cabeça de um lado para o outro.
– A senhora conhece a família?
– Moro aqui há vinte anos, conheço toda a gente. Vi gente a mudar-se para outros sítios e vi novos inquilinos. Claro que conheço. A senhora que vive aqui é uma senhora tímida e de poucas falas. O seu marido era palavroso, falava alto. A vizinhança só ouvia a voz dele. Sabe, estas construções são de pouca qualidade e tudo o que se fala aqui, ouve-se noutros andares – esboçou um sorriso. – Ele ralhava e ralhava. Não havia dia que não se ouvia a voz de mandão do senhor!
Ele nada disse, querendo imaginar o que vinha na cabeça da San San, enquanto a senhora prosseguia.
– Tinham um casal de filhos. A menina era tão graciosa, muito bem-comportada. Cumprimentava todos e depois sorria, e tinha umas covinhas como ninguém. O filho, mais novo, tem problemas, não fala com ninguém. Não é malcomportado, mas tem o seu mundo. Por isso a filha tinha que fazer tudo o que os pais lhe diziam.
– Oh, mas peço desculpa, não devia estar a dizer estas coisas, que não têm nada a ver comigo. Mas… Tenho tanta pena da menina…
– Mas o que lhe aconteceu? – Jorge queria saber da história por outra boca.
A senhora suspirou e olhou para o vago.
– Como se pode exigir de uma criança que ela seja mais inteligente do que já era? Foi demais. O pai era um simples funcionário público, sempre achou que a menina devia ser a salvação da família, pois o menino tem problemas mentais. A mãe não tinha voz na matéria. Quantas vezes ouvimos o pai a ralhar e a bater na menina. A mãe levava também. Os nomes que ele chamava à pobre criança, ó minha Kun Iam Pou Sat, uma dor de alma. Tanto que um dia – suspirou – ela se atirou de um prédio abaixo.
– E o casal?
– A mãe quase enlouqueceu e nunca a vi com tanta coragem de enfrentar o marido, culpando-o da morte da menina. Numa noite de zaragata, ela correu-o da casa. Vimo-lo a sair espavorido, com a cara manchada de sangue. Para nós vizinhos foi justo que aquele camafeu levasse tareia. Mas é tão triste, não é? A menina não voltará mais – suspirou novamente e rematou. – Tenha é cuidado se quiser lá entrar, pois esta casa é muito negativa.
A senhora não queria continuar, mas também não havia mais nada a dizer de novo. Retomou o seu passo.
Jorge olhou para San San que permanecia de cabeça inclinada para o chão. Aí sentiu a dor que não devia sentir, a angústia que lhe devia ser alheia e fixou-se na cara meia coberta de San San. Os traços delgados e finos da menina apenas mostravam metade do que seria a sua cara, vedando a comprida madeixa de cor preta a outra metade de massa disforme. O olho cristalino transparente, porém, sem brilho, nem vida concentrava-se agora no rosto tenso de Jorge. A metade do rosto foi suficiente para mostrar a tristeza a que a menina delgada se submetera.
– San San…- suspirou e fechou os olhos, imaginando como teria sido a sua queda quando se lembrou do seu irmão. Mas os seus pensamentos foram interrompidos.
– Quem é você e o que está a fazer aqui? – Sentiu uma voz ríspida que vinha de trás.
– Você deve ser a Sra. Ma. – Sentiu que San San se ocultava novamente por trás dele – Preciso de falar consigo.
– Não tenho nada para falar consigo. Não o conheço de lado nenhum, nem há ninguém que queira saber algo de mim.
– Deixe-me explicar…
– Vá explicar para o inferno, você é um jornalista com certeza… não me engana… Ponha-se mas é na rua que eu chamo a polícia se continuar a importunar-me. – A Sra. Ma apressava-se a abrir a porta de ferro.
– Sra. Ma é por causa da sua filha…
– Não tenho mais nada a dizer sobre a minha filha! – O tom da voz aumentou desmesuradamente.
A reacção da vizinhança não se fez esperar.
– Oiça, ó senhora Ma, já chega de tanto barulho, ou sou eu que vou chamar a polícia! – bradava alguém.
A Sra. Ma pediu desculpas e abriu a sua porta num ápice e fez um gesto para que Jorge entrasse. E um vento fresco acompanhou-o.
– Não sei o que realmente você quer, mas tem dois minutos para dizer o que pretende e o que isso tem a ver comigo e com a minha filha.
Jorge hesitou um pouco para ver qual a melhor a forma de abordar a questão. E viu a San San a andar dum lugar para outro, quase desesperada.
– Não há nada consigo, mas apenas com o seu filho.
– Falar do meu filho, como se atreve?!
– Não sou eu que quero falar com ele. – hesitou. – É a San San.
O espanto e o pânico estamparam-se no rosto da Sra. Ma, que esperava tudo menos o que acabara de ouvir. De facto, o que este indivíduo de cara ocidental sabia da sua humilde família, completamente votada ao desconhecimento geral das pessoas? E como sabia ele que a sua filha era chamada pelo nome da casa de San San? Mas não se deu por convencida e num instante pegou num varão que encontrou na mão e ameaçou.
– Se você não sair daqui, vou-lhe partir a cara. Como você sabe desse nome-San San?
– Tenha calma, não quero fazer mal a ninguém. Só preciso falar com o Hong Chai…
A Sra. sentiu o arrepio a subir pela espinha acima quando ouviu outro nome de casa.
– Como…como você sabe tanto de nós? E porquê … nós? Quem anda a falar de nós??
Jorge fixou-se nos olhos trémulos da Sra. Ma.
– San San…
– Mas ela…
– Está aqui nesta casa … minha senhora, ela só quer falar com o irmão…
Como que tivesse acordado de um sono, recuperou os seus sentidos e voltou a empunhar o varão, pronto para agredir.
– Vá-se embora, este é último aviso. Desta vez não ligarei para as queixas dos meus vizinhos.
Jorge sem se sentir intimidado, estava mais concentrado em ouvir a voz que lhe sussurrava por trás.
– Foi com este varão que o seu marido a ameaçava e aos seus filhos. O sr. Ma vinha para casa e o jantar tinha que estar na mesa, mas antes disto… chamava pela San San, que tinha de lhe dizer o que fizera na escola. Interrogava-a sobre tudo, sobre o que os professores lhe diziam. … Na época dos testes vinha para casa e punha a San San a estudar até altas horas. Batia nela quando vinham os resultados. A senhora não dizia nada, pois concordava com o marido. … E você via o marido a espancar a menina. …Nunca lhe deu uma palavra de conforto, porque tinha medo que o seu marido lhe batesse também, como tantas vezes fazia no vosso quarto. Agora deixe-me falar com o seu filho, não demoro muito e não me encontrará nunca mais, juro!
A Sra. Ma ainda chocada pela verdade saída da boca de Jorge apenas abriu a porta do quarto do filho. Dentro da sala pequena, com janela semifechada, fez-se sentir um sopro de ar que logo desapareceu para o interior do quarto.
E ali estava na sua cama, Hong Chai sentado sobre os seus calcanhares. Abanava-se para frente e para trás, num movimento maquinal sem aparente causa, com as mãos sobre as coxas, dedos cruzados, como se a orar em transe, com olhos fixos numa fotografia. No quarto, a luz não era clara, mas o suficiente para se aperceber com o que ele se entretinha. Jorge olhou à sua volta e viu como tudo estava arrumado em contraste embaraçoso com o aspecto da sala. No chão, todavia, havia objectos soltos, contudo dispostos numa série que ele não entendia, numa sequência longa e repetitiva de lápis de cor-folhinha de jornal recortada em quadrado-envelope de lei-si, nessa mesma ordem. Partia do local onde ele se encontrava, percorria pelo quarto todo, como se um caminho de ferro fosse e por fim terminava na cama junto dele.
A cara deformada da San San, não obstante acabrunhada, transparecia felicidade. Estava tão perto de se realizar o seu desejo.
Jorge aproximou-se lentamente do rapaz e, sem que este desse por isso, examinou os recortes em quadrado, onde se encontravam assinalados com círculo, os caracteres que correspondiam a homófonos de San ou então a tons similares. Havia então o san de “coral”, “divino”, “novo”, “corpo”, mas também havia os de “manhã” e “ter cuidado”. O rapaz possuía um conhecimento profundo da sua língua mãe, concluiu Jorge, para a sua revolta contra o pai. De seguida, abriu um dos envelopes de lei-si, e daí desencantou uma foto de San San. Não havia mais espaço para hesitar, tinha sim obrigação moral de lhe falar.
– Hong…Hong Chai… Estou aqui porque alguém quer falar contigo, mas não sabe como.
O corpo de Hong Chai retomou o movimento, em sinal de que não queria nada com Jorge. Este olhou para San San à procura de uma solução.
– Hong Chai, não me conheces, mas sei que és inteligente. Tanto como a tua irmã San San…
O rapaz interrompeu o seu vai-vem.
– Canta isto… – sussurrou San San.
– O quê? Como vou cantar?
San San começou com a melodia e Jorge tentou reproduzi-la com o seu destoado timbre.
Hong Chai parou de se mexer, os seus olhos deslocaram-se para todos os lados do quarto, à procura de algo a que a sua estruturada mente se desabituara e suspirou sentindo um ar fresco que acabara de o envolver. E sorriu.
– San…! – pronunciara suavemente.
Jorge compreendeu.

– Ela quer que saibas que está bem e em paz, porque finalmente alguém pôde falar por ela. Ela tinha que te dizer isto, mas nunca soube como. Não continues magoado com ela. Neste momento precisa de ti… precisa que saibas que ela está bem. Ela pede o teu perdão.
– San…! – Os seus movimentos deixaram de ser meros reflexos erráticos, para se converterem em algo rítmico, num terno embalar e por fim numa mímica de aconchego nos braços de uma mãe. De San San.
Hong Chai fechou os olhos quando o ar fresco de champaca banhou todo o seu corpo. Ele sorria de felicidade, inalando o odor até o mais profundo dos seus brônquios, recusando-se a expirar, para não deixar escapulir o que lhe restava de algo que não experimentava havia muito tempo.
– San…!
Esta abraçava-o e, com a cabeça, inclinou-se junto à nuca do seu delirado irmão, sussurrando-lhe e sossegando-o das imensas dúvidas. Para Jorge era um privilégio de ser o único que testemunhava esse momento que não era visível para ninguém, momento que provavelmente não aconteceria com ele. Dificilmente abraçaria Claudinha dessa maneira. Sentiu por isso a felicidade – senão também inveja – por Hong Chai.
Por fim a menina fez sinal de que estava feito o favor, já podia partir. Notou-se então como a sua pequena face se transformou algo do mais belo que uma menina de doze anos pode mostrar com toda a sua inocência. Ele então acenou-lhe dizendo que era hora de si irem embora.
À saída do quarto de Hong Chai, Jorge fez um gesto de agradecimento à Sra. Ma, agora prostrada numa cadeira junto da mesa de jantar, combalida de tristeza.
– Sra. Ma, agradeço-lhe este momento e sinto muito ter causado tantos problemas emocionais à sua família. Fiz o que pude à sua filha e julgo que ela pode partir satisfeita – a Sra. Ma ouvia apaticamente e sem qualquer reacção – Conforme prometi, vou-me embora e prometo não voltar mais, pode descansar.
Fez uma vénia e principiou a sua saída da casa. O vento fez-se sentir novamente, rodopiando a casa, parando às costas de Jorge como que estando também pronta para partir. Eis quando a Sra. Ma se desfez em pranto, ajoelhando-se.
– San San … fui tudo menos ser tua mãe. Não tive coragem de estar ao teu lado e te proteger quando o teu pai foi injusto contigo. Ele nunca teve modos e eu tive medo dele. Medo da sua pancada, medo de que ele nos abandonasse, que me fizesse ainda mais mal. No momento em que te perdi, deixei de ser eu e enfrentei-o, sovei-o, corri com ele da casa. Mas já era tarde. A minha San San deixou de existir. Queria tanto que soubesses o que tinha para te dizer. E dizer isto tudo antes da tua partida. De te afagar e apertar-te junto de mim, como uma mãe devia fazer. Mas saíste deste mundo antes que eu pudesse mostrar-te o meu arrependimento. Tentei fazer isso ao teu irmão, mas metade de mim, foi contigo. Sei que não voltarás mais, que não me perdoarás. Mereço. Não sou digna de ninguém, sei. Mas ao menos deixa-me pedir-te perdão, filha.
A Sra Ma viu-se no chão, o seu corpo sobre as suas pernas dobradas, a sua face manchada de lágrima, mas sobretudo de rugas de desespero, o coração agoniado. Todavia, soltou-se algo dentro de si. A culpa tem o peso à medida da consciência de cada um. Se jamais pudermos libertarmos dela, ao menos podemos aliviá-la . E foi nesse momento que se viu envolta de um ar fresco e puro, um fio de vento a lamber-lhe a cara, as sobrancelhas, os lábios, o pescoço, as axilas, todo o corpo. O ar pressionou o seu peito e à volta da sua cintura. A Sra. Ma fechou os olhos para experimentar o que provavelmente teria ocorrido ao seu filho, momentos atrás, e num instante pareceu-lhe cheirar a essência de champaca tão habitual do cabelo da menina e que lhe fez lembrar que havia muito que não beijava a testa de ninguém. Sensação estranha essa, mas reconfortante como que tivesse sido abraçada por um vento milagroso que, depois de arrancar o que havia de tão denso dentro da sua alma, livrou-a do grilhão que a atormentara durante muito tempo. Sentiu-se, então, leve e experimentou a felicidade que via já arredada da sua vida.
Jorge simplesmente viu a San San abraçada à mãe sem a querer largar, bem sabendo que tal lhe não era possível prolongar. Olhou para fora e viu um ténue clarão a formar-se, e sentiu que era a altura para a menina partir de vez.
Sem alternativa saiu do apartamento em direcção ao elevador por onde veio. A Sra.. Ma sentiu que o vento que a envolvia começou a largá-la. De Jorge apenas via as costas de quem se afastava do lugar e, subitamente, da sombra das suas costas divisou a figura ténue e enevoada que pareceu ser de uma figura feminina, franzina que lhe acenava um adeus. Foi pena não ter capturado e fixado o rosto da figura, mas tinha a certeza de que a menina lhe sorria feliz e em paz. A Sra. Ma levantou o braço e acenou também. A seu lado sentiu a mão de Hong Chai, que apertava a sua mão livre. Queria estar presente na despedida.
– San…!
4.
O caminho de volta ao terraço fez-se em silêncio. Sorumbático, percorrera-o sem a atentar sequer, ainda que sentisse o seu olhar fixo nele como foi na ida à casa. Não obstante, havia nela algo diferente, agora mais leve e radiante, envolta numa leve aura que não existia. Se tal tinha alguma coisa a ver com o que se passou em casa da Srª Ma, não ousou especular, contudo tal feito não lhe aproveitara e a turbulência ainda reinava na sua alma. Sabia que no dia seguinte da sua vida iria enfrentar os mesmos fantasmas, a mesma vergonha e desilusão. O mesmo propósito de morrer.
De novo junto ao parapeito do decrépito edifício inacabado, olhava para a frente sem qualquer ponto de referência, mantendo-se no seu silêncio. E sentiu o olhar penetrante de San San. A figura lúgubre, frágil, distorcida que ele conhecera, transformou-se em algo deslumbrante como uma flor restaurada e ressuscitada na plentitude da sua beleza. Exibia as suas covinhas com um simples sorriso desenhado pelos seus frágeis mas rosados lábios que lentamente iam descortinando dentes perfeitos, de uma jovem senhora que certamente seria. Só lhe restavam duas marcas por sarar, uma na testa e outra no queixo, mas face alva já estava praticamente recomposta e exibia agora olhos de comoção, os mesmos de uma saudade antecipada, de quem olha para o entre querido num cais de embarque.
– Estou aqui porque prometi estar contigo. Mas a hora está a chegar, e vou-me atrasar. Ansiei tanto por este dia que nunca mais chegava. Vou ter saudades de ti e é estranho porque mal te conheci.
– Menina, vamo-nos ver daqui a pouco – Jorge cerrou os dentes e já não pestanejava. – Não tenho saída. Nenhuma – esboçou um sorriso.
San San sorriu também.
– Construíste uma casa que neste momento só te dá porta fechada. Se ela não existisse, não haveria, nem entrada, nem saída, não achas? És teimoso, mas a tua hora ainda não chegou.
– Ah, menina! – suspirou com os olhos carregados de lágrima.
À sua frente só via como mentira à sua mulher Sandra, convencendo-a a largar mão dos fundos investidos, dos depósitos em dinheiro guardados para os estudos dos seus filhos, a hipotecar a casa que compraram, onde construíram o seu lar. Como logrou delapidar as poupanças do sogro, forjando a sua assinatura. Era o dinheiro, e muito dele, que precisava para pagar agiotas, que já tinham dado sinais evidentes de que a sua cobrança seria a custo dos entes mais queridos. E era a vergonha de não ser suficientemente homem, de ser antes um cão traiçoeiro que morderia todos por um osso seco e abandonado por outros cães. Apareceu-lhe então a imagem da Claudinha.
– Perdoarás o teu pai, menina?
Acto contínuo, galgou sobre o parapeito. Desta vez, não tremia mais. O seu semblante deixou de ser grave, havia intento no seu movimento e os olhos expressavam serenidade. Estava pronto para abraçar o seu destino. Olhou então para San San.
Mas esta tinha os olhos fixos em algo atrás dele. A graciosidade ganha para as suas expressões faciais, transformou-se em algo sombrio, não de raiva, porém. Jorge então mira a outra extremidade do parapeito e encontra um homem empunhando três pivetes, fazendo lentamente as três inclinações em continência. Quem seria a pessoa que provocara a reacção da garota?
– Meu pai. – Sussurrou. – Todas as vezes que apareço ele está aqui neste terraço. Mas não me consegue ver.
– Queres falar com ele?
– Afastei-me tanto dele que já não sei o que é falar com ele. Ignoro o que ele faz ou pretende fazer neste terraço. Vou deixá-lo em paz.
– Há uma razão para estar aqui, e sendo tu a filha dele, achas que nada tem a ver contigo?
– Não sei o que vou fazer dele… entendes? – retorquiu cabisbaixa.
– Aguarda o mais que puderes. Peço-te…
– Porquê Jorge?
– Não sei… acho que é importante para ti… enfrentá-lo. O que farás depende só de ti.
Jorge dirigiu-se para o outro lado do terraço, onde o homem rezava de costas para ele. À medida que se aproximava as palavras tornaram-se mais audíveis.
– San San, hoje é o dia em que farias anos. Quinze anos! Deverias ser uma menina tão linda, que gostaria de ter nos meus braços. Mas não estás, por minha culpa. É difícil ser pai, mas mais difícil é ser filha de um pai cegamente imbecil. Todos os dias que passam, vou morrendo aos poucos. Mereço isto. Mas a ti filha, desejo-te que estejas bem e que tenhas tido o caminho sereno, que não tiveste … comigo.
– Ela esteve muito mal, mas agora está bem Sr. Ma.
– Desculpe? Não o conheço…
– Não vou ter tempo para explicar tudo. No entanto, não me interrompa. Acabei de visitar a sua casa e o seu filho Hong Chai. A sua esposa disse o mesmo, quando não queria falar comigo. Trago uma palavra da sua filha San San.
Antes que houvesse alguma reacção, Jorge prosseguiu.
– Ela esforçou-se muito, fez tudo ao seu alcance, para salvar a honra da família, aquilo que você foi incapaz de proteger.
Olhou de relance a menina e pausou para deixar o confuso Sr. Ma digerir o que nunca sonhara ouvir.
– Estou aqui porque ela precisa de mim para chegar a si.
Sr. Ma não teve palavras e seguiu o olhar de Jorge.
Divisou então uma figura ténue e esbatida contra o breu do céu carregado, que se ia aproximando. Não era nítida, mas pareceu-lhe ser de uma menina trajada de uniforme de escola. E lembrou-se do que a filha pusera naquela manhã, com que partira para sempre. O instinto badalou e percebeu então que chegara o momento decisivo da sua vida, à medida que o ente turvo se aproximava. Manteve-se calmo, mas não evitou que os dentes pressionassem os seus maxilares. Abriu bem os olhos, estava pronto para receber fosse o que fosse.
Era uma cara que lhe era bem conhecida, rodeada por aura que enaltecia os contornos da cara, com covinhas pronunciadas, de olhos grandes mas tristes. Tão bela estava a sua filhinha, a mesma que ele condenou ao hediondo desfecho.
– San San… eu… – não sabia mais o que dizer ante aquele olhar penetrante da menina.
Porém, o efémero brilho transformou-se então em algo acinzentado, amorfo, onde a cara foi engolida, para daí emergir uma deturpação de tudo quanto é belo. Diante dos seus olhos a figura graciosa que o ente ostentava modificara-se e deu origem a um rosto com uma metade descaída, um globo ocular solto, uma cara esmagada por uma por uma superfície enorme, ou então ocasionada por uma queda violenta e abrupta. A nívea figura que lhe surgira inicialmente era agora uma massa indistinta de sangue e de carne moída. Na sua mente iniciou-se uma dança de imagens da sua filha chorando ante os berros que vociferava, a sova que levava, os insultos que suportava. Via-se fora de si com os resultados indesejados estampados na folha dos testes. Via como ela se ajoelhava e aceitava sem contrariar a sua condição de mente diminuída que ele lhe fazia crer, capitulando-se em silêncio à sua prepotência.
Havia muito que não sentia lágrimas vertendo profusamente sobre o seu semblante precocemente envelhecido. Não era dor física que sentia, mas antes uma profunda depressão e era assim que imaginava o Inferno, um vácuo mórbido de tristeza. Se a culpa o atormentara e o carcomera durante esses três anos, ela queimava-o vivo nesse dia no terraço.
– Leva-me filha, faz de mim o que mereço. Devia ter sido eu a atirar-me e não tu minha filha. Sei que não me perdoarás, nem é isso que pretendo, mas sabe que te peço o perdão. Se eu puder resgatar a tua vida, com a minha, estou pronto.
Ajoelhou-se cerimonialmente, prostrando a cabeça no chão, numa vénia submissa à mercê de tudo.
– Foste a menina mais inteligente que eu conheci, mais dedicada de que alguma vez ouvi falar, mais querida que um pai pode crer. Acaba comigo, solta-me desta culpa que me devora todos os dias.
O mundo parou, o tempo desacelerou, os segundos demoraram minutos, e estes, horas. Paulatinamente, a pressão que sentiu sobre as costas, o aperto no seu pescoço, a secura na sua garganta, a paraplegia das suas pernas, foram-se dissipando. Lentamente, ergueu o torso e constatou que a figura horrenda que presenciara tinha desaparecido. Sentia-se apenas um ar seco e fresco que se deslocava como vento que agora lhe lambia o seu peito, alcançando ambas as faces, o nariz, a testa, rodopiando à volta do seu corpo, fixando-se depois nas suas costas, enrolando o seu pescoço. Sr. Ma então fechou os olhos e sentiu-se leve, esvaindo-se dos grilhões que o aprisionaram durante anos. Surpreendeu-se com o sorriso que os seus próprios lábios esboçaram, quando o odor a champaca subia pelas narinas adentro.
– San San… – suspirou.
Jorge assistia, com uma ponta de inveja, a menina às cavalitas nas costas do seu pai, com os braços bem apertados à volta de seu pescoço, de olhos fechados, como se quisesse eternizar aquele momento que ela não pedira, nem previra.
O vento rodopiou a cabeça do Sr. Ma e lentamente se afastou, deixando-o desolado por um momento, até que lhe sobreveio uma paz para ficar. Muito embora soubesse que a culpa continuaria a espreitá-lo, como certamente o acompanharia para resto dos seus dias, sentiu-se renovado no seu propósito de vida, como se tivesse saído de um sonho fantástico.
– Não sei o que você fez, mas … obrigado – segurou as mãos de Jorge.
– Não me agradeça. Limitei-me a seguir o que desejaria para a minha própria filha.
Sr. Ma deu-lhe uma palmadinha de conforto.
– Meu caro amigo, estimo que nada tenha acontecido ainda à sua filha. Está em tempo de remediar qualquer mal que lhe tenha feito, algo que já não posso desejar para mim. Dou-lhe um conselho: não desapareça sem se despedir dela. – deu a Jorge um abraço e saiu combalido do local, porém, agora mais leve e livre, com a íntima convicção de que realmente vira a sua filha.
San San observou o pai a sair pela porta do terraço e esperou para dizer adeus. Estava uma moça bela e no seu rosto quase perfeito apenas restara uma marca no queixo.
– É agora. – O clarão tornou-se visível, trespassando as nuvens densas do dia – Um dia verás essa luz ao longe e saberás porque devemos segui-la, sem nunca arrepender-nos.
– Não sei o que fazer – retorquiu ainda desanimado.
San sorriu.
– Sabes sim, a tua filha merece a tua presença, por mais mal que tenhas feito.
As últimas palavras já soavam em eco, como se proferidas dentro de uma catedral. Jorge olhou pela última vez a menina sorridente que lentamente se ia confundindo com a luz do brilho que vinha de trás. Pouco a pouco, só lhe restavam visíveis os seus olhos grandes, pupilas escuras e o seu lindo sorriso. Um sorriso de confiança num caminho melhor. Eternamente melhor.
5.
– Sr. Jorge, sente-se bem? Quer que lhe traga um copo de água?
Jorge voltou aos seus sentidos.
– Quanto tempo estive a … dormir?
– Hmm… uns três minutos, não a dormir, mas a olhar para aquele poster – apontou para o mesmo anúncio. É uma moça gira, pena que tem um defeito no queixo. Na minha opinião, claro. Julgo que as modelos de hoje já não podem ter defeitos assim.
Não ligou para os dislates de Ah-Chio, mas concordou com ele, o modelo do poster tinha feições atraentes, com ou sem imperfeições.
– Desculpe Sr. Jorge, às vezes falo demais. Mas está alguém lá atrás que quer falar consigo. Já esteve cá umas vezes, mas nunca pediu isso.
Jorge olhou na direcção onde o rapaz apontou e divisou uma moça dos seus dezasseis anos ou se calhar mais, de cabelos compridos e ondulados, olhos claros e pele muito alva. Pareceu-lhe familiar, mas não estava a reconhecer. A moça decidiu aproximar-se, ao sinal do empregado da mesa.
Nada disse quando ela se sentou à sua frente. Notava-se nela algum nervosismo, como se estivesse diante dum examinador. Custou aos seus olhos tímidos a coragem de olhá-lo de frente.
– O senhor não deve reconhecer-me, mas andei à sua procura desde que voltei há uns meses. Não podia dizer isso à minha mãe para não lhe criar qualquer preocupação. Li o seu livro sobre resiliência e há pontos que sinto dizerem respeito a mim.
Pausou, as suas faces ruboresceram antecipadamente.
– Você não sai da minha cabeça.
Jorge sorriu com curiosidade.
– Agradeço e fico feliz que a minha humilde obra tenha tido impacto em ti. Mas cheguei a conhecer-te?
A menina apertou o guardanapo que tinha nas suas mãos.
– Não sei como lhe vou contar, mas peço-lhe que não me interrompa.
Ele franziu a testa e prestou atenção.
– Na altura em que você estava na prisão, saí de Macau. O meu pai tinha falecido, segundo a minha mãe, e durante anos tive uma vida sem sobressaltos. Mas há anos para cá que um sonho me anda a perseguir. Vejo uma menina às cavalitas nas costas do seu pai, a olhar para mim e a dizer-me “é ele”. Mas o “ele” nunca aparecia. Não tenho sonhos recorrentes com esta persistência. Até que no ano passado uma cara me surge. Era o “ele” que a menina referia.
Estava agora atento.
– “Ele” estava num terraço abandonado, depois, atrás de grades e de seguida, aqui neste lugar sozinho… Lembrei-me aos poucos dessa cara, duma pessoa que vivia na minha casa e que de vez em quando me contava histórias. Aquela menina olhou para mim e apontou de novo, “é ele” e sorriu-me – suspirou fundo. Era você, Sr. Jorge.
Pausou.
– Mas ele é … o quê? – prosseguiu. Andei a interrogar-me. Ate que vi a referência ao seu livro, vi a sua fotografia. Fiz tudo para voltar a Macau e foi bom ter aproveitado um programa de intercâmbio de estudantes, em que a todo o custo quis participar.
A incredulidade estampava-se no rosto de Jorge.
– Oh, não…
– Sou Cláudia… pai.
Passaram toda a tarde de mãos dadas, entre abraços, prantos e risos, de coração dado, olhos nos olhos. Contaram tudo o que a cada um acontecera nesses anos. Tudo o que ele armazenara em si para conter a saudade, o ímpeto da paixão e revolta contra a solidão, soltou-se como um petardo de mil fogos a rebentar no firmamento da sua alma.
Para ambos, aquele instante era feito de contradições — um turbilhão de sentimentos confusos e de um afecto que desafiava a razão. Ela encontrara-se nos braços de um estranho que lhe despertava uma saudade impossível, enquanto ele sentia o peso nostálgico de um passado interrompido pela separação. A memória, que se recusava a desvanecer-se, surtira agora o seu efeito — o único que ainda o mantinha vivo, com um sentido de ser.
A noite aproximara-se e o vento de outono soprava do norte. Cláudia encostou a cabeça ao ombro do pai, agarrando-se ao seu braço. Jorge pensou se merecia isso que experimentava pela primeira vez em tantos anos. Suspirou e desistiu de questionar fosse o que fosse. Viver com o que o acaso lhe oferecia era quanto lhe bastava.
Teria sido acaso?
Os seus olhos voltaram-se fortuitamente para o poster. A modelo mirava-o intensamente, o seu sorriso era vivo. Pareceu-lhe agora que tinha covinhas e o defeito tinha desaparecido. Por baixo, sobressaíam caracteres que diziam “É ela”. Lembrou-se novamente do terraço. Instintivamente, sorriu e agradeceu.
Ao afagar os cabelos da filhota, inalou o perfume que traziam. Era de champaca.

F I M
Notas
Kun Iam Pou Sat, 觀音菩薩, é a designação em cantonês da Bodisatva da compaixão, isto é, Guanyin/Kuan Yin, figura budista associada à misericórdia, proteção e escuta dos sofrimentos humanos.
A palavras ou caracteres homófonos de “San” em causa: “珊” (coral), “神” (divino”) “新”(novo), “身”(corpo), mas também havia os de “晨” (manhã) e “慎” (prudência).
Macau, 16 de Janeiro de 2026, Sexta Feira.
Miguel de Senna Fernandes
